Por que o Brasil não podia ser campeão?, por Wilson Ferreira

Por Wilson Ferreira

A máquina semiótica da Guerra Híbrida faz nesse momento um pesado investimento ideológico para justificar os efeitos do atual modelo neoliberal imposto ao Brasil: crise, desemprego e precarização do trabalho, no qual milhões de desempregados foram promovidos repentinamente a “empreendedores”. E no rescaldo da eliminação do Brasil diante da Bélgica na Copa da Rússia está sendo mobilizado uma operação de emergência para salvar o alto investimento semiótico-ideológico feito no futebol pela grande mídia e mercado publicitário: salvar Tite e Neymar e colocar em ação o tradicional sacrifício do bode expiatório – o volante Fernandinho. Por que? Ao contrário do “pão e circo” que cercava o futebol nos anos da ditadura militar, hoje a função é mais sofisticada: a de “cimento ideológico” através de um discurso mérito-empreendedor no qual Tite é o maior garoto-propaganda. Enquanto isso, Neymar é o reflexo da “commoditização” do futebol brasileiro: jogadores exportados com baixo grau de transformação para, nos clubes europeus, se transformarem em “craques-commodities” de alto valor agregado. Mas cronicamente disfuncionais em suas seleções de origem.

Em cada época, o futebol reflete o modismo linguístico do seu momento. Na Copa de 1978 o técnico da Seleção Cláudio Coutinho tinha um discurso repleto de conceitos estranhos como “overlapping”, “ponto futuro” e “polivalência”. Refletia a europeização do futebol com estrangeirismos ao gosto de uma nova classe média que surgia do breve “milagre econômico brasileiro” da ditadura militar – uma classe que ansiava tudo que emulava o “estrangeiro” como o Play Center em SP e cantores brasileiros que se passavam por gringos como Morris Albert.

Nos anos 1990 termos como “qualidade do passe”, “excelência tática” e “gestão do time” passaram a ocupar o discurso dos técnicos nas coletivas com a imprensa pós-jogos. Outro reflexo, dessa vez do modismo da Reengenharia e dos certificados de qualidade ISO 9000, febre nos meios corporativos. E de um futebol que buscava se profissionalizar. Pelos menos na aparência discursiva.

E agora nesse início de século XXI, na boca dos jogadores e técnicos em preleções e entrevistas pós-jogo, é um tal de “fazer a diferença” de um lado e “estar focado” do outro… Principalmente no paroxismo desse modelo linguístico atual – o jargão mérito-empreendedor-motivacional de dez em cada dez palestrantes corporativos. Cujo reflexo está no discurso do técnico da Seleção Tite, celebrado pelos comerciais do banco Itaú. “Fazer por merecer”, “desempenho”, “trabalho”, “estar determinado” e assim por diante. 

Em meio aos anos da ditadura militar brasileira, as seleções de 1970 a 1978 serviram à função ideológica mais primária de “pão e circo” – como falsa consciência, cujo papel era o de encobrir os “anos de chumbo” de censura, perseguições, torturas e assassinatos políticos. 

Cláudio Coutinho na Copa 78: ditadura militar, “pão e circo” e jargão europeizado.

Mas desde o Golpe de 2016 o futebol, principalmente o da Seleção, passou a ter um papel ideológico mais sofisticado do que de um mero tapume erguido para esconder a realidade. Passou a ter uma função de “cimento ideológico”. De função motivacional para 14 milhões de desempregados e outros tantos milhões de “desalentados” – aqueles que nem emprego procuram mais. A incumbência não de negar a crise (papel da velha função da falsa consciência), mas de narrar por um outro viés a conjuntura de crise: como oportunidade de crescimento ou empreendedorismo individual – a chance de “fazer a diferença”.

Um papel tão sofisticado quanto das bombas semióticas da guerra híbrida a partir de 2013 (clique aqui) e da qual essa nova função ideológica do futebol faz parte.

