O mea culpa da mídia (A carta que não será escrita), por Beatrice Papillon

O mea culpa da mídia (A carta que não será escrita)

por Beatrice Papillon

“Ao povo brasileiro,

Considerando que o grave momento de turbulência política por que passa o país ameaça não somente a democracia mas fere a ordem social, vemos os mais variados setores da sociedade brasileira obrigados a manifestarem-se. Assim, reunimo-nos, empresários de telecomunicações, para emitir ao país esta carta declaração;

Considerando já ser de conhecimento geral que as empresas de comunicação, para além da cobertura jornalística, participam da vida pública brasileira em associações extracomerciais com grupos sociais e políticos, viemos nomear nossas responsabilidades e oferecer ao público a autocrítica que cobramos de nossos opositores:

Reconhecemos a interferência institucional de nossa atuação em apoios políticos, através de lobby e associações antirrepublicanas corrompendo o Estado para atender interesses corporativos;

Assumimos nosso envolvimento direto em articulação contra a presidente Dilma Rousseff, levada à impeachment que sabíamos inconstitucional. A participação de nossas empresas foi determinante no processo para sustentar a tese da acusação, bem como para garantir a adesão da opinião pública. Não foram poucos os artigos e matérias que produzimos e veiculamos para intencionalmente desqualificar sua administração e manchar suas reputação e imagem. Não explicitávamos, contudo, que defendíamos cotas de verba publicitária federal e manutenção de concessões públicas de rádio e televisão, e portanto, justificamos pelas defesas do país contra a corrupção, e da liberdade de expressão contra o autoritarismo. Duas acusações que, em verdade, se comprovaram infundadas com relação à senhora presidente.

Mas disputávamos, sobretudo, a ocupação do poder por projeto político alinhado a nossas diretrizes e princípios empresariais. Para tanto, empreendemos toda a máquina de nossas emissoras e produtos. Apresentadores e comunicadores de nossos quadros de funcionários foram licenciados e estimulados a defenderem princípios antidemocráticos. Veiculamos escutas e imagens de dirigentes políticos em suas intimidades, pondo em risco a segurança nacional. Fizemos uso de artifícios de linguagem, como a telenovela e a propaganda, para desviar o debate político ao campo do apelo emocional à população. Manipulamos a audiência. Privilegiamos em nosso noticiário a facada, o sequestro, o suor e as lágrimas dos homens públicos em lugar de suas propostas, atos e declarações. Assim, garantimos a despolitização da notícia levando o eleitorado ao reconhecimento simplista de “heróis” e “vilões” conforme os moldes do folhetim, em que conduzimos o espectador mais pelas emoções e menos pela razão.

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Ao longo de décadas apoiamos e mesmo promovemos notórios corruptos para cargos nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário violando o caráter independente com que todo jornalismo honrado deve estar comprometido. Ao mesmo tempo, destruímos reputações com horas seguidas de noticiário difamatório forjando inimigos públicos que hoje são odiados por imensa parcela da população. Ódio que tem mobilizado cidadãos contra cidadãos em agressões e assassinatos que obrigam-nos ao reconhecimento que ora fazemos: alimentamos o extremismo no país.

Mea culpa!

Assumimos ainda a responsabilidade pelo descrédito de nosso próprio jornalismo junto à população visto que, embora a rede criminosa de fakenews construa táticamente a suspeição sobre nossas informações, também é verdade que os recortes tendenciosos de nossas linhas editoriais nos denunciam e culpabilizam pelas acusações de falsidades que hoje sofremos. Tal conduta, portanto, ainda nos responsabiliza pelos ataques e ameaças de eleitores do candidato Jair Bolsonaro contra jornalistas, a quem os interesses políticos de nossas empresas levam diuturnamente a trairem os juramentos de sua profissão.

A gravidade dos fatos avoluma-se de tal modo que não nos resta mais que reconhecermo-nos agora incapazes de proteger a verdade no Brasil, bem como nossa democracia.

Pelo exposto, somado ao compromisso público de restituirmos nas redações os valores honrados da tradição jornalística e em nossas diretorias a ética empresarial, encaminhamos ao povo brasileiro nosso mais sincero pedido de perdão.”

Brasil, 20 de Outubro de 2018
(Aqui você deveria ver a assinatura de representantes das seis famílias detentoras do monopólio das comunicações no Brasil, mas esta carta jamais será sequer escrita)

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Twt: @molotovpapillon

 

 

 

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6 comentários

  1. Vimos e não viemos.
    Primeira

    Vimos e não viemos.

    Primeira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo vir.

    Pobre da Dona Mariquinha Rezende de Rezende a se revirar no túmulo.

    Por favor.

  2. Fundamentalismo inútil

    Tudo certo, mas está esquisito…

    A insistência de Bolsonaro ir contra as urnas eletrônicas aliada a ação da procuradora geral que indeferiu o uso de comprovantes de papel.

    O clima beligerante da parte armada da população no qual muitos motivos são delirantes, são insanos!

    O caixa dois digital nos mostrou de forma inequívoca que a lisura, a honestidade e ética são simulacros!

    São da boca para fora!

    Não iriamos evoluir, iriamos apenas trocar de ladrão!

    Assim para que se tudo não funcionar, caixa dois digital, mentiras, fake news e o vislumbre de brutal regressão!

    Um fundamentalismo a lá Irã às avessas vai jogar este país para trás, no tempo em os ladrões roubavam e você sorria para eles…

     

  3. Esse mea culpa nunca vai acontecer

    Por um simples motivo, os meios de comunicação estão levando o país exatamente para o ponto que eles desejam. Ou seja, do ponto de vista deles, não há nenhum motivo para arrependimentos. Quando isso vier a ocorrer, se ocorrer, podemos saber que é fingimento e um novo golpe estará em gestação, assim como no recente mea culpa da globo.

  4. bom post.

    É por essas e outras que não leio, não vejo e não escuto as midias corporativas-tradicionais.

    Não terão meu dinheiro nem meu tempo.

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