20,666 – o número que nos faz de besta, por Ivan Hegenberg

Por Ivan Hegenberg

Os cálculos distorcivos operados pela direita

“Quem tiver discernimento, calcule o número da besta, pois é número de homem, e seu número é 666”. Não tenho a menor vocação para a teologia, e menos ainda para o papel de fanático a anunciar o apocalipse. Confesso que vivenciando o cenário de terra arrasada em que nosso país se encontra, quase sinto a tentação de concordar com os pregadores de olhos vidrados que mencionam o Armagedom, mas sou mundano demais para isso. Mesmo assim, não me passou batido que 20,666, o número que nos faz de besta, contém o número amaldiçoado por João. Ao menos em duas referências de certo poder estratégico, na História brasileira recente, 20,666 foi número de erros desumanos. A revelação, como concordarão tanto espiritualistas quanto materialistas, encontra-se em duas contas de divisão: uma é 62 : 20,666 = 3, e a outra é 124 : 20,666 = 6. São cálculos propagados com empenho pela grande imprensa, à serviço da direita brasileira.

62 : 20,666 = 3. O mesmo tipo de jornalismo que não tem pudor de abafar o caso do helicóptero carregado de cocaína não hesita em manipular pesquisas de opinião. Não faz tanto tempo, para esconder a falta de apoio a um interino golpista, a Folha de São Paulo nos fez crer que meros 3% apoiariam novas eleições. A farsa foi desmascarada pelo prêmio Pulitzer Glenn Greenwald  e por Fernando Brito do Tijolaço e o jornal teve que admitir a falha. São 62% os que querem novas eleições. Qualquer um pode inferir que entre 3% e 62%, o impacto da pesquisa é completamente diverso, e que o dado  pode ser usado como ferramenta de persuasão. A suposta aceitação do interino poderia ajudar a construir a ideia de uma saída que respondesse à “vontade do povo”.

Nem todas as farsas jornalísticas são desmascaradas e confessadas com a mesma precisão, mas uma vez perdida a credibilidade em uma pesquisa tão estratégica, como podemos considerar confiáveis os números em outras ocasiões capazes de influir? Se a diferença entre o dado apresentado e o dado aferido pode ser tão grande, por que duvidar que os números de passeatas pró e contra impeachment tenham sido generosamente alterados? Jamais pareceu muito plausível o aumento exponencial de manifestantes que atendiam à convocação da Globo na Paulista. E mesmo quando corretos, os números são manipulados de acordo com a agenda implícita. Quando a intenção era desestabilizar o governo petista, a inflação não precisava ser maior que a dos anos FHC para soar intolerável, e as quebras bilionárias da crise mundial tinham importância próxima de zero, para embasar uma narrativa onde a única culpada era a presidenta. Bastou Temer assumir para que perspectiva de um rombo de 170 bilhões fosse aceitável, até mesmo elogiada. Mas voltemos ao número que nos faz de besta.

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124 : 20,666 = 6. Mais pela insistência do que pela consistência, alguma coisa o jornalismo de direita parece ter conseguido. Difundiu amplamente a ideia de que o PT seria o partido mais corrupto do país e de que o petrolão seria o maior caso de desvio de verbas públicas de todos os tempos. Será que isso corresponde à realidade ou é mais uma percepção que querem forjar? A  pesquisa do Datafolha é um bom parâmetro do quanto a distorção pode ser descomunal. Coincidentemente, se pegarmos os R$ 6 bilhões de desvios atribuídos ao suposto maior caso de corrupção do Brasil, o famoso Petrolão, podemos multiplicar pelos mesmos 20,666 para chegar a 124 bilhões, e com isso encontrar o valor do verdadeiro maior caso de corrupção, o Banestado. A conta piora com a cotação, pois os 124 bilhões são em dólares, portanto em torno de 500 bilhões de reais. Foi uma evasão de dividas gigantesca que não ganhou nem um centésimo da atenção que a grande mídia dá a escândalos petistas. O caso, que foi conduzido pelo venerado juiz Sergio Moro, estagnou nas fases iniciais e poucos foram punidos. Nenhum político foi preso, apesar de o Banestado ter sido usado como escoamento para o exterior do caixa 2 das privatizações tucanas. Não é à toa que a esquerda considere Sérgio Moro tucano, ou que, com as contas certas, considere o PSDB incontestavelmente mais corrupto que o PT. Quem achar que o Banestado é invenção, que busque no Google, com a mesma cifra aqui citada e tente explicar porque um escândalo tão grande é tão pouco comentado.

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É claro que gostaríamos que o PT não tivesse envolvimento nenhum com corrupção, inclusive porque a grande mídia teria muita dificuldade para criar um escândalo se um dos fatores fosse zero. Vinte, cem ou mil multiplicado por zero continua zero. O PSOL, por exemplo, não vem dando essa brecha para a direita manipular. O correto seria corrupção nenhuma, mas vamos admitir que é assustadora a diferença entre os 124 bilhões de dólares que a direita consegue roubar sem grandes punições e os 6 bilhões de reais do Petrolão, no qual o PT é apenas um entre vários partidos envolvidos. Aliás, até onde se investigou, o PT não parece ser nem mesmo o partido que levou a maior fatia dos desvios da Petrobrás, dominados por PP e PMDB, com uma boa participação também do PSDB. E quem entendeu o caso Banestado pode adivinhar o quanto Serra está ávido para aumentar significativamente a parte tucana no esquema, com a entrega do pré-sal.

