TV Digital Interativa pode ser boicotada por empresas

Enviado por Edsonmarcon

Grandes grupos de comunicação e mídia não querem uma TV digital interativa.
 
Por que?
 
Da Carta Capital
 
 
Por Rafael Diniz e Thiago Novaes*
 
Há cerca de dois meses, foi publicado neste blog o artigo “A Reinvenção da TV Digital no Brasil Brasileira”, de nossa autoria. Ali, levantamos as grandes potencialidades da adoção do perfil C de novos receptores para TV Digital, a serem distribuídos para 14 milhões de domicílios beneficiados pelo Bolsa Família. Trata-se de uma oportunidade ímpar de realizar boa parte das premissas estabelecidas pelo Decreto Presidencial 4.901, de 26 de novembro de 2003, que instituiu o Sistema Brasileiro de Tv Digital e de enfatizar uma plataforma de comunicação sob seus aspectos de cidadania, voltada para a população menos favorecida, com acessos a novos serviços, mais conteúdos, e com interatividade.

 
Esses conversores poderão colocar o Brasil como primeiro país no mundo a levar a Internet para sua população de baixa renda através da TV Digital, permitindo a chamada “interatividade plena” na casa das pessoas.Tal medida pode permitir incluir digitalmente uma expressiva parcela da população que necessita de mais acesso à informação, e que não dispõe deste acesso por outros meios. Esta é uma decisão política que já foi tomada, e que contou com o apoio do Ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini.
 
Entretanto, as decisões do ente responsável pela migração da TV analógica para o Sistema Brasileiro de TV Digital (o SBTVD), estão em permanente disputa. Presidido por Rodrigo Zerbone, Conselheiro da Anatel, o Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV (Gired) é formado por representantes de empresas privadas de televisão e por operadoras de telefonia, sem qualquer representação da sociedade civil.
 
Nesta sexta, dia 30, o Gired decidirá as especificações do conversor de TV Digital que será distribuído para aproximadamente ¼ da população brasileira. Os interesses tanto da indústria de receptores, que visa maximizar o lucro e deixar o conversor o mais simples possível, quanto os das empresas de radiodifusão comercial, que querem a maior parte dos bilhões de reais da verba para a migração alocada para propaganda, coincidem com os das empresas de telecom, que pressionam para que o processo de migração aconteça no cronograma, de forma que a banda dos 700 MHz seja liberada para uso em telefonia móvel o mais rápido possível.
 
Neste contexto, a sociedade civil brasileira, que não tem voz no Gired, e representantes do governo e de emissoras públicas de comunicação já começam a ver o pior no fim do túnel. Existe a chance deste lobby fortíssimo de empresas conseguir derrubar o suporte à “interatividade plena” no conversor. Se isso ocorrer, contrariaremos o que foi aprovado para os conversores de TV Digital a serem distribuídos e o que vem sendo sustentado politicamente por membros do poder executivo brasileiro, como o Ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini e o Secretário de Comunicações Eletrônica, Emiliano José.
 
Um requisito para a “interatividade plena” é o acesso à Internet. No entanto, representantes da indústria dizem que as normas do SBTVD, assim como a especificação do conversor, não são factíveis. Dentre as demandas da sociedade civil estão a inclusão de drivers (software que permite a ativação de um dispositivo) para modems 3G/4G e adaptadores WiFi com porta USB. O lobby das empresas, no entanto, afirma que esta inclusão é difícil e que não seria factível para instalação nos receptores. Pois bem, os conversores rodam Linux, e o Linux já possui uma infinidade de drivers para esses dispositivos. Como pode ser difícil a simples adição dos drivers que já acompanham o Linux no firmware do conversor?
 
A norma brasileira que trata do receptor (ABNT 15604) é clara no que tange à “interatividade plena”. No capítulo 15 da norma, intitulado “Comunicação interativa (bidirecional) – Canal de interatividade”, consta explicitamente que o receptor deverá suportar a instalação de novos drivers. Para um fabricante de modem ou adaptador WiFi, a questão da geração de um driver compatível com o conversor depende do acesso ao código fonte exato do Linux que está em uso no aparelho. Isso não deveria ser um problema, pois como o Linux é software livre, licenciado pela GPL v2 (GNU Public License), a empresa que irá produzir o conversor é obrigada a liberar esse código fonte. No entanto, ao que parece, o lobby das empresas parece ignorar esse fato, agindo em desrespeito às licenças e na contramão do discurso de inclusão digital defendido pelo Ministério das Comunicações.
 
O mínimo que o fabricante do conversor deverá prover é um kit de desenvolvimento para a produção de drivers que permita que adaptadores 3G/4G e WiFi de hoje, e os que forem lançados no futuro, possam ser suportados pelo conversor de TV Digital. O ideal seria que todo o código fonte do receptor fosse liberado, de forma que evoluções independentes do software do receptor pudessem ser desenvolvidas.
 
Considerando o imenso potencial de desenvolvimento social que a TV Digital Interativa permite à população brasileira, previsto igualmente no decreto 4.901 que instituiu o SBTVD, é fundamental que o Ministro das Comunicações do país, Sr. Ricardo Berzoini, seus secretários e conselheiros da Anatel, em especial o Sr. Rodrigo Zerbone, que preside o GIRED, façam valer a decisão da presença da “interatividade plena” nos receptores, e sigam na íntegra as normas do SBTVD.
 
