Imprensa: muita calma nesta hora, por Carlos Castilho

do Observatório da Imprensa

Imprensa: muita calma nesta hora

Por Carlos Castilho

A ressaca da campanha eleitoral criou uma situação extremamente delicada em que o papel da imprensa passa a ser ainda mais relevante do que antes do segundo turno. A radicalização político-emocional, promovida por veículos como a revista Veja, fez aflorar velhos preconceitos e vestígios autoritários gerados pela frustração eleitoral.

O ambiente político surgido logo após a divulgação dos resultados do segundo turnoconfere à imprensa uma função complexa em que a produção de notícias torna-se menos importante do que o papel do jornalismo na extinção de um estopim informativo de consequências imprevisíveis. É o momento em que os veículos de comunicação precisam pensar mais nas implicações de suas decisões do que na preocupação com suas estratégias comerciais.

Pode parecer paradoxal, mas tudo indica que a imprensa é no momento a única instituição capaz de promover um mínimo equilíbrio entre percepções opostas da realidade política pós-reeleição de Dilma Rousseff. A presidente prometeu diálogo, mas suas intenções ainda estão marcadas pela campanha e, portanto, sujeitas a dúvidas sobre sua credibilidade.

Os políticos voltaram à velha estratégia de desconstruir a proposta de plebiscito sobre reformas políticas numa tentativa de preservar seu cacife num tema que vem se arrastando há décadas. A estratégia é clara: deputados e senadores não abrem mão delegislar em causa própria, mesmo diante da inequívoca perda de prestígio popular.

A imprensa tem um papel a cumprir neste provável confronto entre o Palácio do Planalto e o Congresso, porque isso pode radicalizar ainda mais os passionalismos políticos. A presidente provavelmente usará as reformas para neutralizar a renovada militância de deputados e senadores oposicionistas. Estes devem concentrar sua artilharia na denúncia de uma eventual tentação presidencial de repetir o caráter plebiscitário que permitiu a vitória de Dilma no segundo turno.

A imprensa não é uma instituição qualquer e nem uma máquina de fazer dinheiro. Sua matéria-prima é a noticia a partir da qual os cidadãos tomam decisões, para o bem ou para o mal, de cada indivíduo e da comunidade. A imprensa é, portanto, corresponsável nos equívocos políticos a que estão sujeitos os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.

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Não há como fugir disso alegando que o papel dos jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão é apenas repassar conteúdos. Esta desculpa está inutilizada pelo resultado de dezenas de pesquisas científicas que mostram como as pessoas, inclusive jornalistas, incorporam percepções pessoais à narrativa de fatos e eventos.

O universo dos sentimentos desencontrados revelado pelas mensagens postadas nas redes sociais da internet logo depois do segundo turno mostra uma tendência à irracionalidade política que, se alimentada pelo noticiário da imprensa, pode acabar gerando situações cujo preço pode ser trágico, como mostram os efeitos da Marcha da Família com Deus e pela Liberdade nos idos de 1964.

A imprensa já acumulou ao longo de sua história recente experiências suficientes para mostrar que ela acaba também sendo vitimada pela radicalização que tolerou, consciente ou inconscientemente. Quando as pessoas começam a falar em muros separando pobres e ricos no Brasil, em impeachment da presidente reeleita, em supostas fraudes eleitorais e pedir que os militares retomem o poder, fica clara uma radicalização que só a imprensa pode ajudar a neutralizar. Ela deve resistir a ser protagonista de um jogo entre partidos que desejam manter ou conquistar influência nos negócios estatais.

Além disso, a imprensa precisa recompor sua relação de credibilidade com o seu público-alvo porque ela vive uma crise de transição de modelos de negócio em que a fidelização dos consumidores tem um papel crucial. Alguns veículos podem até tentar manter leitores endossando o passionalismo, sectarismo, xenofobia e autoritarismo. Mas a história recente do país mostra que esta estratégia nunca deu certo. 

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22 comentários

  1. VAMOS ESPERAR SENTADOS …

    Alguns jornalistas ainda estão “lambendo as feridas” com a derrota de Aécio Neves. Como serão “agentes pacificadores” quando – por exemplo – uma apresentadora/comentarista paulista da GNews diz : ” nos sentimos todos órfãos ao final da apuração “????!!!!!! Não seria para os veículos sérios terem analisado com rigor e se posicionado sobre o pedido esdrúxulo de revisão da apuração feita pelo PSDB? E aquele discurso do senador ex-candidato-a -vice na tribuna , espumando pela boca ao dizer que a presidente eleita não tem moral para pedir diálogo?Não vi crítica alguma.Alguém viu?

