3 de junho de 2026

O livro ‘Uma demão de verde’, de Elaine Dewar

Por Zé Zinho

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Comentário no post “A história do movimento ambientalista

A Conferência das Nações Unidas para o Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, em junho de 1972, introduziu a temática ambiental nas relações internacionais, abrindo o caminho para a implementação da série de tratados internacionais que assinalaria o impulso ambientalista, Com a assessoria de Thomas Wilson, Maurice Strong foi o secretário-geral da conferência. [8]

Uma demão de verde  

por Elaine Dewar

O currículo de Strong, um self-made-man dotado de uma colossal capacidade de articulação e que abriu caminho para os escalões superiores do Establishment, é grande demais para sequer ser resumido aqui. Para os nossos propósitos, basta citar que ninguém o supera no papel de articulador do movimento ambientalista, atuando em numerosas posições de alto nível como empresário, funcionário do governo do Canadá, super burocrata da ONU, membro de conselhos de administração de fundações e ONGs e várias outras. Os leitores interessados podem completar a lista fazendo a sua própria pesquisa via Google ou consultando o livro da sua compatriota Elaine Dewar, Uma demão de verde, no qual é um dos principais protagonistas.

Antes de ser colocado à testa da Conferência de Estocolmo, Strong havia sido executivo-chefe da empresa de energia Power Corporation e participado diretamente da criação de dois órgãos oficiais do governo canadense dedicados à ajuda ao exterior, a Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (CIDA) e o Centro de Pesquisas sobre o Desenvolvimento Internacional (IDRC). Além disso, tinha numerosos vínculos de negócios com a família Rockefeller e Robert O. Anderson. Tais condições o colocavam em situação privilegiada para assumir o papel de “executivo-chefe” do movimento ambientalista em fase de internacionalização, inclusive com a sua incorporação ao aparelho das Nações Unidas.

Elaine Dewar descreve a atuação de Strong em Estocolmo: [9]

Quando a Conferência de Estocolmo foi instalada (iniciada), em 1972, Strong advertiu urgentemente sobre o advento do aquecimento global, a devastação das florestas, a perda da biodiversidade, os oceanos poluídos e a bomba-relógio populacional. Ele sugeriu um imposto sobre a movimentação de cada barril de petróleo e o uso desses fundos para criar uma grande burocracia da ONU, para chamar a atenção sobre a poluição onde quer que ela se encontrasse. Na medida em que eu lia esse velho discurso, eu compreendia que ele quase poderia ser repetido na Cúpula do Rio [em 1992]. Como essas mesmas questões poderiam estar na mesa vinte anos depois?

Um dos desdobramentos da Conferência de Estocolmo foi a criação do Programa das Nações Unidas par o Meio Ambiente (PNUMA), sendo que o primeiro diretor-executivo nomeado foi – Maurice Strong. No cargo, que ocupou até 1975, ele promoveu ativamente a popularização das supostas ameaças para a atmosfera, representadas pelo uso dos combustíveis fósseis e produtos químicos supostamente agressivos para a camada de ozónio – esta última, uma teoria alarmista que também dava os seus primeiros passos e seria crucial para a agenda ambientalista, como veremos adiante.

Em especial, Strong articulou uma aproximação do PNUMA com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), criando o arcabouço institucional para a “politização” dos temas climáticos, com um crescente envolvimento da comunidade científica e de representantes de ONGs ambientalistas, que, cada vez mais, eram envolvidas nos processos de formulação de políticas. Em um artigo publicado no jornal The Globe and Mail de Toronto, em 7 de Março de 2007, ele próprio recorda a sua intervenção na agenda climática: [10]

Como alguém cujo papel na colocação do tema das mudanças climáticas na agenda pública está sendo alvo de críticas, eu me apresso em confessá-lo. Como o primeiro diretor do PNUMA, eu convoquei uma reunião de especialistas em mudanças climáticas mais de 30 anos atrás. Em 1992, eu encabecei am Cúpula da Terra [conferência Rio-92], que produziu a Convenção sobre Mudanças Climáticas, e estive envolvido em Kyoto, quando foi acertado o contencioso protocolo das metas. (…)

No PNUMA, Strong também se ocupou com a possibilidade de danos ao ozónio estratosférico causados por atividades humanas – primeiro, gases emitidos por jatos supersónicos e, depois, a versátil famílias de produtos químicos conhecida como clorofluorcarbonos (CFCs), com dúzias de aplicações. Strong levantou o assunto aja na primeira reunião do conselho diretor do órgão e, em 1975, o PNUMA iniciou um programa para avaliar os riscos para a camada do ozónio. Em paralelo, o Natural Resources Defense Council (NRDC), ONG criada em 1970 pela Fundação Ford, lançou uma campanha pelo banimento dos CFCs. [11] Um dos fundadores do NRDC foi o biólogo George Woodwell, que já era um veterano cientista-ambientalista, tendo participado ativamente da campanha que levou ao banimento do DDT pela Agência de de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA, em 1973. [12] Como veremos adiante, Woodwell viria a desempenhar um papel destacado na campanha “aquecimentista”, *
____________
* Em 1985, Woodwell fundou o Instituto de Pesquisas Woods Hole (não confundir com o Instituto Oceanográfico Woods Hole), conhecido dos brasileiros por suas frequentes investidas contra projetos de infra-estrutura na Região Amazónica, por intermédio de sua filial local, o Instituto de Pesquisa da Amazónia (IPAM). [13]

