CIVILIZAÇÃO

A civilização é falsa.

Prá ser civilizado, tem que reprimir o desejo, recalcar o instinto, sublimar as pulsões. Tem que esperar a hora certa, sujeitar-se às normas, respeitar limites; tem que ser inautêntico, antinatural, irreal.

A civilização é lenta.

Tem que perguntar antes de atirar, julgar antes de matar, pensar antes de dizer, aprender antes de fazer. Tem que respeitar o devido processo, dar direito à defesa, pensar nas consequências, fazer ponderações, ser consciencioso.

A civilização é fraca.

Tem que conter a força, evitar o poder, reprimir a vontade, manter os arroubos quietos. Tem que dar voz aos fracos, direito às minorias, acesso aos incapazes. Tem que discutir com as partes, fazer concessões, conciliar.

Tem que buscar a paz quando poderia conquistar, dar ao outro quando poderia tê-lo, ser justo quando poderia simplesmente ser forte.

E a civilização é chata.

Tem que pensar no outro, ter empatia, generosidade, solidariedade. Tem que respeitar o diferente, tolerar o que incomoda, entender o que não se sabe.

Tem que falar baixo quando poderia gritar, ouvir quando poderia falar, calar quando poderia ofender, perguntar “como vai?” quando sequer há interesse na resposta.

Felizmente, não precisamos mais de nada disso.

Estamos trabalhando para mudar isto daí!

Ao menos neste canto de mundo onde eu vivo, os civilizados não mais nos acossarão com suas chatices, leseiras, falsidades e fraquezas.

Enfim poderemos ser fortes.

Se tivermos poder, não precisaremos mais dar satisfações a ninguém. Não poderão questionar nossos feitos nem cobrar por nossos atos. Nosso poder é legítimo, simplesmente porque o conquistamos.

Já não precisaremos dar ouvido a quem não queremos. Poderemos negar evidências que não interessam, mentir, enganar e falsear a “Verdade”, esta inefável deusa dos fracos e oprimidos, tantas vezes usada como álibi para controlar os fortes.

Nenhum ambientalista vai mais conter nossas conquistas sobre a natureza, nenhuma ciência vai mais se arrogar do conhecimento para deter nossos projetos, nenhum princípio vai mais ser usado contra a nossa vontade.

E todos os nossos atos serão atos de vontade.

E nenhum direito vai mais ser-nos imposto, pois todo o direto de um gera dever a outro, que o paga, o sustenta, o fia. Se direitos são conquistas, de agora em diante só os manterão quem puder, quem for forte o bastante.

Enfim poderemos ser autênticos.

Libertar os desejos reprimidos, as pulsões sublimadas, os instintos recalcados pelo mal estar da civilização.

A real liberdade de expressão já é uma realidade. Fomos liberados para ofender a mulher do próximo, fazer piada com a doença alheia, troçar adversários, mesmo que sejam chefes de Estado.

Conquistamos a internet, e como tudo o que conquistamos, agora ela é a nossa casa. Como também o Estado.

Afinal, para que servem as conquistas?

E não precisaremos mais ser os falsos gentis que éramos. Tratar negros como se brancos fossem, mulheres como iguais, gays como normais. Nossa diplomacia não mais obliterará nossas próprias verdades, nossas profundas crenças, nossas máximas vontades, nossos instintos naturais.

Enfim poderemos ser ágeis.

E abater gente pelos acessórios que usam, julgar suspeitos pelas aparências, prender para que falem, e forçá-los a falar o que não querem, não podem, ou não sabem. Tudo muito rápido.

Se onde há fumaça, há fogo, onde há indícios, há crime. Simples assim. Então, não há mais porque seguir os devidos processos, nem dar voz e vez a quem defende criminosos.

Para limpar o mundo do que não presta, poderemos atalhar caminhos, mesmo que nos custe a vida de inocentes, estes efeitos colaterais que os defensores dos maus sempre usam como desculpa para não agir.

E enfim poderemos ser livres.

Livres para pensar, dizer e fazer o que quisermos.

Conquistamos a verdadeira liberdade. A liberdade dos fortes, dos que não devem satisfação a ninguém. Não a liberdade dos coitados, dos fracos, das minorias, daqueles que precisam de autorização para falar, fazer ou ser qualquer coisa. Isso não é liberdade, é caridade.

Não haverá mais concessões à liberdade. Estes, se também quiserem ser livres, terão que conquistá-la a ferro e fogo, e mostrar que são dignos dela. Assim como fizemos.

E quando tudo isso terminar, quando a seara estiver limpa e todo o joio e trigo estiverem apartados, então finalmente nós – por certo bem menos civilizados, mas mais autênticos, fortes, divertidos e ágeis – teremos o mundo aos nossos pés…

…Um mundo plano, circundado por oceanos de abismos profundos onde habitam monstros e dragões, e guardado por paredes de gelo e um domo brilhante e azul, por onde, pacificados pelos nossos feitos, veremos o sol dar voltas redondas em torno da Terra, regiamente, a dizer-nos para todo o sempre que um novo e glorioso dia nasceu.

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