     

  2. Aproveitando o alerta do

    Aproveitando o alerta do texto: “A imprensa já acumulou ao longo de sua história recente experiências suficientes para mostrar que ela acaba também sendo vitimada pela radicalização que tolerou, consciente ou inconscientemente”.

    Seria bem prudente não colocar mais lenha na fogueira pois o que ocorreu na sede da Abril no protesto contra a CAPA da Veja foi apenas uma pequena amostra do que pode vir, caso os ânimos continuem exaltados.

    O coro “O POVO NÃO É BOBO…” também é outro alerta de quem é o outro ALVO…

    Em tempos de SECA, não é recomendável brincar com FOGO.

  3. Sabe nada, inocente

    O autor do post menciona “uma radicalização que só a imprensa pode ajudar a neutralizar.” Hahaha! Tudo que essa grande imprensa quer é ver o circo pegar fogo!

  4. Castilho, veja como a imprensa tem se comportado

    Golpistas serão rechaçados pelas instituições!

     

    É estupefaciente, para dizer o mínimo, o que ocorreu na mídia brasileira enquanto o Tribunal Superior Eleitoral ainda contava os votos da eleição presidencial de domingo passado. Esse fenômeno revela o despreparo de jornalistas de grandes meios de comunicação para entender não apenas a democracia, mas a Constituição e suas garantias contra o coronelismo eletrônico.

    Com base em denúncia tão frágil da revista Veja que levou o TSE a proibir, por unanimidade, a publicação de divulgá-la, e a conceder direito de resposta ao PT no site da revista, comentaristas políticos tomaram televisões, rádios, internet e a imprensa escrita para vender a teoria de que o impeachment da presidente da República seria uma forte possibilidade.

    Em primeiro lugar, é preciso que fique claro que a denúncia que Veja fez na internet a 48 horas da eleição em segundo turno não apresentou absolutamente nenhum elemento de prova de que o doleiro Alberto Youssef teria acusado a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula de cumplicidade com um ainda não-esclarecido esquema de corrupção na Petrobrás.

    A matéria da edição de Veja da semana passada ignorou todos as exigências que o jornalismo impõe para que uma denúncia daquele calibre seja feita. O leitor da revista não recebeu nada além de uma versão que qualquer um pode inventar. Aqueles que formaram juízo de valor e que condenaram a presidente da República com base em mera maledicência foram guiados pelas próprias idiossincrasias políticas e mais nada.

    Ainda assim, as rodinhas de comentaristas políticos tomavam tevês e a internet para já dar como certo que um segundo mandato de Dilma começaria sob o signo do impeachment.

    A Veja fez um programa de Web TV em que foi dito que haveria “grande” possibilidade de impeachment. Abaixo, um diálogo retirado do programa.

    Apresentadora – O Reinaldo [Azevedo] falou algo muito forte, que é a questão do doleiro Alberto Youssef. Se for comprovado — e tudo indica que será comprovado, porque ele fez um acordo de delação premiada, e feito o acordo de delação premiada ele tem que apresentar provas, senão o juiz não aceita –, a gente tem ai pela frente um provável processo de impeachment.

    Ricardo Sette — É isso que eu ia comentar. A gente tem um cenário de horror pela frente ai, Reinaldo [Azevedo], porque /…/ por mais que o governo Dilma tenha uma maioria no Congresso, vai chegar uma hora em que vai aparecer a cabeça aí, e tem a possibilidade do impeachment. Com a possibilidade do impeachment, Michel Temer vai ser presidente da República.

    Augusto Nunes — Lembramos o caso do Richard Nixon, que se reelegeu com uma estrondosa votação, quando já corria, quando já dava o caso Waltergate, que aqui, esse caso ai que é bem pior, vai continuar.

    Reinaldo Azevedo — Vai continuar!

    Esse tipo de conversa, com pequenas variações, reproduziu-se na Globo News, na Band e por aí afora. Enquanto o Brasil votava, apesar de o TSE ter repudiado por sete votos a zero a reportagem de Veja, a mera versão de que Youssef teria acusado Dilma e de que tal acusação seria irrefutável e, assim, faria com que a presidente vencesse a eleição, mas não levasse, espalhou-se como praga.

    Pior do que isso, porém, foram iniciativas golpistas paralelas. Dois advogados protocolaram na semana retrasada um mandado de segurança contra a participação da presidente no segundo turno, um pedido de impeachment de Dilma e outro de fechamento do PT, alegando subordinação do partido do governo ao Foro de São Paulo, além de um mandado de segurança no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na tentativa de suspender a participação da presidente no segundo turno das eleições.