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 6. Executive Intelligence Review, Profile of the Environmental Conspiracy, 1965-1980, New York, s/d pp. 8-19.
7. Donald Gibson, op. cit., p.93.
8. Lorenzo Carrasco, op. cit., pp. 53-55.
9. Elaine Dewar, Uma demão de verde: os laços entre grupos ambientais, governos e grandes negócios. Rio de Janeiro: Capax Dei, 2007, pp. 283-84.
10. Maurice Strong, “A Super-Agency?”, The Globe and Mail, 7/03/2007, p. A15.
11. Stephen O. Andersen, K. Madhava Sama e Lani Sinclair, Protecting the Ozone Layer: The United Nations Story. London: Earthscan Publications, 2002, pp. 44-46.
12. Sobre a campanha para o banimento do DDT, ver: Geraldo Luís Lino et alii, Máfia Verde 2, pp. 213-17; tb. Elizabeth M. Whelan, Toxic Terror. Ottawa: Jameson Books, 1985, pp. 59-85.
Na segunda metade da década de 1960, os estrategistas doEstablishment transatlântico já se encontravam numa fase avançada da preparação da agenda de erradicação do “vírus do progresso”, com a sua substituição pelo conceito malthusiano dos “limites do crescimento”, para cuja promoção explícita foi criado o Clube de Roma, em 1968. A operacionalização do movimento ambientalista era uma peça fundamental da estratégia. [6]

UMA DEMÃO DE VERDE: OS LAÇOS ENTRE GRUPOS AMBIENTAIS RESENHA:
Ernani Xavier
UMA DEMÃO DE VERDE: OS LAÇOS ENTRE GRUPOS AMBIENTAIS 
ELAINE DEWAR
Denúncia de manobras arrecadadoras de recursos por ONGs ambientalistas supostamente dedicadas á preservação das matas e dos mananciais. 
LAÇOS SÓRDIDOS: NEGÓCIOS ESCUSOS
A autora de “Uma Demão de Verde: Os Laços entre Grupos Ambientais” a jornalista canadense Elaine Dewar oferece na realidade uma bem fundamentada denúncia. O tema é ambientalismo e ela é do meio. Não sendo um discurso engajado é um relato baseado em informações que inspiram credibilidade. Buscando realizar pesquisas de uma das mais importantes “nações” indígenas do Brasil, os Caiapós, suas primeiras presunções foram alteradas. Em vez de grupo carente de apoio de ONGs mantidas por órgãos internacionais, a repórter se deparou com uma “organização” solidamente evangelizada por modernas doutrinas comerciais de alcance mundial, explorando ouro e madeira da sua reserva. Descobriu que por aí passava uma “trilha de milhões e milhões de dólares, em um circuito que integrava agências governamentais, fundações e empresas privadas, organizações não-governamentais, e ativistas ambientais e indigenistas, que se empenhavam em influenciar as políticas públicas em três continentes”. A leitura de “Uma Demão de Verde” possibilita entender os meandros da construção da própria Constituição do Brasil pode ser fortemente manipulada por uma intrincada rede de poder que influenciou a sua própria redação. Na Constituição de 88 consta com clareza, que teriam de haver reservas onde ninguém pudesse entrar. Por trás das linhas dá muito bem para se acrescentar, a partir do texto da repórter canadense, a não ser quem tenha sintonia fina com interesses comuns de políticos-empresários, donos de ONGs e grupos nativos.Um exemplo citado pela autora é a ONG, Instituto de Pré-História, Antropologia e Ecologia (IPHAE), de propriedade de Wim Groeneveld, sediada em Porto Velho-RO. O texto-reportagem mostra convincentemente a rede intrincada que une com laços consistentes, o governo americano, canadense, inglês e japonês, e como estes mexem com ONGs, políticos, empresas como é o caso do Brascan, Vale do Rio Doce, Institutos, Fundações como a Chico Mendes e comunidades indígenas para a movimentação de milhões de dólares. Nada mais oportuno o conteúdo do livro “Uma Demão de Verde” para entender como os países ricos escrevem as políticas e as políticas públicas brasileiras e ostentam a fragilidade da exacerbadamente apregoada soberania nacional. Uma fantasia, um delírio. Tem razão Augusto Heleno, o general contestado, ao apontar a força dos espúrios “interesses” internacionais pela Amazônia. Da mesma forma em que o texto mostra exploração econômica da Amazônia por parte de ONG’s estrangeiras, ou brasileiras financiadas do exterior, inclusive por governos e multinacionais, á revelia ou contraditórias ao desenvolvimento do agro negócio brasileiro. Ficam evidentes os autênticos laços entre grupos ambientais, governos e grandes negócios”. Ela relata a forma espúria de como foram conseguidos recursos para o encontro de 1989. Segundo ela, o histórico encontro de Altamira foi sustentado por negócios ilegais de ouro e madeira realizados pelos índios Caiapós, e não por sustentação externa como apregoado na época. O texto levanta muitas outras denúncias tendo o Brasil como espaço nuclear da trama que tem aspectos de literatura de suspense. Elaine Dewar por várias vezes, recebeu o Nacional Magazine Award, um dos mais prestigiosos prêmios jornalísticos do Canadá. Escreveu vários documentários, sendo que, com “Chimeras and Quests for Imortality”(2004) recebeu o Nereus Writers’s Trust Non-Fiction Prize, concedido anualmente á melhor obra de não-ficção de um autor canadense. Segue a linha do livro Máfia Verde: o ambientalismo a serviço do “Governo Mundial”, publicado pela Executive Intelligence Review, a revista de inteligência internacional fundada pelo economista estadunidense Lyndon LaRouche. Bem como se vê, a agonia do planeta suscita o oportunismo das mega corporações e dos governos mundiais. 
http://planetalivros.blogspot.com/
http://pt.shvoong.com/writers/ernani_xavier/
DEWAR, Elaine. Rio de Janeiro: Editora CAPAX DEI, 2007, 528 pp. 
(ISBN 978-85-98059-07-5).

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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