AUTISMO: SEGREGAÇÃO, PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO NO CER (Centro Especializado em Reabilitação), OLHO D’ÁGUA.

O relato a seguir é o retrato lastimável e precário em que está afundado o atendimento de muitas das instituições de assistência e promoção social do Estado.

Nesta manhã fui levar meu irmão mais novo para atendimento médico psiquiátrico, onde diagnosticamos, como já se inferia, seu transtorno de espectro autista (TEA). A conversa foi excelente e revigorante. Segundo a avaliação de nosso carismático e afetuoso especialista, meu irmão tem potencialidades cognitivas impressionantes e necessita de atenção e reabilitação para aprimorar e despertar suas inteligências latentes. Algo que é característico de toda pessoa com este espectro, sendo, por isso, urgente que o governo em todas as suas esferas, invista na reabilitação destes cidadãos e assegure seus direitos para que se desenvolvam e se sobressaiam.
Ocorre que tempos sombrios de matiz nazifascista parecem ter pairado em algumas instituições e este espírito imundo da burocracia, por si só uma praga em nossa cultura patrimonialista, fez mais uma aparição diante daqueles que buscam por ajuda.

Encaminhado para o Centro Especializado em Reabilitação (CER) do Olho D’água, acompanhei meu irmão até a instituição.

_Bom dia, estou com um encaminhamento e gostaria de saber os procedimentos! – a recepcionista recebe o documento, me olha com cara de paisagem e pergunta:

_Qual a idade dele?

_ 28 anos? – me fita novamente como se não estivesse entendendo nada e, me tomando por telepata, faz pouco caso do encaminhamento. Pede um segundo e diz que avisará o caso à direção. Aguardo a demora até que me chega uma coordenadora e me “explica”:

_ Olha, não somos acostumados e não temos “estrutura” para atender esta “demanda”!

_Que demanda? Aqui é um Centro de REABILITAÇÃO e meu irmão foi encaminhado pela psiquiatria do CAPS para fazer reabilitação aqui.

_ É que os autistas são “agressivos” e não temos “demanda” para atendimento de autistas adultos.

_Oi? Qual a sua formação? És psicóloga? Psiquiatra? Quem lhe falou que os autistas são “agressivos”? E quem disse que aqui não há “demanda” para atender pacientes que necessitam de reabilitação?

_ A direção nos informou assim!

_ Quero falar com a direção. Quero falar com alguém que saiba falar, que saiba me explicar o que está acontecendo e me dê o motivo pelo qual meu irmão não pode ser recebido.

Já estava super alterado e esbravejei contra este tipo de segregação inadmissível e em uma instituição pública que está ali exatamente para proceder a esta situação. A função do CER é exatamente reabilitar pacientes com necessidades especiais e que precisem de um acompanhamento qualificado e específico.

Chega a Diretora da instituição com uma aura diferente e com um sorriso político, à espreita de voto e apoio eleitoral. Perguntou em que poderia ajudar.

_ Primeiro, está tudo errado aqui. Como é possível que um Centro como este segregue e reverbere preconceito e discriminação a jovens autistas? Meu irmão tem 28 anos e precisa usufruir dos diretos que lhe cabem. Essa instituição está aqui pra isso!

_ Calma, senhor….

_ Calma? Eu não me acalmo. Quero que vocês façam o trabalho de vocês! Isso é imoral e criminoso. Inclusive, vou levar este incidente ao Ministério Público e Promotoria da Saúde.

_ Nós temos parceria com o Ministério Público…

_ O fato de terem ‘parceria’ não vai inviabilizar minha denúncia. Eles vão me ouvir! Só quero ajudar o meu irmão e farei o que for preciso!

Leitores, é preciso ser justo e esclareço que o atendimento da Diretora do Centro de Reabilitação do Olho d’água foi no sentido de resolver o imbróglio criado pela recepção não especializada, leiga e despreparada para estar nesse trato. Porém é perceptível que sua tentativa de defesa e ‘contorno” da questão foi apenas para amenizar e dizer, com “outras palavras”, as mesmas aberrações que já ouvira dos menos versados. O seu lugar de fala e explanação foram somente um eufemismo prático e mais articulado. Uma forma mais sofisticada de manter a estrutura de desprezo que verifiquei contra as pessoas adultas que sofrem do espectro autista.

Tudo isso é muito triste, muito condenável e odioso e não há como não remeter esta situação à realidade que viveram os deficientes físicos, cidadãos especiais, incapazes, gêmeos e todos que possuíam algum déficit que os impossibilitava de realizar atividades físicas ou cognitivas de acordo com as exigências do sistema. Na Idade Média e em civilizações primitivas essas pessoas foram assassinadas e torturadas por serem consideradas a personificação do mal e do atraso; na Europa nazifascista foram as primeiras – antes dos ciganos, negros, judeus e eslavos – a serem exterminadas nas câmaras de gás.

Resumindo: o CER do Olho d’água não recebeu meu irmão, ignorou o encaminhamento do psiquiatra, expedido por uma instituição pública constituída e, irresoluta, não atendeu aos reclames deste tutor em prol do seu irmão autista, mesmo este estando pleno no exercício dos seus direitos.

É inadmissível que o Governo do Maranhão construa uma estrutura burocrática totalmente avessa ao humanismo e à posição que foi o mote de sua campanha: um governo para todos, para os “esquecidos do Maranhão”.

Nossa postura frente a estas erupções discursivas maléficas, de segregação e exclusão devem ser enérgicas, duras e incisivas. Não é porque sou filho de preto que irei me curvar, que irei me calar e aceitar resignado tais violências simbólicas às quais todos nós, cidadãos brasileiros, já estamos fartos e calejados de suportar de sol a sol.

Basta!

 

São Luís, 13 de Setembro de 2019.

 

Jeanderson Mafra 

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