    Paralelamente a isso, ainda no sábado 25, a 48 horas da eleição em segundo turno, o PSDB representou contra Dilma na Procuradoria-Geral da República (PGR) para que ela e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fossem investigados por uma denúncia absolutamente inepta da revista Veja.

    Passada a eleição, com a vitória de Dilma, o PSDB revolta o Tribunal Superior Eleitoral ao pedir recontagem dos votos, insinuando que as eleições podem ter sido fraudadas em favor de Dilma.

    Confiantes nas chances do golpismo, energúmenos mais ousados que os da mídia já foram estendendo faixas golpistas diante do Palácio do Planalto logo após a reeleição da presidente da República.

    Mas pior que tudo isso talvez sejam os colunistas, editorialistas e blogueiros ligados a Globos, Folhas, Vejas e Estadões que se deram a questionar a legitimidade da vitória da presidente devido à “pequena” diferença de 3,4 milhões de votos em seu favor e, o que é mais revoltante, devido ao fato de que o eleitorado dela seria “menos instruído” e oriundo “dos grotões”, como se os votos dos menos escolarizados, mais pobres e residentes no Norte e no Nordeste valessem menos do que os dos seus compatriotas do Sul e do Sudeste.

    Para coroar tudo isso, nem bem as urnas terminaram de ser apuradas e surgem notícias de “rebelião” no Congresso. Liderados pelos vira-casacas do PMDB Eduardo Cunha, Henrique Alves e até por Renan Calheiros, congressistas derrotados nas eleições ou assustados com a promessa de Dilma de “não deixar pedra sobre pedra” nas investigações sobre a Petrobrás e outras tentam intimidar a presidente rejeitando matérias de interesse do governo enquanto rasgam a fantasia em declarações oposicionistas à imprensa.

    A rebeldia de parte da base aliada será contida à base dos acordos políticos quanto a cargos, diante da alternativa de Dilma ter seu governo paralisado por quatro anos, com os previsíveis efeitos nocivos sobre a sociedade. Mas e o golpismo?

    A oposição e setores da mídia esfregam as mãos, babam pelos cantos de suas bocarras golpistas, mas deveriam atentar bem para o chega-pra-lá que o TSE acaba de dar no PSDB, conforme matéria da Folha de SP supracitada.

    Mas não é só. Mesmo que o novo Congresso, tido como o mais conservador desde o fim da ditadura militar, se revoltasse com possíveis consequências da disposição de Dilma de “não deixar pedra sobre pedra” nos casos de corrupção que certamente afetariam muitos parlamentares e, por acaso, se dê ao desfrute de deixar prosperar um pedido de impeachment, as instituições darão conta de impedir.

    Caso não saibam, impedir um presidente da República não é tão simples e não depende, apenas, do Congresso. Além de ter que contar com a anuência do Procurador Geral da República, o STF pode barrar uma aventura desse calibre.

    O STF que Dilma vem renovando está dando provas de que não voltará a se embrenhar em processos golpistas como o do julgamento do mensalão. Até por isso, Joaquim Barbosa “pediu as contas”. Sabia que em um STF renovado seu partidarismo e o de outros ministros que com ele compactuaram já são minoria. E essa minoria seguirá diminuindo com as novas nomeações que Dilma fará até 2018.

    Este Blog, portanto, recomenda aos infectados pelo vírus golpista que ponham as barbas de molho. Podem até manietar o governo Dilma, mas daí a impedi-lo com artimanhas golpistas vai uma distância muito grande. E, se enveredarem por esse caminho, as ruas deste país serão tomadas por movimentos sociais e sindicais que denunciarão tudo à sociedade.

    A esquerda se uniu no segundo turno contra o retrocesso e Dilma não será ingênua de abrir mão desse apoio, pois certamente irá precisar dele caso a mídia golpista, o PSDB e congêneres venham a tentar no tapetão o que a MAIORIA do povo brasileiro lhes negou nas urnas. E se quiserem por tal premissa à prova, que tentem. Estaremos esperando.

     

  5. Noticia pela imprensa – matéria prima para decisões

    Que matéria bem feita e precisa ser lida por todos os politicos e tomadores de decisões.

  6. o choro é livre…..o respeito as instituições é obrigatório…

    Olha só o que o rastilho de pólvora, espalhado pela revistinha de  esgoto, tá estimulando por aí…..

    E no fiofó dos tucanos  com relação a  crise da água e a roubalheira no metrô, nada ???

  7. o autor alerta para os

    o autor alerta para os perigods de uma radicalização

    que levará a uma direitização que a história jáa

    demonstrou ser trágica para a democracia(64).

