19 de outubro de 2026

El Niño à vista: que país queremos encontrar quando ele chegar?, por Iara Vidal

As projeções para os próximos meses indicam a possibilidade de um episódio intenso, com efeitos que podem se prolongar por 2027
Lula na Floresta Amazônica - foto de Ricardo Stuckert

El Niño pode provocar secas, chuvas intensas e calor no Brasil; 6,9 milhões foram afetados por desastres recentes.
Vulnerabilidade social agrava impactos climáticos; prevenção ambiental é política social e econômica fundamental.
Eleição 2026 define resposta à crise climática: reconhecimento científico e preparo estatal são decisivos.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

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El Niño à vista: que país queremos encontrar quando ele chegar?

Entre eventos extremos, prevenção e capacidade do Estado, explico por que a forma de enfrentar os riscos climáticos também pesa na minha decisão de votar em Lula

O El Niño está voltando ao centro das atenções. As projeções para os próximos meses indicam a possibilidade de um episódio intenso, com efeitos que podem se prolongar pelo primeiro trimestre de 2027 e alterar os padrões de chuva e temperatura em várias partes do planeta.

O fenômeno ocorre quando há um aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, modificando a circulação atmosférica. No Brasil, isso pode significar secas mais prolongadas em algumas regiões, chuvas intensas em outras e períodos de calor acima da média.

Nada disso é novidade em si. O El Niño faz parte da dinâmica natural do clima.

O que mudou é o mundo em que ele chega.

Hoje, fenômenos climáticos intensos encontram cidades mais vulneráveis, áreas urbanas pouco preparadas, ecossistemas pressionados e uma população que sente de forma profundamente desigual os efeitos da seca, das enchentes e do calor extremo.

Por isso, é importante separar as coisas. El Niño e crise climática não são sinônimos. Um é um fenômeno natural e recorrente; a outra é resultado de um processo de aquecimento global impulsionado, sobretudo, pelas atividades humanas. Mas os dois podem se cruzar de maneiras que ampliam riscos e tornam seus efeitos mais difíceis de enfrentar.

“Super El Niño”, inclusive, é uma expressão jornalística, não uma categoria científica oficial. O termo é usado para descrever episódios excepcionalmente intensos, mas não altera a natureza do fenômeno.

Para mim, é justamente nesse ponto que o debate deixa de ser apenas meteorológico.

A pergunta não é se o Brasil pode impedir o próximo El Niño. Não pode.

A pergunta é: que país estamos construindo para enfrentar fenômenos que sabemos que vão acontecer?

Temos cidades preparadas para chuvas extremas? Sistemas de alerta capazes de chegar a quem está em risco? Infraestrutura para enfrentar secas prolongadas? Políticas para proteger a produção de alimentos? Capacidade de resposta para que uma ocorrência climática não se transforme automaticamente em tragédia social?

E há ainda uma dimensão maior. O El Niño chega a um planeta que já está mais quente. Isso significa que discutir adaptação, prevenção e capacidade do Estado não é alarmismo ambiental. É planejamento.

No Brasil, essa discussão envolve muito mais do que temperatura e chuva. Envolve moradia, agricultura, energia, saúde, infraestrutura, renda e soberania.

E, inevitavelmente, envolve política.

O clima já bate à nossa porta

Se sabemos que eventos extremos podem colocar milhões de pessoas em risco, por que a preparação para essas crises ainda ocupa um espaço tão secundário no debate político?

Os números ajudam a mostrar a dimensão do desafio. Segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM), divulgado em 6 de outubro de 2026, 6,9 milhões de brasileiros foram afetados por ondas de calor, seca, vendavais e inundações entre 1º de julho e 30 de setembro. No período, 1.035 municípios decretaram situação de emergência ou estado de calamidade pública, e os prejuízos econômicos chegaram a R$ 12,6 bilhões.

Quando falamos em seca, não estamos falando apenas de reservatórios mais baixos. Estamos falando de agricultura, pecuária, abastecimento, queimadas, perda de renda e pressão sobre os ecossistemas.

Quando falamos em chuvas intensas e enchentes, estamos falando de famílias que perdem casas, móveis, documentos e, muitas vezes, tudo o que conseguiram construir ao longo de uma vida. Estamos falando de estradas interrompidas, serviços públicos comprometidos, pequenos comerciantes que precisam recomeçar e trabalhadores que perdem renda.

