O caso Karnal-Moro, os intelectuais e as tentações midiáticas, por Luís Nassif

Não há veneno maior para o caráter, suborno maior de pessoas do que a perspectiva de se tornar celebridade, a pessoa que, levada por Mefistófeles, chega ao Olimpo da mídia de massa e imagina que se torna um semideus.

Ministros vetustos do Supremo ou juízes provincianos, intelectuais sólidos ou enganadores, jornalistas jovens ou veteranos, empresários, socialites, poucos escapam à   sedução da mass-mídia. E com as redes sociais e a facilidade extrema de difundir mensagens, a busca da fama instantânea se tornou doença universal.

Como esquecer o rosto do decano Celso de Mello, deslumbrado como uma jovem debutante ao ser filmado em um shopping por um fã sedenta de justiça? Ou o Procurador Geral da República posando para uma foto com um cartaz na mão e um sorriso bobo na boca? Ou o jovem procurador montando um power point com a mesma intenção da atriz de festival de cinema mostrando pernas e busto: atrás do fato inusitado capaz de disputar manchetes?

A mídia seduz pela exposição ou amedronta pelos ataques. É só conferir o que se passou com Luís Roberto Barroso, quando o exército de blogueiros da Veja mirou nele e esguichou alguns jorros de esgoto.

Não se trata apenas da vaidade. Em muitos casos, é um negócio rentável, aporta de entrada no milionário mercado de palestras e consultorias. A exposição em um grande veículo de mídia tornará o mais primário dos comentaristas um guru para um vasto público. É uma das poucas portas de entrada para esse mercado.

Sondados pela mídia, os intelectuais são alvos frequentes de uma mídia, sempre preocupada em encontrar endossos supostamente científicos para suas bandeiras rasas .

Não significa que todos os cooptados são primários, longe disso. Mas o cenário de competição muda substancialmente. É árdua a construção de reputação no ambiente altamente competitivo da academia. De repente, por razões variadas, poucas delas ligadas à excelência do pensamento intelectual, alguém é alçado à condição de celebridade.

Há exemplos de intelectuais que não perdem as linhas-mestras de seu pensamento, mesmo ante a exigência de simplificação e de uso de bordões pela mídia de massa. Nem se deixam seduzir pela futilidade de uma vitrine em que as regras para ingresso poucas vezes batem com a excelência do pensamento.

Mas há outros que, vendo pela frente aquela arma de fácil utilização, acabam assimilando tanto o estilo superficial da mídia que se colocam abaixo da linha, mesmo na métrica pouco seletiva da mídia. É o caso de Roberto da Matta, cujas crônicas se tornaram um monumento ao ego e de uma fragilidade tal que poucos acreditariam ser de autoria de um intelectual referencial anos atrás.

Caráter e deslumbramento

Não se deixar seduzir por esse jogo de lisonja-ameaça não depende de idade ou formação. Caminha mais pelo campo do caráter.

A surpresa de muitos ao confrontar o desempenho de Ministros do Supremo com sua história pregressa é a mesma dos que se escandalizam comparando intelectuais antes e depois de se tornarem celebridades. São bichos diferentes, naturezas distintas, assim como uma molécula quando se altera um micro-organismo qualquer dela. Não há como prever o que essas mudanças radicais perpetrarão no comportamento da pessoa, pois exigiria um teste de caráter impossível de ser feito previamente. Como saber antecipadamente seu comportamento na hora de adotar uma posição que possa contrariar  a maioria, sua resistência para não sucumbir ao aplauso fácil, não aderir a modismos que deponham contra seus valores.

Hoje, no microcosmo das redes sociais, o tema recorrente é o encontro entre o historiador Leandro Karnel e Sérgio Moro. O historiador foi vítima de uma foto etílica – da qual se desculpou. E, em sua obra midiática, não há nada que o coloque no nível de um Da Matta.

Mas o caso Karnel-Moro, por vários motivos me veio à mente, enquanto conversava com a Dodó, 17 anos, exposta ao mesmo tipo de sedução, às mesmas tentações que acometem figuras públicas de todos os quilates – embora no microcosmo de uma comunidade de Facebook.

 Dodó descobriu nas redes sociais uma vocação de polemista. Aderiu a alguns grupos feministas e se dispôs a discutir questões ligadas ao tema. Chegou a organizar a greve dos shortinhos em seu colégio. E sentiu também a reação contrária dos colegas “coxinhas” às suas intervenções no Face. Nem isso a inibiu.

