5 de junho de 2026

Vidas Paralelas: as profetizas do fim do mundo velho e o capetão do ex-capitão, por Sebastião Nunes

Diante do que acontece hoje, dá até vontade de retomar a velha frase “não confie em ninguém com mais de 30 anos”, talvez até reduzindo a idade de 30 para 20.

Vidas Paralelas: as profetizas do fim do mundo velho e o capetão do ex-capitão

por Sebastião Nunes

A humanidade sempre dependeu de deuses e de pecadores.

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Desde que passamos a caminhar sobre duas patas, nós, o famoso homo sapiens, aprendemos a usar novas habilidades para sobreviver.

Nas noites tempestuosas e escuras, ouvindo urros e miados e latidos e uivos de animais famintos, avivávamos as fogueiras e aguçávamos pedras amarradas com embira em pedaços de pau. E estávamos prontos para atacar e defender.

Nas profundas cavernas protetoras, entre tremores e suores, já covardes e cruéis como hoje, invocávamos deuses para nos salvarem dos perigos que nos cercavam.

Durante os dias luminosos, amparados pelos deuses, bandos de nós se metiam pelas pradarias e florestas e desertos e rios e pântanos, tingindo as mãos com o sangue de vítimas agonizantes, pecadores que nos cumpria exterminar para sobreviver.

Em recompensa pelos serviços prestados pelos nossos deuses, assávamos postas desses pecadores e as ofertávamos, em altares de pedra.

Assim, ou mais ou menos assim, passaram-se milênios.

 

OS SÉCULOS DE CARNIFICINA

Criamos cidades e exércitos. Passamos a caçar, além de animais nas florestas, bandos iguais a nós, porém pecadores, para exterminá-los e roubar-lhes as riquezas.

Mas cada bando, ou cada grupo de bandos, tinha seu deus ou seus deuses, diante do qual ou dos quais ofertava o sangue dos pecadores, e também hinos e louvores.

À medida que os bandos se encorpavam e se multiplicavam, os deuses se tornavam mais poderosos e, como nós, mais ferozes.

Assim nasceram Aníbal, Alexandre, César, Átila, Napoleão e Hitler, incumbidos de missões importantes por seus deuses pessoais. A essa altura os deuses individuais, se fundiram em um só, sob o codinome Deus! (com inicial maiúscula e exclamação no final), tornando-se a cada dia mais sedento de sangue, riqueza e poder.

Decorreram os vinte séculos da chamada Era Cristã, durante os quais, sem susto, nos habituamos a ver a cara do monstro nos espelhos diante de nós.

 

CHEGAM AS MENININHAS

Severn Cullis-Suzuki tinha 12 anos quando, participando da ECO-92, no Rio de Janeiro, disse, com todas as letras:

“Sou apenas uma criança e não tenho todas as soluções, mas quero que saibam, que vocês também não têm… Vocês não sabem como reparar os buracos na camada de ozônio… Vocês não sabem como salvar os peixes das águas poluídas… Vocês não podem ressuscitar os animais extintos… E vocês não podem recuperar as florestas que um dia existiram e onde hoje é um deserto… SE VOCÊS NÃO PODEM RECUPERAR NADA DISSO, POR FAVOR PAREM DE DESTRUIR!!!”

Greta Thumberg todos sabem quem é, todos sabem o que tem feito e dito desde que assumiu sua batalha contra o desastre que se avizinha. Esta semana foi aclamada na ONU sob os codinomes de esperança e de futuro, com iniciais minúsculas.

Severn está com 39 anos e continua na luta. Greta tem 16 anos e possivelmente continuará firme em sua caminhada, apoiada por milhões – ou serão bilhões amanhã? – de jovens de centenas de países.

Diante do que acontece hoje, dá até vontade de retomar a velha frase “não confie em ninguém com mais de 30 anos”, talvez até reduzindo a idade de 30 para 20. Se não vale para todos, vale para pelo menos 90% de nós e de nossos discursos.

 

CONTINUA O FIM DO MUNDO

Como se não bastassem os bilhões de poderosos e seus paus-mandados bons de discurso, países como EUA e Brasil são hoje guiados por Deus! (com inicial maiúscula e exclamação no fim).

Nos Estados Unidos, Trump faz que vai mas não vai e depois fica espiando para ver o efeito que fez. Continua o palhaço que sempre foi. Em nome de Deus!

No Brasil, o ex-capitão Jair Messias garimpou seus apóstolos nos ninhos mais peçonhentos da extrema direita, inclusive seu ministro das relações exteriores, o capetão retratado aí em cima, com três pares coloridos de chifres. Em nome de Deus!

Todos eles estão velhos e podres. Talvez mais podres do que velhos.

Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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