Rafael Diniz é mestre em informática pela PUC-Rio e Thiago Novaes é doutorando em Antropologia na UnB

4 comentários

  1. Primeiramente, entenda-se por

    Primeiramente, entenda-se por “interatividade plena” no conversor, a possibilidade do telespectador (usuário) poder interagir de forma semelhante a internet, através da TV, mas pelo controle remoto.

    Segundo, desde 2003 o governo vem patinando na implementação da tal interatividade, ficando por hora, a TV digital restrita apenas a qualidade do sinal de transmissão.

    2003! Já se passaram mais de uma década!!! E pior, os prazos para implantação da tal interatividade são ridículos! O simples “apagão analógico” (desligamento do sinal analógico) já foi inclusive adiado de 2016 para 2018 (http://www.teleco.com.br/tvdigital_desligamento.asp e http://www.mc.gov.br/index.php?option=com_mtree&task=att_download&link_id=690&cf_id=24).

    Ora, são mais de 10 anos de estudos, investimentos, desenvolvimento de tecnologias – e aí mandaram muito bem, a ponto que o modelo Ginga foi adotado como mais um padrão mundial e adotado pela Argentina e diversos outros países latino americanos e africanos – e embates políticos por um sistema de interação que será infinitamente menos funcional que o da internet.

    Por que o governo não foca então, seus recursos à internet? Por que o governo não tira a pedra de cima do PNBL (que o governo Lula deixou pronto nos 48min do segundo tempo, vale lembrar)?

    Todos sabem que o sinal de internet é possível de trafegar por praticamente qualquer meio: cabos de telefonia, cabos de energia elétrica e até por ondas, pelo ar!

    Se tivéssemos um governo realmente interessado na democratização da comunicação, já teria levado internet a praticamente todos os rincões do País.

    Inclua aos beneficiários do Bolsa Família, sibsídios ou financiamentos para aquisição de computadores, tablets, celulares 4G ou o que quer que se concte, o que, além da conctividade, é muito mais funcional para trabalhos e estudos que um controle remoto de TV. Crie faixas de valores e velocidades descentes a esses beneficiários e demais pessoas de baixa renda.

    Essa história toda de TV digital interativa é mera demagocia, falatório político.

    Repito, se houvesse um governo comprometido com a democratização da comunicação e a interatividade, teríamos uma das maiores redes de internet do planeta em pleno funcionamento, seja por cabos ou espectro eletromagnético.

     

     

  2. Porque?

    políticos por um sistema de interação que será infinitamente menos funcional que o da internet.

    Por que o governo não foca então, seus recursos à internet?

     

    A interatividade é para pessoas de baixa renda terem acesso a serviços, nao ao facebook, e essas pessoas vão receber o decodificador de graça.

    Acessar a Internet de outras formas requer computador, tablet ou smartphone, que são inacessíveis as classes mais baixas. 

    Sem falar que o custo da Internet é muito caro no Brasil 

    • Edson,
      “A interatividade é

      Edson,

      “A interatividade é para pessoas de baixa renda terem acesso a serviços, nao ao facebook”…

      Para terem acesso a serviços como agenda do posto de saúde, do INSS e para consultar seu saldo bancário? Para ficar respondendo sim ou não num sistema educacional pelo controle remoto? Ora, que significância social isso tem, comparado as ilimitadas oportunidades e possibilidades oferecidas pela internet, sejam recreativas, profissionais ou educacionais?

      E assim como nós, qual o problema de pessoas de baixa renda acessarem o facebook? Que tenha acesso ao facebook, mas muito mais que isso, que possa acessar sites, portais ou blogs como esse em que trocamos ideias, e possam ler e passar seus pontos de vista, saindo finalmente do monopólio midiático no qual se situa única e exclusivamente como um usuário “passivo”.

      Por fim, a internet é cara justamente por falta de políticas descentes. No PNBL estava previsto investimentos na Telebras (sucateado por FHC e deixada a mingua por Lula/Dilma) para que levasse acesso a internet a todos os cantos a valores extremamente populares, comercialmente inviáveis as empresas privadas que só visam o lucro.

      Com o “Luz para todos” o governo poderia muito bem ter incluído o sinal de internet.

      …”e essas pessoas vão receber o decodificador de graça”.

      Somos todos nós que pagamos. Já pesquisou o valor de um decodificador Ginga que dê plena interatividade? É muito mais caro que muitos modelos de smartphone e mais caro que muitos computadores simples. Mil vezes que ele tenha um smartphone, um tablet ou computador de custo compatível, com interatividade e liberdade plenas de acesso a todo e qualquer serviço ou conteúdo.

      Inclusive, o grande impasse do projeto é justamente o valor do decodificador de interatividade plena (duas vias). Apenas esse. E conhecendo nossa política, com certeza o povo irá ficar com as opções de dizer sim ou não, e nada mais.

    • Esqueci um porque

      Porque a maior parte do território brasileiro não tem acesso a Internet,  mas tem sinal de TV.

       

      Em todo caso, que mal faria ter acesso a serviços pela TV?

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