Oito em cada dez focos de incêndio registrados em outubro no Amazonas ocorrem dentro de propriedades rurais privadas inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Os dados do levantamento exclusivo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), feito a pedido do G1 e publicados nesta quarta-feira (21), revelam que a devastação atual tem endereço, CPF e possível origem criminosa.
A crise ganhou contornos políticos após o salto nas ocorrências coincidir com o primeiro turno das eleições presidenciais. Ao mesmo tempo, o cenário de fumaça e fogo vem sendo capturado por campanhas de desinformação encabeçadas pela extrema-direita, que utiliza fake news nas redes sociais para atacar o governo do presidente Lula (PT), ignorando que o país atingiu seu menor índice histórico de desmatamento da Amazônia.
De 1º a 15 de outubro, o satélite de referência do Inpe detectou 1.639 focos de calor no estado. Desse total, 79,1% estão dentro de áreas privadas cadastradas. A estatística reforça os laudos do Ibama, do Ministério do Meio Ambiente e da Polícia Federal: as chamas não são combustão espontânea da natureza, mas ação humana deliberada.
Qualquer uso do fogo exige autorização do governo estadual, que, diante da crise crônica, proibiu totalmente a prática em 9 de setembro. Ainda assim, a lei tem sido ignorada. Durante as operações, o Ibama flagrou garrafas com combustível nas estradas e já aplicou R$ 2 milhões em multas. Paralelamente, a Polícia Civil do Amazonas conduz mais de 120 investigações criminais sobre os incêndios.
A eleição e a guerra de narrativas
Historicamente, a temporada do fogo atinge seu ápice em meados de setembro e perde força em outubro. Neste ano, porém, o gráfico mudou drasticamente. Dados de satélite analisados pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) em 19 municípios do entorno de Manaus apontam que os incêndios explodiram em 4 de outubro, dia da votação em primeiro turno.
Em apenas dez dias (de 4 a 14 de outubro), a região contabilizou 5.598 focos, um volume 37 vezes maior que os 149 registros de igual período no ano passado. Para o comando do Ibama, as ações de campo indicam que o período eleitoral gerou uma sensação local de impunidade entre os infratores.
É exatamente este passivo ambiental estadual que tem servido de combustível para a extrema-direita. Produtores de fake news usam as imagens dos incêndios para disseminar a falsa narrativa de que o governo Lula abandonou a proteção ambiental.
A manobra retórica omite um dado central validado pelo Inpe: o desmatamento (a derrubada de novas árvores) caiu ao menor patamar desde 1988, com 3.335 km² registrados entre agosto de 2025 e julho de 2026.
O pasto, o fogo e a seca
Desmatamento e queimada são métricas diferentes. Hoje, o fogo amazônico é utilizado majoritariamente para limpar áreas que já foram derrubadas no passado, visando a renovação de pastagens.
O monitoramento da plataforma TerraBrasilis detalha a anatomia do crime: 52,8% dos focos de outubro se concentraram em áreas desmatadas nos últimos três anos, e 30,6% em zonas abertas há mais tempo. Apenas 15,9% tiveram início na vegetação nativa.
O problema é que a severa estiagem na região amazônica faz com que o fogo saia de controle nas propriedades privadas e invada o que restou de floresta. Em Manaus, a chuva de julho a outubro limitou-se a 104 milímetros, um terço da média esperada. Agosto teve precipitação zero.
Ainda assim, o fator humano sobrepõe-se à anomalia climática. Newton Monteiro, pesquisador do Ipam, destaca que a explosão das chamas em outubro desafia a lógica dos anos anteriores.
O Ibama concentrou as fiscalizações recentes em Autazes e Careiro da Várzea, na Grande Manaus. O órgão federal ressalta, no entanto, que o monitoramento cotidiano do uso do solo e das propriedades com CAR é atribuição direta do governo estadual amazonense.
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