4 de junho de 2026

…sobre Garrincha, deuses, homens e a fé de um menino…

…sobre Garrincha, deuses, homens e a fé de um menino…
(…das prosas postas assim, em versos…)
.
No templo dos semi-deuses da bola,
viu o menino, ninguém lhe contou…
.
um bailarino, um anjo, um louco,
desafiando as leis da física,
burlando as regras do jogo,
brincando de um modo que,
de tão lúdico,
humano não parecia ser.
.
viu, naquela tarde, o menino,
ninguém lhe contou,
.
um povo ébrio de alegria,
um coro de homens, mulheres, crianças,
um coro de risos, risos de contentamento inebriante
que subiam até os céus
num estrondo que lhe parecia divino.
.
e foram tantos dribles naquela tarde,
e havia tanta leveza naquele estranho ser,
mistura de homem e anjo, inocente ali,
com uma bola que parecia só sua,
e a brincadeira parecia ser essa:
quem ia tirar a bola dos pés
daquela criatura quase desumana,
em sua simplicidade óbvia…?
.
e brincou aquele homem-amolecado,
e passava pelos seus adversários uma, duas,
três, quatro vezes,
e havia uma mistura de melancolia e resignação
nos olhares perdidos de seus marcadores,
uma certa impotência natural
que a multidão entendia e respeitava,
não havia vaias sobre os coitados,
apenas aplausos ao bailarino das pernas tortas,
e o barulho dos risos, ah!… o bendito barulho dos risos,
as bocas escancaradas
em risos borbulhantes de euforia…
.
sim, meus amigos, viu o menino
naquela tarde única do universo,
ninguém lhe contou…
.
um homem só, num esporte coletivo,
destruiu o time adversário,
fez gols de todo tipo,
deu passes mágicos
e driblou a física, o tempo, o espaço, a lógica!
driblou até a dor dos seus semelhantes,
cem mil felizardos,
que riam, riam, riam e riam
como se nada mais tivessem feito na vida,
a não ser rir,
com o feitiço que seus olhos viam
no templo do futebol.
.
termina o jogo,
uma paz celestial domina o ambiente,
os risos se acalmam,
a saída para casa é pacífica,
um sorriso cheio de luz em cada rosto,
o mais simplório homem intuindo
o privilégio de estar ali, de corpo presente,
testemunha de uma obra de arte genial…
.
fica o menino, pede ao pai que espere,
não quer sair junto à multidão…
olha para as arquibancadas vazias,
o nó na garganta, a emoção profunda,
relembra o povo ali, hipnotizado
pela obra de um homem!…
.
“Deus não pode saber de tudo!”
intui, mais do que raciocina…
“como prever cada coisa que
Garrincha fez hoje aqui,
diante dos nossos olhos?
como prever alguém assim,
essa mistura de homem, criança,
bailarino e anjo,
fazendo o impossível…?
como antever essa festa, esse riso,
essa alegria,
esse espanto!?”
.
e tem o insight genial,
e ri o menino,
e cria ali, nas arquibancadas do Maracanã,
sua própria fé:
.
“Deus criou os gênios,
para que ele também pudesse sorrir
e se surpreender
com a sua própria criação,
e dividir essa alegria
com toda a humanidade…”
.
solta finalmente as lágrimas,
o menino,
e pensa,
se aquele homem
das pernas tortas
é mesmo um homem,
ou um anjo,
assim,
portador de alegrias…
.
*******
.
(eduardo ramos)

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Comentários fechados.

Recomendados para você

Recomendados