A desclassificação do Brasil pela Bélgica no jogo pelas quartas de final na Copa da Rússia deve ser analisado como um revés momentâneo no futebol, visto como peça ideológica da atual guerra híbrida cujo País é o alvo do momento. 

Uma peça dentro do grande “mecanismo” (esse sim, o verdadeiro “mecanismo”) semiótico para criar duas narrativas midiáticas bem claras para justificar (e não legitimar) todo o processo político de golpe e posteriores efeitos deletérios das medidas neoliberais aceleradas – desemprego, crise econômica, inflação, precarização do trabalho etc.

Falsa consciência e “meganhização” diária na TV

a) o discurso da corrupção

Narrativa midiática diária com o Mensalão e a interminável Lava Jato com o meganhamento da Justiça e o bordão diário na TV: “policiais federais nas ruas!…”. 

Aqui, com uma função ideológica clássica de falsa consciência: estratégia de desvio da atenção, de dissimulação. Enquanto estudos da própria Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (a Fiesp dos inesquecíveis patos amarelos e de um sapo verde tardio) projetavam em 2014 que enquanto as ações corruptas no Brasil roubavam de 1,38% a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), as altíssimas taxas de juros levavam o pagamento da dívida pública a ocupar 57% do PIB.

Da mesma forma como as “pandemias” como gripe suína ou zika vírus ocuparam mais espaço midiático (enquanto gripe comum, diarreia ou sarampo matam em escala muito maior – clique aqui), da mesma maneira a grande mídia criou uma relação metonímica de contaminação da corrupção com todas as mazelas nacionais – da crise econômica à deterioração da saúde, educação, segurança etc.

Enquanto isso, bancos, instituições financeiras, empresas de investimento, o mercado de crédito, de capitais, de câmbio e monetário nadam de braçadas em um ambiente dos juros altos (garantidos pelo do Banco Central), tomando o próprio Estado e a Nação como reféns do pagamento da dívida pública – decisivo para a crise brasileira.

E numa estratégia clássica de agenda setting (forçar o agendamento na mídia de determinadas pautas), bancam os intervalos publicitários dos telejornais que martelam a agenda do combate à corrupção como o saneador de todos os problemas nacionais.

 

Leia também:  Leitoras, leitores e assinantes protestam contra a parcialidade do programa sabatina Folha/UOL

b) O discurso do mérito-empreendedorismo

Ao bancar os intervalos publicitários, estimulam peças de propaganda que consolem as massas dos efeitos das medidas neoliberais a toque de caixa – no final, medidas para garantir o ambiente de juros altos do mercado financeiro.  

Aqui entram o futebol e a Seleção como vitrines de uma função semiótica mais sofisticada que a mera falsa consciência: a de “cimento” ideológico – não negar a realidade da crise, mas torna-la tão verossímil quanto um acidente natural que deve ser superado pela narrativa individualista do “fazer a diferença” daquele que trabalha. Ou melhor, empreende, que “faz por merecer”.

O problema para tornar a Seleção uma peça desse mecanismo para injetar cimento ideológico nas massas estava na distância desses jovens milionários brasileiros europeizados da realidade do dia-a-dia do brasileiro. Por isso, dois personagens foram destacados para criar algum laço de empatia: Tite e Neymar Jr.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

4 comentários

  1. Por que o Brasil não podia ser campeão

    Professor Wilson Ferreira

     

    Parabéns pela análise.

    De fato, a tragédia que se abateu sobre a população brasileira (sobretudo os mais pobres) é tão gigantesca que não pode mais ser ocultada com a propaganda e o ufanismo — missão básica da ideologia. 

    Diante disso, é fundamental reforçar por meio da lavagem cerebral da mídia que, após o golpe, o país atravessa uma crise profunda, mas que pode ser superada se cada um se esforçar para resolver seus problemas econômicos de forma individual.  Dessa forma, a participação política organizada como forma de atuação da sociedade não pode ser mencionada posto que perigosa. O talento “individual” dos craques brasileiros, incapazes de articular uma frase sequer a respeito da realidade do país, organizado pelo pai empreendedor Tite nos levaria à superação e à conquista !

