4 de junho de 2026

A luta em comum entre Jimmy Carter e Dom Paulo Evaristo Arns

A trajetória política de Carter foi marcada pelo diálogo com líderes da resistência, como dom Paulo. Confira
Jimmy Carter. | Foto: Ava Lowery via Wikimedia Common

O ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, morreu neste domingo (29) aos cem anos. Sua luta pelos Direitos Humanos e contra as ditaduras latino-americanas o levou a encontros com símbolos de resistência, como o cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. 

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Durante o seu governo, entre 1977 e 1981, uma das bandeiras de Carter foi a promoção dos direitos humanos no exterior. Ele fez pressão sobre governos autoritários, principalmente na América do Sul e, embora a diplomacia dos EUA nem sempre tenha sido tão eficaz, sua postura gerou uma maior visibilidade para os esforços de líderes como dom Paulo.

Dom Paulo, por sua vez, considerado um dos mais importantes aliados da Igreja Católica na luta contra a repressão, foi um defensor fervoroso dos perseguidos políticos no Brasil, a partir das denúncias sobre as torturas e abusos cometidos pelo regime militar dos anos de 1964 a 1985.

Documentos, parte de um arquivo de mais de 3.000 páginas mantido pelo Conselho Mundial de Igrejas em Genebra mostram, inclusive, o contato extensivo entre Carter e dissidentes brasileiros durante a ditadura. Em 1977, Dom Paulo enviou sua primeira carta ao então presidente dos EUA sobre a situação no Brasil. 

No ano seguinte, durante uma visita de Carter ao Brasil, Arns pôde expressar pessoalmente suas preocupações sobre o cenário brasileiro. Na ocasião, o líder católico não hesitou em instar o líder estadunidense para que ele assumisse a responsabilidade da influência de seu país nos sistemas de repressão pelo mundo afora. 

Uma vez, estando em um carro, sozinho com o presidente dos Estados Unidos e sua esposa, no Rio de Janeiro, quando ele nos visitou, eu perguntei: ‘Muita gente diz que a CIA nos ensinou a torturar, sobretudo a tortura psicológica. O sr. acha que isso pode ser verdade?’. Ele se voltou para a esposa e perguntou: ‘O que que eu vou responder?’ Eu, que entendo inglês, disse: ‘É bom dizer toda a verdade’. E ele então disse: ‘Pode ser que isso seja verdade’. Então eu disse: ‘Se pode ser que isso seja verdade, então, para mim, é verdade. E sr. Deve ajudar-nos a vencer esse período de violação de direitos humanos da forma mais cruel’. Ele disse: ‘Para isso eu vim ao Brasil’”, diz a narração do trecho de uma entrevista concedida por Arns à repórter Marilu Cabañas, em dezembro de 1998, republicada pela Rede Brasil Atual – RBA no ano de 2016.

Carter, lembrado pelo ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso como alguém comprometido com os valores fundamentais, morreu em sua casa, em Plains, na Geórgia, a mesma cidade onde nasceu. Desde fevereiro de 2023 ele estava sob cuidados paliativos em decorrência de um câncer. A causa da morte, no entanto, não foi informada.

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
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  1. José de Almeida Bispo

    30 de dezembro de 2024 12:24 pm

    Carter foi um imperialista sem ser imperador, no sentido mais abjeto. Todo homem de poder deve exercê-lo. Se consegue com sabedoria ou não, é outro assunto; mas tem de exercer, para não gerar mais problemas. E nesse exercício, muita coisa escapa do ideal. Uma frase corajosa de Carter, durante o pico da crise do petróleo mostrou-me que não estava diante de um mero presidente americano; o que estava aparecendo à minha frente era um líder completo; um humanista. Foi um ponto fora da curva na história presidencial americana, repleta de pulsilânimes, “valentões” ou não. Obama, não; mas ele mereceu o Nobel da Paz.

  2. AMBAR

    30 de dezembro de 2024 3:15 pm

    Uma característica única e comum a quase todos os presidentes americanos é o ar de cinismo. Todos os do nosso século e a maior parte dos do século passado tem aquele ar de mofa, deboche e superioridade. O “Tramp” então, nem se fale, ele nem faz questão de disfarçar. A julgar pelas aparências, portanto, os únicos presidentes que a meu ver a gente podia olhar na cara sem sentir desconfiança eram o Kennedy e o Jimmy Carter. Não dá pra olhar para o Carter e não perceber que ele era uma pessoa de princípios e valores. Parece-nos que sua conduta corroborou. Fez o que pode, deixou um legado respeitável, embora coisas importantes como a Fundação Carter já tenha sido infectada por lideranças de caráter sionista, como pudemos perceber nas eleições da Venezuela e as respectivas críticas sobre as “fraudes” nas urnas. Dos americanos ilustres temos a reverenciar Jimmy Carter.

  3. JOEL PALMA

    31 de dezembro de 2024 6:13 pm

    Aparentemente meritório, mas não: os EUA visavam retirar os militares nacionalistas (Embraer, Petrobras, Angra, Proalcool, etc) do poder.

    O verdadeiro (o típico sonso) Jimmy Carter é este:
    https://lesakerfrancophone.fr/jimmy-carter-le-faux-savoir

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