As colegas feministas do Face descobriram que era boa argumentadora e passaram a encaminhar para ela argumentos contrários, para serem desconstruídos. Cada resposta merecia centenas de likes e comemorações, tipo: lacrou!, que significa destruiu a oponente.

Ora, mas não era isso que a Dodó imaginava das discussões. Ela me explica, agora, que polêmicas existem para enriquecer o conhecimento de lado a lado. E detesta quando algumas colegas se juntavam para malhar alguma integrante nova do grupo, que deixasse escapar alguma expressão condenável ou politicamente incorreta ou meramente não aceita pela maioria.

Não vacilou. Rompeu com parte do grupo, abriu mão dos likes indiscriminados, da popularidade fácil. Hoje mantém um círculo mais restrito de amigas feministas, consistente, que a apoiam, respeitam sua opinião e concordam ou discordam de suas opiniões com um discernimento muito maior. Abriu mão da popularidade e preservou o prestígio e os princípios – conceitos distintos que, muitas vezes, nem Ministros do Supremo conseguem entender a diferença.

Muitas vezes, me dá um orgulho danado dessa rapaziada que está entrando no mundo com as principais referências nacionais destruídas pela falta de princípios e valores que acometeu o Brasil institucional.

108 comentários

  1. Karnal, vem cá. Por acaso

    Karnal, vem cá. Por acaso perguntaste ao Moro, por que ele não indicia tucanos e defendeu Temer contra as dezenas de perguntas comprometedoras de Eduardo Cunha?

  2. Com um certo atraso,rendo

    Com um certo atraso,rendo pela milessima vez minhas homenagens ao Moreno de Pocos,por mais um belo texto que produz.Singelo,profundo,tocante.Sujeito esta a erros,por tratar-se de um humano.Luis Nassif e um jornalista brilhante.Ao lado de Mino Carta,Villas Boas Correia e Joel Silveira foram decisivos na minha formacao e apego aos meus permanentes ideais.Axe Nassif.

  3. Foto do Leandro Karnal

    Incomodado? Sinceramente não. Fiquei até “aliviado” com a reveladora foto do Leandro Karnal com o Juiz Sérgio Moro. Eu gostava e vou, provavelmente, continuar gostando de alguns dos comentários que ouvia dele. A estereotipada vaidade e arrogância do Leandro Karnal não fogem muito à regra de um número grande de intelectuais. O Leandro Karnal se tornou, por opção, um comentarista generalista, pronto para avaliar qualquer coisa. Ele fala sobre política, futebol, guerra espanhola, sobre Cristo, Hitler, revolução de 1930, Alexandre o Grande, culinária, Marx, Júlio César, corte e costura, sustentabilidade, Baco e Vênus, Poseidon, do trânsito de São Paulo, da previsão do tempo, do Tio Patinhas, de suruba……………………. . O Leandro Karnal se tornou um grilo falante. Fala, fala e fala sobre tudo e outras coisas mais. Esse fala fala, para mim não é um problema, pois ele sabidamente virou um showman, um promoter em palestras de empresas, canais de TVs, rádios etc. Qual o problema? Nenhum. Voltemos à foto muito comentada e que ninguém ainda me convenceu de não ter sido apenas mais uma de suas ações midiáticas. Aquela foto foi em pose, mais um pouco seria uma selfe e, óbvio, uma self naturalmente expressando a felicidade dos dois. Não foi postada por acaso. Portanto, o meu alívio é saber que aquele intelectual palpiteiro, esforçado na proteção daquela incômoda neutralidade em suas hilariantes palestras, geralmente marcada pela mordida junto com o sopro, dando uma no cravo e outra na ferradura, agora saiu do armário. Gente, o Leandro Karnal saiu do armário! Parabéns ao Leandro Karnal, bem como a todxs que tiveram essa coragem. Neutralidade para mim é quase sempre um sinal de covardia. Se no Brasil as pessoas assumissem suas opiniões, estaríamos seguramente melhores. Detesto aquele reme reme reme de gente que só “gosta” de coisinhas mornas. Que bom, o Leandro Karnal não é mais morninho. Ele é frio mesmo, calculista, estratégico, inteligente pra cacete e, logicamente, tem um lado político nessa tragédia toda que vivemos. Esse lado ficou explicitado. Simples assim.

    • Antes da foto…

      Na verdade, a desculpa da “foto etílica” não cola.

      Também não cola o argumento da sedução da celebridade.

      O que salta aos olhos é o que está antes da foto: o Karnal saiu do armário antes de mais nada por ser alguém que compartilha a mesa de refeição com o Moro.

      A foto é só um detalhe (finalmente revelador). Na verdade, o detalhe que escancarou a porta do armário.