    Enquanto a grande mídia perpetrava mais essa barbaridade, as riquezas do país — patrimônio do povo — foi vendida a preço de liquidação (vide o pré-sal), mais um escândalo foi descoberto em “governo” de criminosos e assim por diante. 

    Felizmente, o time da GRANDE MÍDIA GLOBAL foi desclassificado. O jornal Folha de São Paulo publicou matéria dizendo que Tite ganhou 10 milhões de reais somente em publicidade durante esse período da Copa. Enquanto isso, a falta de emprego, a falta de hospitais e remédios para os pobres, o aumento do preço da energia e do gás de cozinha são tratados como problemas a serem enfrentados individualmente pelos brasileiros que, afinal, amam a seleção e o futebo e a emoção que ele proporciona!.

    Um abraço e Vamos à Luta !

  2. Por mais que tente,existem

    Por mais que tente,existem limites para a manipulação da mídia golpista.Este limite se chama realidade.

    Já dizia alguém,há não tanto tempo atrás assim,que é possível enganar a todos durante um tempo,mas que é impossível enganar a todos durante todo o tempo.

    A realidade do desemprego,da fome,da falta de oportunidades fará,rapidamente, que qualquer bomba semiótica ou não,exploda no colo de seus inventores.

  3. O Brasil não podia ser

    O Brasil não podia ser campeão porque perdeu pra Bélgica.

    Pronto, não precisam ler a verborragia.

  4. FUTEBOL E POLITICA SÃO A MESMA COISA

    Caro, ganhando ou perdendo o jogo, os Donos do Monopólio do Futebol ganham sempre. O que importa o resultado? O que importa o Futebol? O que importa o Esporte? Somos a Pátria dos Inocentes. O Futebol e o Esporte Brasileiros continuam a mesma coisa. Nas mãos da mesma Quadrilha. E estes mafiosos, depois que alcançaram este monopólio, fabricam a fantasia da forma que querem. EMPATite virá gênio. Como já transformaram em gênios Lazzaroni, Parreira, Dunga,… E como deram um pé na bunda em meia dúzia Treinadores Consagrados e Vencedores como Leão ou Luxemburgo. E gosto de Futebol e não gosto de nenhum destes dois. Mas tinham história, mudaram seus times e o futebol. Ralaram durante anos para construirem um carreira e marca. Mas foram convocados pela População e não pela panelinha. Não estavam no bolso da máfia. Com Murici Ramalho foi a mesma coisa. Sabendo da sua Ética profissional foi só pedir para o Presidente do Fluminene se não abrir mão do contrato. Sabiam que Murici jamais quebraria o contrato. Foi muito fácil dar o golpe em mais uma escalação por competência, pedida pela População. O Futebol há muito tempo deixou de ser algo resolvido em campo. No Brasil então, era prática mutio explorada pelas forças políticas. Mas depois do Monopólio virou uma farsa construída por Interesses Políticos e Financeiros. A Seleção Brasileira perde ou ganha. Seus DONOS ganham sempre. E tem quem acredite que o Esporte e Seleção sejam do Povo?!! (P.S. José Farah, numa disputa política contra Ricardo Teixeira, vendeu o “Paulistinha” ao SBT, que colocou os jogos no horário das Novelas da RGT. Estremeceram todos Alicerces da República. A Polícia Federal do Governo FHC, então perseguiu e não descansou enquanto não tirou José Farah da Presidência da FPF. Que foi entregue a Del Nero. (este mesmo !!) Contrato assinado com RGT e monopólio do futebol paulista e toda futebol nas mãos destes Gângsters, indefinidamente.(“Os caras são gângsters mas são meus amigos”. Andrés Sanches, sabemos) Quanta competência, agilidade e presteza da Polícia Federal de FHC. Por que será? POr que tanto silêncio do CADE, sobre vexatório e explicito monopólio? Futebol? Alguém ainda acredita em futebol? O Brasil é de muito fácil…     

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome