Dia de Reis e da Rainha Primavesi, por Virgínia Knabben e Rui Daher

Nossa gratidão pelo legado único que nos deixa essa árvore frondosa, cuja luta pelo amor à natureza prevaleceu.

Dia de Reis e da Rainha Primavesi, por Virgínia Knabben e Rui Daher

Quem me avisa é a amiga e escritora Virgínia Knabben: faleceu no domingo, 5 de janeiro de 2020, aos 99 anos, a agrônoma, professora e criadora da agroecologia, Ana Maria Primavesi.

Virgínia escreveu a biografia “Ana Maria Primavesi – Histórias de Vida e Agroecologia” (Expressão Popular, 2017), e lançou no final de 2018 o site www.anamariaprimavesi.com.br

Por estar fora de São Paulo, não pude comparecer ao funeral. Lembro-me, no entanto, de ter escrito, entre 2016 e 2018, quatro colunas sobre Ana Maria, em CartaCapital.

Hoje, comemora-se o Dia de Reis. Acrescento uma Rainha. Não com minhas letras, mas com as de Virgínia Knabben, a quem peço licença, pois também merece ser homenageada.

Um jatobá que tomba, centenário

Nossa querida Ana Maria Primavesi faleceu hoje, aos 99 anos de idade. Quase um século de vida, cerca de 80 anos dedicados à ciência no e do campo. Descansa uma mente notável, uma mulher de força incomum e um ser humano raro.

Afastada de suas atividades desde que passou a morar em São Paulo com a filha Carin, Ana recolheu-se.

Quase centenária, era uma alma jovem num corpo envelhecido que, mesmo se tivesse uma vitalidade para mais 200 anos, não acompanharia uma mente como a dela.

Annemarie Baronesa Conrad, seu nome de solteira, desde pequena apaixonou-se pela natureza, inspirada pelo pai. Naturalmente entrou para a faculdade de agronomia, mesmo Hitler tentando fazer com que as “cabeças pensantes” desistissem de estudar. Ela não só era uma das raras mulheres na faculdade como também aquela que se destacou por seu talento natural em compreender o invisível: a vida microscópica contida nos solos.

Nestes 99 anos de vida, enfrentou todas as perdas que uma pessoa pode sofrer: irmãos, primos e tios na Segunda Guerra. Posteriormente, pai, mãe, marido. E seu caçula Arturzinho, a maior das chagas, que é perder um filho. Sua morte hoje, causada por problemas relacionados ao coração, encerra uma vida de lutas em vários âmbitos, o principal deles na defesa de uma agricultura ecológica, ou Agroecologia, termo que surge a partir de seus estudos e ensinamentos.

Não parece ser à toa que esse coração, que aguentou tantas emoções (boas e ruins) agora precise descansar.

Nosso jatobá sagrado, cuja seiva alimentou saberes e por sob a copa nos abrigamos no acolhimento de compreendermos de onde viemos e para onde vamos, tomba, quase centenário. Ele abre uma clareira imensa que proporcionará ao sol debruçar-se sobre uma nova etapa, a da perpetuação da vida. E dos saberes que ela disseminou.

Antes de tombar, nosso jatobá sagrado lançou tantas sementes, mas tantas, que agora o mundo está repleto de mudas vigorosas, prontas a enfrentar as barreiras que a impediriam de crescer. Essas mudas somos todos nós, cada um que a amou em vida, cada um a seu modo.

Nossa gratidão pelo legado único que nos deixa essa árvore frondosa, cuja luta pelo amor à natureza prevaleceu. A luta passa a ser nossa daqui em diante, uma luta pela vida do solo, por uma agricultura respeitosa, por uma educação que se volte mais ao campo e suas múltiplas relações.

Ana Primavesi permanecerá perpetuamente em nossas vidas.

Como diz nosso querido amigo Fabio Santos, parafraseando Che Guevara:

“Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas,
mas jamais conseguirão deter a Primavesi inteira.”

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