4 de junho de 2026

A morte de Ronald Levinsohn, o empresário que comprava jornais

Nos anos 80, foi dono da Caderneta de Poupança Delfin, que quebrou em 1983. Tinha um capacidade impressionante de influenciar jornais e pessoas públicas.

Morreu Ronald Levinsohn. Era dono da Univercidade. Nos anos 80, foi dono da Caderneta de Poupança Delfin, que quebrou em 1983. Tinha um capacidade impressionante de influenciar jornais e pessoas públicas.

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Em 1986, logo após o Plano Cruzado, denunciei uma manipulação do então consultor geral da República, Saulo Ramos, publicando outro decreto que criava facilidades para empresas em liquidação extrajudicial. Um dos beneficiados seria Levinsohn.

A denúncia gerou um processo de Saulo, instrumentalizando o então Procurador Geral da República Sepúlveda Pertence. A denúncia foi sorteada para um procurador, que opinou pelo arquivamento. Pertence, que contava com Saulo para sua indicação para Ministro do Supremo Tribunal Federal, tirou o procurador do caso e encaminhou para outro procurador, que deu sequência ao processo.

Foi uma luta árdua, no plano jornalístico e jurídico. No inicio da disputa, Saulo negociou com a direção da Folha uma pendência da empresa com o INSS. No início, o jornal passou a criar uma enorme resistência aos meus artigos. Para manter a denúncia, recorri a Mino Carta e, depois, a Julio Mesquita Neto, que abriram espaço nos seus veículos. Minha demissão foi adiada por alguns meses devido ao fato de ter conquistado o Prêmio Esso daquele ano, justamente com as denúncias.

Antes disso, a coluna Dinheiro Vivo era republicada em mais de vinte jornais e o Jornal do Brasil manifestou interesse em republicá-la. Quando percebi que meus dias na Folha estavam contados, acertei com Marcos Sá Correa, diretor de redação, a transferência da coluna para lá. Antes disso, havia recusado um convite da Globo para ser comentarista na TV e levar a coluna para o jornal.

Na véspera da ida ao Rio, para sacramentar o acordo, identifiquei mais uma jogada de Saulo com Levinsohn. Preparei um artigo, que a Folha se recusou a dar, e o enviei ao William Waack, editor de Economia do JB. O artigo foi publicado por lá.

No dia seguinte rumei para o Rio e, antes de falar com o Marcos, o William me chamou e me disse que algo tinha dado errado. O Levinsohn pagava uma mesada ao JB, e ele não sabia disso.

A conversa com o Marcos foi protocolar. Ele disse que o jornal não se interessou mais pela coluna porque, nela, estimulávamos ações judiciais contra abusos do Estado – a coluna foi a principal responsável pela campanha dos mutuários do BNH e dos aposentados contra decisões de governo -, e o carioca não era tão afeito a reações quanto os paulistas.

Saí da Folha pouco tempo, consolidei o programa Dinheiro Vivo na TV Gazeta, lancei uma newsletter que conseguiu boa penetração no mercado. Anos depois, fui convidado a voltar à Folha na condição de colunista diário. Levinsohn e Saulo já eram águas passadas.

Em todos esses momentos, a presença inigualável foi do doutro Rangel Pestana, velho advogado da Folha, que se recusou a acatar as ordens do jornal e abandonar meu caso. Ficou comigo até o fim da ação, mesmo passando parte do tempo hospitalizado.

Levinsohn conseguiu preservar seu patrimônio, graças a essa inexcedível capacidade de cativaar jornais e jornalistas. Entrou na área educacional e, através do seu Univercidade, abrigou o jornalista-filósofo Olavo de Carvalho.

Morre prestigiado, amigo de jornalistas, lobistas e celebridades cariocas.

 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. Romanelli

    27 de janeiro de 2020 5:02 pm

    uai, aprendi hoje outro uso pra palavra “cativar”

  2. Edivaldo Dias de Oliveira

    27 de janeiro de 2020 6:15 pm

    Na época da falência da Delfim, alem da poupança eu tinha títulos de capitalização da empresa. Eu, minha mãe e minha irmã que morava no Rio. Não recebemos um único centavo. Soube de uma ação coletiva movida aqui em São Paulo contra a massa falida ou o empresário, sei lá. Fui na praça João Mendes, conversei com o promotor e ele não me deu nenhuma esperança de vitória. Larguei de mão.

    Que a terra lhe seja pesada.

    1. André

      27 de janeiro de 2020 11:52 pm

      Sim, e não podemos esquecer de seu famoso “empreendimento” na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade do RJ: prometeram imóveis a centenas de pessoas e estas nunca viram aqueles, não tiveram seu investimento estornado, tampouco indenizadas. Levaram UM PUTA CANO!!! Sem falar em seu sobrenome, sugerindo ativismo sionista e reforçando as teses dos Protocolos!! Além disso tudo: será que já não costurava “relaçoes” com o astrólogo de Virginia??? Ficam as dicas.

  3. Boeotorum Brasiliensis

    27 de janeiro de 2020 6:30 pm

    Há, atávico na sociedade, alguns valores expressos em axiomas que podem tornarem-se malévolos para o cidadão comum. Um deles é “o trabalho enobrece”. É verdade, mas, via de regra é usado como argumento para subjugar o trabalhador, justificando má remuneração e desrespeito aos direitos nais elementares das pessoas. Além do mais a riqueza e o sucesso de muitos, associado ao trabalho duro e como reforço ao axioma, comumente, mostra-se uma falácia. Ninguém, ou quase ninguém fica rico trabalhando. A maioria das fortunas é construída de outras formas, não com o trabalho. Quem trabalha duro não tem tempo para ficar rico.
    Outro axioma, que anda junto com o primeiro e que é instrumental para justificar o uso de atalhos e subterfúgios é o “bem vence o mal”, complementado por “não há mal praticado sem castigo correspondente” ou, ainda, “aqui se faz, aqui se paga”. Nem sempre, às vezes, a moda diz que a probabilidade é sair impune.
    Gente desonesta, má intencionada e que passa a vida prejudicando os outros em benefício próprio existe às pencas. A maioria morre sem nunca responder pelo mal que causou.
    Ah, pagará em outra vida ou perante Deus. Tá bom, mais outro axioma – que não direi tolo em respeito à fé alheia – usado para chancelar a injustiça, a exploração e a opressão.
    A nossa consciência moral e ética nos mantém razoavelmente probos e retos. Pode ser um valor pessoal inestimável como, também, em um mundo onde predomina a lei do mais forte pode transformar-se em handicap.
    O relato acima e a história o confirmam.

  4. J.Marcelo

    27 de janeiro de 2020 6:31 pm

    Incrível,quando li o título,já pensei: Pelo estilo este artigo é do Nassif e bingoo,acertei(vou jogar na mega TB e aí se ganhar compro o ggn e Nassifão só praiaaa !!!)

  5. Evandro Condé

    27 de janeiro de 2020 6:57 pm

    Sei não, eu acredito na máxima: quem tem cu tem medo. Não sei se deixaria passar batido.

  6. Lourenço dias

    28 de janeiro de 2020 3:26 pm

    Li todos os textos inclusive aquele da revista Senhor, porém, a minha dúvida é a seguinte: o Nassif foi absolvido ou foi condenado no processo movido pelo Saulo Ramos? Eu na época não acompanhei esses desdobramentos e queria afinal saber qual foi o resultado disso.

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