4 de junho de 2026

A relação da imprensa com o discurso médico no século XIX

Nassif
A pesquisa abaixo mostra que a relação entre a grande imprensa, religião, poder e elite é bem antiga. Vale a pena elevar a Post.

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O discurso médico-higienista e a imprensa no séc. XIX

Ainda no período escravocrata o discurso científico do século XIX validou a dominação racial ao afirmar que caucasóides eram superiores às pessoas não-brancas, especialmente aos africanos. Até então a hierarquia das raças no Brasil era justificada por princípios religiosos e morais, não por argumentos científicos. Em fins do século XIX com a iminência da abolição da escravatura, uma preocupação crescente com os rumos da raça no desenvolvimento da nação ocupou a intelectualidade brasileira. Partindo das ciências biológica e criminal, eugenistas viam a população brasileira como exemplo de degeneração, pois, era formada em sua maioria por negros inferiores e mulatos corrompidos biologicamente. Além disso, para completar o quadro de degeneração da raça, essa população estava imersa em costumes vistos como nefastos e sujeita ao triste clima dos trópicos.152

Raimundo Nina Rodrigues foi o primeiro a publicar uma obra sobre a religiosidade africana e de seus descendentes na Bahia153. Médico, doutorou-se na Faculdade de Medicina da Bahia em 1888, onde passou a lecionar no mesmo ano. A partir de 1891 assumiu a cadeira de Higiene e Medicina Legal e se tornou um renomado profissional nessa área. Publicou vários estudos onde não via com bons olhos a miscigenação. Seguidor do criminologista italiano Lombroso, ele mensurou cérebros na Bahia com o objetivo de determinar a inteligência e a tendência à criminalidade a partir das medidas do crânio de diferentes tipos raciais. O médico Nina Rodrigues fez estudos etnográficos da população afro-baiana, onde afirmou que seus estudados eram um fator inequívoco da inferioridade brasileira como povo.154

Em 1896, Nina Rodrigues publicou o livro O animismo fetichista dos negros baianos. Nesta obra, referese ao sentimento religioso dos “negros baianos e seus mestiços” como expressão da “persistência do fetichismo”. Um cientificismo positivista característico do século XIX marca a tessitura do texto. Rodrigues se diz empenhado “em bem precisar a natureza e a forma do sentimento religioso dos negros baianos”, procurando “estudar os fatos com a máxima isenção e imparcialidade”.155

A observação que se pretende “estritamente cientifica” revela o médico como um homem de ciência do seu tempo156. A racionalidade que ele evoca em seu trabalho é considerada radicalmente oposta ao sistema de pensamento das pessoas que ele estuda. Tal sistema para Rodrigues, certamente, é um fenômeno sociológico, todavia, configura-se uma anormalidade moral e espelho da degeneração social e racial, uma vez que, desses costumes vistos como atrasados tomam parte as “classes civilizadas” por fé ou por medo do fetiche157.

Antes de sua morte, Nina Rodrigues trabalhava em idéias que tentavam forjar um código penal diferenciado para os negros, tendo em vista a suposta capacidade reduzida de sua raça. Certos fenômenos sociais como a ociosidade, o alcoolismo ou a criminalidade foram considerados “tendências psíquicas” de indivíduos degenerados, geralmente negros ou “seus mestiços”, como dizia o próprio Nina Rodrigues. Por isso, no caso desses “organismos degenerados”, Nina Rodrigues acreditava não fazer sentido o princípio do livre arbítrio contido no Código Penal Imperial, afinal, esses indivíduos não eram livres para escolher o crime, pois, a sua tendência a criminalidade era orgânica158. Nesse sentido, era necessário “amputar a parte gangrenada do país” para que a população alcançasse níveis mais altos de civilização. Assim, os advogados deveriam colocar sob a pena da lei “o que o perito médico já diagnosticara e com o tempo trataria de sanar”.159

A partir de processos criminais do Rio de Janeiro, Yvonne Maggie investigou visões diversas acerca da feitiçaria no Brasil republicano. Maggie analisou olhares de juízes, promotores, advogados, médicos, acusadores, acusados e testemunhas. Entre os anos de 1889 e 1940 a autora observou que, especialmente os seguidores da religiosidade afro-brasileira sofreram acusações que pendiam para o lado da anomia, da poluição, da sujeira, do vício e das relações eróticas. No campo do direito positivo, que encontra em Nina Rodrigues um mestre, a crença mágica é apontada como um perigo social, pois, ela produz e é produto da anomia, da degeneração social e, por isso, da loucura.160