E, quando falamos em calor extremo, estamos falando de quem trabalha na rua, de quem vive em uma casa sem ventilação adequada, da pressão sobre os sistemas de saúde e de energia e também dos impactos sobre a produção e o preço dos alimentos.

Nada disso pode ser atribuído exclusivamente ao El Niño. Os fenômenos climáticos se combinam com o aquecimento global, o desmatamento, a ocupação de áreas vulneráveis e deficiências históricas de infraestrutura.

O desastre pode ser natural. A vulnerabilidade, não

Há uma coisa que a crise climática deixa cada vez mais evidente: a natureza não pergunta qual é a renda de quem está no caminho de uma enchente, mas a capacidade de se proteger e de reconstruir a vida depois dela é profundamente desigual.

Quem tem dinheiro pode deixar uma área ameaçada, pagar um hotel, comprar água, contratar um seguro ou reconstruir uma casa. Para quem vive do salário do mês, uma enchente pode significar perder tudo.

Para um grande produtor rural e para um pequeno agricultor, uma seca também não tem o mesmo peso. E quando uma quebra de safra pressiona o preço dos alimentos, é sobre o orçamento das famílias mais pobres que o aumento pesa mais.

É por isso que, para mim, a crise climática também é uma questão de classe.

Prevenção ambiental é política social. Obras de drenagem, sistemas de alerta, habitação segura, proteção dos mananciais e planejamento urbano podem parecer assuntos técnicos, mas significam, na prática, decidir quem estará mais protegido quando a próxima chuva extrema chegar.

Adaptação climática também é política econômica. Investir antes pode custar muito menos — em dinheiro e em vidas — do que reconstruir depois.

E a transição ecológica é uma discussão sobre que tipo de desenvolvimento queremos. Como vamos produzir energia, alimentos, roupas, veículos e bens industriais sem ampliar a destruição das condições naturais das quais a própria economia depende?

Dois projetos diante da crise

É aqui que a eleição de 2026 ganha, para mim, uma dimensão ainda mais concreta.

Não estamos escolhendo apenas entre propostas diferentes para enfrentar a crise climática. Estamos escolhendo entre candidatos que partem de compreensões radicalmente distintas sobre a própria natureza do problema.

Em agosto, durante uma sabatina do Jornal Nacional, Flávio Bolsonaro se recusou a reconhecer a influência humana no aquecimento global. Disse acreditar que o excesso de calor, de chuva e de seca que estamos vivendo seria resultado de “efeitos cíclicos”.

Em outras palavras: num momento em que a ciência já estabeleceu de forma inequívoca a influência das atividades humanas sobre o aquecimento do planeta, o candidato à Presidência ainda trata essa relação como algo incerto.

E isso não pode ser analisado de forma isolada da trajetória política de sua família. O governo de Jair Bolsonaro foi marcado por conflitos constantes com a política ambiental brasileira, pelo enfraquecimento de estruturas de fiscalização e por uma retórica que frequentemente apresentava a proteção ambiental como um obstáculo ao desenvolvimento. O próprio Bolsonaro chegou a afirmar que o Ministério do Meio Ambiente, antes de seu governo, “atrapalhava o progresso do Brasil” e adotava uma postura “xiita”.

Com Lula, a direção foi outra. Logo no início do terceiro mandato, o antigo Ministério do Meio Ambiente passou a se chamar Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Pode parecer apenas uma mudança de nome, mas não é. Significa incorporar explicitamente a crise climática à estrutura do Estado brasileiro, com responsabilidades relacionadas à Política Nacional sobre Mudança do Clima, à adaptação, à redução de emissões, à coordenação entre diferentes áreas do governo e ao combate ao desmatamento.

Não digo isso porque considere resolvida a questão ambiental brasileira. Está longe disso. O governo Lula tem contradições, decisões questionáveis e muito a avançar — e precisa continuar sendo cobrado.

Mas existe uma diferença fundamental entre reconhecer a ciência, construir instituições para enfrentar a crise e discutir como avançar, e começar essa conversa colocando em dúvida uma de suas causas centrais.

Diante de um possível Super El Niño, de enchentes cada vez mais destrutivas, de secas prolongadas e de ondas de calor que já fazem parte da vida dos brasileiros, essa divergência está longe de ser abstrata.