  4. o heroi sergio moro comeca a desaparecer

    Quando a ONU anunciou que IRIA DEIXAR PRA ANALISAR a denuncia CONTRA  O SERGIO MORO, referente a PERSEGUIÇÃO QUE ELE FAZ AO LULA e que contriuiu para o infurecimento dos ignorantes nas ruas contra a presisente Dilma, o que de certa forma foi um apoio popular ao golpe; “”OS GOLPISTAS COMEMORARAM”””. Pois bem, “””””””””””CHEGAMOS A MARÇO DE 2017, com um cenario MUITO DESFAVORAVEL AO SERGIO MORO, pois enquanto o Lula aparece FORTALECIDO o Sergio Moro aparece ABATIDO, pois a cada dia É MAIOR O NUMERO DE PESSOAS QUE COBRAM DO SERGIO MORO PROVAS PARA A PRISÃO IMEDIATA DO LULA”””””””. E quanto mais tempo o juiz Sergio Moro, NÃO CONSEGUE PROVAS CONTRA O LULA, mais aumento o seu desespero de PERDER OS HOLOFOTES, bem como aumenta a possibilidade de tomar MAIS UMA MEDIDA PRECIPTADA atropelando a Lei, para PRENDER O LULA E TENTAR AGRADAR OS IGNORANTES QUE AINDA O TRATAM COMO HEROI. E a situação ainda se torna mais deseperadora para o juiz Sergio Moro, quando ele vê que agora COMEÇA A SOFRER MUITA PRESSÃO, porque “””””NÃO ESTÁ MAIS CONSEGUINDO PROTEGER O PSDB, visto que AS DELAÇÕES CONTRA OS PEESSEDEBISTAS SE TORNARAM PUBLICAS”””””. E a realidade atual é a seguinte: “”””””””””””ENQUANTO QUE O LULA APARECE NAS COM OS 30% DE VOTOS QUE SEMPRE FORAM TRADICIONAIS DO PT, mostrando que apesar de tudo o PT CONTINUA COM A MESMA FORÇA; a pressão sobre o Sergio Moro começa a perturba-lo, onde: DE UM LADO ESTÁ O PSDB, partido que o pai do Sergio Moro foi um dos fundadores, aparece nas pesquisas com apenas 11%, com possibilidades de piorar a medida em que o Sergio Moro não consegue mais segurar as delações contra os peessedebistas; e DO OUTRO LADO está O POVO QUE QUER QUE ELE PRENDA LOGO O LULA, para não continuarem sendo chamados de IGNORANTES QUE APOIARAM O GOLPE SEM SABER O QUE ESTAVAM FAZENDO”””””””””””.

  5. Cheguei a triste conclusão

    Cheguei a triste conclusão que este tal de Karnal foi vitima de um “boa noite cinderela”.A ressaca moral é pior que tem,para curar,dá um trabalho desgraçado.

  6. um bando de abestalhados achando que são filosofos

    Todos estes comentários não passam de palavras que não tem fundamentos solidos são como caniços soprados pelo vento.

  7. Muita falação por nada.

    Muita falação por nada. Nassif usa o “não caso” do karnal para fazer loas a filha. Não precisava. Se tivesse feito um texto falando de feminismo ou juventude de hoje e falasse da filha e de seu comportamento, seria mais honesto.

    Qualquer um que assistir desarmado os diversos videos e entrevistas do Karnal verá que ele possui um visão que a depender do assunto é conservadora ou liberal, de direita ou de esquerda. A enrevista pro canal livre, quando ele faz uma critica contundente contra o movimento “escola sem partido”, faria dele o heroi da turminha que por aqui comenta. E no entanto bastou um encontro dele com o juiz Moro e pronto, caiu o mundo e ele é o inimigo a ser batido, a ser desclassificado no que fala.

    Lamentável a falta de filtro, de equilibrio, de cuidado com a opinião. Replica-se aqui aquilo que sempre se critica na midia mas nesse caso sempre se justifica como sendo correto.

    Ao fundo é isso, patrulha ideológica porque um intelectual que se dá bem no espaço virtual, jantou com o atual “satanaz encarnado”. Anos atrás, se tivesse jantado com Dantel Dantas, ocorreria a mesma coisa.

    Se fosse fotografado jantando com lula e se desculpa-se seria massacrado pela desculpa dada. Se não se desculpasse, seria alçado a herói da turminha e seus videos e escritos virariam postagens como ocorre com jean willys por exemplo ou aquele ex ministro da jusitça que virou figurinha facil em postagens nesse espaço.

     

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