Numa análise comparativa entre a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e a Faculdade de Medicina da Bahia, em um momento que a medicina ainda era entendida como “uma prática profissional em processo de construção”, Lília Schwarcz demonstrou que os médicos cariocas buscavam a legitimidade e originalidade profissional através da descoberta de doenças tropicais como a febre amarela. Já os médicos baianos “farão o mesmo ao entender o cruzamento racial como o nosso grande mal”. Em outras palavras, enquanto a doença era o problema a ser combatido para os médicos cariocas, na Bahia o problema era o doente, degenerado, louco e criminoso.161

O ano de fundação do jornal A Ordem na cidade de Cachoeira é 1870. Este mesmo ano é considerado um marco do crescimento na produção científica nacional das escolas de medicina, incluindo, entre outras novidades, a criação de publicações. A Gazeta Médica da Bahia foi criada um pouco antes, em 1866, e se configurou como um importante difusor da “missão higienista” dos médicos. A figura do médico era representada em seu desejo de “cura e intervenção” num momento em que as recentes epidemias de cólera, e freqüentes aparições da febre amarela e varíola criava um clima de temor na população. Somasse a esse contexto o crescimento das cidades brasileiras, aumentando a criminalidade, o alcoolismo e os casos de loucura.162

José Ramiro das Chagas e Durval Chagas163, respectivamente, proprietário-fundador e diretor do jornal A Ordem, não passaram incólumes às idéias difundidas na Gazeta Médica ou nas obras do “prestigioso cientista” Nina Rodrigues. Ao contrário, apropriaram-se delas ao seu modo e fizeram de sua folha um porta voz do projeto higienista da Faculdade de Medicina da Bahia. Não podemos afirmar que o periódico da cidade de Cachoeira tenha desde sua fundação assumido tal empresa. Todavia, durante o período estudado é comum nas páginas do jornal A Ordem textos de lentes da Faculdade, como o professor e por muitos anos diretor Clementino Fraga. Bem como, é digno de nota o interesse do periódico pela vida do médico Nina Rodrigues, noticiando com freqüência suas viagens no Brasil (inclusive à cidade de Cachoeira e imediações) e exterior, acompanhando, quase passo a passo, o epílogo do referido médico no início do século XX. Nina Rodrigues, por seu turno, não estava alheio à cidade natal do jornal A Ordem. Pelo menos em dois dos seus livros, ele apresenta suas notas sobre a cidade de Cachoeira e outras do Recôncavo baiano e Sertão. É assim em O animismo fetichista dos negros baianos, quando diz que as cidades de Cachoeira e Santo Amaro são dignas de nota “pelo número e pela importância dos candomblés”. Bem como, em Os africanos no Brasil, quando se refere aos últimos africanos, assinala que após a abolição eles se concentraram na cidade do Salvador, poucos vivendo em cidades próximas como Cachoeira, Santo Amaro e Feira de Santana.164

Gabriela dos Reis Sampaio nos chama a atenção para o fato de no Rio de Janeiro a mesma imprensa que muitas vezes parecia apoiar a jornada civilizatória empreendida por médicos, literatos, bacharéis em direito e outros intelectuais, publicava textos que ironizavam as práticas médicas165. Por seu turno, o jornal A Ordem, desde o início do século XX, contava com um expressivo número de anunciantes oriundos das ciências médicas, ou seja, médicos, farmacêuticos e seus remédios. Também era comum nas páginas do periódico a publicação das listas dos alunos formados nos referidos cursos da Faculdade de Medicina da Bahia. Quando algum dos formados era da cidade de Cachoeira ou imediações, mereciam felicitações especiais à família e ao novo agente da saúde, seguidas de palavras de incentivo para enfrentar a sua árdua tarefa de curar. Por outro lado, não encontrei nenhum texto publicado neste jornal que criticasse ou ironizasse as práticas médicas. De outro modo, um sem número de cartas de pacientes curados e pequenos textos de médicos relatando suas curas puderam ser encontrados no periódico.

Pags 37, 38, 39 40.

http://www.programabolsa.org.br/pbolsa/galeria/arqDownTese/EDMARFERREIRA…

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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