Um governo que reconhece a crise climática se prepara de uma maneira. Um governo liderado por quem considera esses fenômenos apenas “cíclicos” pode se preparar de outra.

E essa diferença também está na urna.

Que desenvolvimento queremos?

Essa discussão me interessa especialmente porque cruza várias das áreas sobre as quais venho estudando e escrevendo: economia política, desenvolvimento, cadeias produtivas, relações internacionais e, claro, China.

A emergência climática não é uma agenda separada do desenvolvimento. Ela é parte da própria disputa sobre o desenvolvimento.

O Brasil precisa continuar reduzindo o desmatamento, mas precisa também preparar suas cidades. Precisa proteger a produção de alimentos, investir em pesquisa agrícola, melhorar sistemas de irrigação, recuperar áreas degradadas e apoiar os produtores mais vulneráveis.

Precisa fazer uma transição energética que não se limite a trocar uma fonte de energia por outra, mas que esteja associada à industrialização, à tecnologia, à qualificação profissional e à geração de empregos.

E precisa fazer tudo isso de maneira justa, para que os custos dessa transformação não recaiam mais uma vez sobre trabalhadores e famílias de menor renda.

Não aceito a falsa escolha entre desenvolver o país ou proteger o meio ambiente.

A pergunta é outra: que desenvolvimento queremos?

Clima também é soberania

Essa pergunta se torna ainda maior quando olhamos para o lugar do Brasil no mundo.

A transição ecológica já está reorganizando disputas por tecnologia, minerais estratégicos, financiamento, energia e capacidade industrial.

O Brasil pode participar dessa transformação como protagonista, produzindo tecnologia, industrializando seus recursos, protegendo seus ecossistemas e gerando empregos. Ou pode repetir uma velha história e permanecer apenas como fornecedor de matérias-primas para que outros países produzam os bens de maior valor agregado.

Para mim, política climática também é soberania.

É defender a Amazônia, mas é também discutir quem domina as tecnologias da energia limpa. É preservar nossas riquezas naturais e, ao mesmo tempo, garantir que elas sejam utilizadas para desenvolver o país, produzir conhecimento, agregar valor e melhorar a vida da população.

É também participar das negociações internacionais sobre financiamento climático sem abrir mão dos interesses brasileiros.

E é entender que nenhum país resolverá sozinho um desafio dessa dimensão. A emergência climática exige cooperação internacional. Mas cooperação não significa abrir mão da capacidade de decidir o próprio caminho.

Lições da China

Moro na China e acompanho daqui algumas das transformações tecnológicas, energéticas e industriais que estão redesenhando a economia mundial. E uma das coisas que mais me chama a atenção é a forma como o país transformou a prevenção e a resposta a desastres em uma política permanente de Estado.

Aqui, o enfrentamento de enchentes, tufões, terremotos, secas e outros eventos extremos combina monitoramento, alertas antecipados, planos de evacuação, estoques de emergência, equipes especializadas e uso intensivo de tecnologia.

Em 2026, operações contra enchentes mobilizaram drones de grande porte, aeronaves para restabelecer comunicações, embarcações, veículos e milhares de profissionais. Sistemas com inteligência artificial, satélites e radares também foram usados para acompanhar chuvas, prever o avanço das águas e identificar áreas de maior risco antes que a situação se agravasse.

Mas talvez a principal lição não esteja na tecnologia em si. Está na estrutura que permite colocá-la em funcionamento. A China mantém uma arquitetura nacional de prevenção e resposta, com responsabilidades distribuídas entre governo central, províncias, municípios, distritos e comunidades. A lógica é agir antes: compartilhar informações, posicionar equipes, preparar abrigos, organizar estoques e retirar a população das áreas de maior risco quando necessário.

E o trabalho não termina quando o resgate acaba. A resposta inclui atendimento às vítimas, reconstrução de moradias, recuperação de serviços públicos, apoio econômico e medidas para que as famílias consigam reorganizar a própria vida depois da emergência.

Escrevi mais detalhadamente sobre isso em outro texto, a partir das enchentes que atingiram o sul da China e das tecnologias usadas nas operações de resgate. A principal lição que tirei daquela apuração continua válida para o Brasil: salvar vidas começa muito antes da chegada das águas. Começa com planejamento, coordenação e investimento público contínuo.

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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