O que seria da direita se seus escândalos fossem noticiados de maneira proporcional ao estrago que causam? Certamente não faria as pessoas de besta com tanta facilidade.

 

 

Ivan Hegenberg nasceu em São Paulo, em 1980. Formou-se em Artes Plástica e tem mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Publicou os livros A Grande Incógnita (Annablume, contos, 2005), Será (Ragnarok, romance, 2007), Puro Enquanto, (E Editorial, romance, 2009) e Rock Book – Contos da Era da Guitarra (org., Prumo, 2011) e A Lâmina que Fere Chronos (Prumo, 2013), além de artigos para diversos sites e revistas sobre estética e política.

9 comentários

  1. “Certamente não faria as

    “Certamente não faria as pessoas de besta com tanta facilidade.”

    O problema é que quando midiotas são bestificados o pais cumpre o seu ideal:

    Transforma-se num imenso bananal!

  2. Parabéns!

    Artigo para ser repassado à exaustão àqueles que, pautandos-se pela mídia, tornaram-se inocentes úteis que se associaram às bestas que estão destruindo nosso país. Bravo, Ivan! 

    • Falando em bestas…

      Ouvi pela manhã no rádio que, com receio das vaias,  o interino deverá designar Rodrigo Maia para representá-lo no encerramento das Olimpíadas. Não sei se está confirmado. Caso positivo, o deputado que está escancarando suas manobras para beneficiar Cunha, será o fiiel substituto. São todos Cunha!

  3. E o que dizer das

    E o que dizer das privatizações? Nenhuma investigação sobre elas. E, ao final como entender que Lula tenha recebido o governo com o país devendo ao FMI, com dólar nas alturas, uma carga de impostos horrenda. Lembro-me bem da face ruborizada do grande médico Jatene, ao entregar o Ministério, e depois dizer em entrevistas que não poderia se conformar em ter criado em sua pasta aquele imposto para salvar a saúde pública, e ver, como seus olhos que as verbbas estavam sendo desviadas. Ou seja, foi magnífica a escolha de Jatene para o Ministério da Saúde; eu louvei muito a indicação dele. No entanto, foi difícil ver esse homem sair do jeito que saiu: indignado. Da última entrevista que vi de Jatene, já no governo de Lula ou Dilma, foi muito importante o que ele falou sobre a grande contribuição que o SUS dá ao povo brasileiro. Disse que o povo não tem a dimensão do quanto o SUS atende pessoas nos mais variados hospitais, com prestação de serviços de ponta, ralizados invclusive no hospital Sírio Libanês, onde ele atuava. 

    Hoje, pra nossa infelicidade, o ministro da saúde, é engenheiro de formação, que sai dizendo besteira por aí, mostrando sua incapacidade para gerir uma das pastas mais importantes para a nossa sociedade.

    A Odebrecht fará a delação esperada por Moro, bem como Bunlai, que já foi preso de forma extravagante, como um ser psicologicamente traumatizado para essa finalidade, tudo com o fito de se chegar a Lula, de preferência antes do julgamento do impeachment. 

    Sabemos, como certo, que o PT não é o partido mais corrupto, embora ele leve essa pecha, primeiro por ter governao o País por mais tempo que os outros, quando deixou correr frouxas as investigações, sem limites, e também pela frouxidão de um ministro de juastiça que mais parecia um retrato na parede. O mesmo tivesse ocorrido ao tempo de FHC, seria ele, o Príncípe, a ter tido essa pecha, e hoje não estaria cantando de galo como bem sabe fazer, na medida em que suas costas largas aumentam com os tucanos pervertidos dentro do judiciário e da imprensa, que fingem não ver, e não ouvir nada, a não ser o que lhes convém.

    Terra arrasada é pouca coisa para o que se pode imaginar do que vem por aí. 

    Há pouco li que são mais de 60.000 funcionários que perderam cargos comissionados com a alegação de contenção de despesas. Na verdade, pela caça às bruxas, os mesmos cargos indicados por petistas, estão já nas mãos de outros. Ou seja, estão sendo substituídos para agradar os golpistas de outros escalões. Isto é muito indigno!

    Terceirização virá, por certo, para aumentar o número de trabalho escravo, ou de quem mesmo tendo estudado para merecer posições estratégicas, fiquem em situação desconfortável, com salários precários, a mercê de patrões sem apreço pelos trabalhadores.

    Aventa-se uma possibilidade de se privatizar a Previdência, a título de ajudar o sistema financeiro brasileiro. 

    No final das contas serão os mais necessitados a sofrerem com as reformas, e tudo mais que está na pauta desse governo interino, que vem cada dia aumentando seu ódio pela classe trabalhadora, e com tudo para pôr em prática tudo que pretende, enquanto conta com um congresso repleto de pilantras, anti-patrióticos, talvez por ser a maioria formada de ricos e milionários, que não se importam com gentinha. 

     

    • Bento XVI deu 666.

      Caracas!!! Deu certo!!!

      Afinal, Bento XVI era e já não é, mas voltará e quando vier convém que dure um pouco de tempo.

      E eu achava que já deveria ter acontecido e não aconteceu, mas acontecerá.

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