  8. Dependemos da midia?
    Dependemos da midia?
    Entao estamos irremediavelmente perdidos.
    A Veja desta semana dobra a aposta.
    Pra eles eh tudo ou nada.

  9. Esse senhor Carlos Castilho

    Esse senhor Carlos Castilho ou é um tremendo gozador, ou é de uma ingenuidade à toda prova ou, o mais provável, é destes analistas que acreditam que a nossa grande Imprensa erra por não enxergar bem o problema e não por estratégia maliciosa. Ora bolas Sr. Castilho… Depois de 4 eleições, as grandes Famiglias midiáticas querem o PT fora a qualquer preço. E incentivar manifestações fascistas é apenas uma das formas sujas que recorrerão. É o que fizeram nos últimos 12 anos. E não desistirão até arrebentarem com o Brasil. 

  10. Bizarro

    Como esses jornalistas sao arrogantes… qualquer um deles….

    Observe a sandice da frase:

     

    a imprensa é no momento a única instituição capaz de promover um mínimo equilíbrio

     

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Chega a soar bizarro a impafia do fulano

  11. é impressionante…
    …até um amigo q mora na Suiça me falou, hj, que não entende esse completo desvario atual de nosso povo..

    Mas é fácil entender, tds nós que acompanhamos a massante campanha da mídia, ha mais de uma década, compreende bem… Envenenar diuturnamente (tbm com apologia à apolítica) um povo com tamanha imaturidade politico-social, uma hora o caldo ferve…

    Nao canso de pensar: graças a Deus que o Alckmin não é do PT, caso fosse, já thu tinha sido caçado ou sofrido impeachment, em razão desta situação da agua.. Nao tenho duvida ALGUMA disso.

  12. Quem não quer o dialogo?

    “A presidente prometeu diálogo, mas suas intenções ainda estão marcadas pela campanha e, portanto, sujeitas a dúvidas sobre sua credibilidade.”

     

    Caro Sr. Castilho,

     

    Pela sua frase acima, parece-me que o Sr. pretende que a Pres. Dilma imponha o diálogo, mesmo não o querendo a oposição derrotada, raivosa, inconformada e rancorosa.

    Quem pede o impeachment de Dilma? Quem pede a auditoria da eleição?

    Ora, Sr. Castilho. Quem não quer o diálogo são aqueles que nunca o quiseram sempre. Aqueles que sempre encontraram na imprensa, na grande mídia, sua guarida e sua propaganda, mesmo que a custas de ilações.

    Tenha paciência, Sr. Castilho.

     

     

  13. mídia

    A proposta apresentada pelo autor pode ser comparada à convocação do incendiário para ajudar a apagar o incêndio que ele mesmo provocou.

  14. Gosto dos textos de Carlos

    Gosto dos textos de Carlos Castilho. Mas chamar MEIA DÚZIA DE FAMÍLIAS de “instituição”. Essa DOEU!

    E quem vem na frente, dessa “instituição” pedindo a proscrição do PT e a derrubada da Dilma? Sua “santidade”, sua “sumidade”…LOBÃO! COM A CUCA DETERIORADA DE TANTA M*, QUE NÃO SE SENTARIA DA DIREÇÃO DE NENHUMA EMPRESA SÉRIA DO MUNDO, UM CARA QUE PROCURA LEVANTAR SUA CARREIRA…E HAJA “CARREIRA” DOS ESCOMBROS.

    😉 Já pensou se um “ET” desce na Paulista, e pede prá falar com “O LÍDER” ? SERÍAMOS FULMINADOS COM “JUSTA CAUSA”. É UM PAÍS DE DEMENTES, O QUE SEGUE LOBÃO.  

  15. Gosto dos textos de Carlos

    Gosto dos textos de Carlos Castilho. Mas chamar MEIA DÚZIA DE FAMÍLIAS de “instituição”. Essa DOEU!

    E quem vem na frente, dessa “instituição” pedindo a proscrição do PT e a derrubada da Dilma? Sua “santidade”, sua “sumidade”…LOBÃO! COM A CUCA DETERIORADA DE TANTA M*, QUE NÃO SE SENTARIA DA DIREÇÃO DE NENHUMA EMPRESA SÉRIA DO MUNDO, UM CARA QUE PROCURA LEVANTAR SUA CARREIRA…E HAJA “CARREIRA” DOS ESCOMBROS.

    😉 Já pensou se um “ET” desce na Paulista, e pede prá falar com “O LÍDER” ? SERÍAMOS FULMINADOS COM “JUSTA CAUSA”. É UM PAÍS DE DEMENTES, O QUE SEGUE LOBÃO.  

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