3 de junho de 2026

Divina dama brasileira, por Aquiles Rique Reis

Eu tinha dez anos quando ouvi Elizeth pela primeira vez. Foi “Chega de saudade”. Senti que a voz daquela mulher era o palco iluminado.

Divina dama brasileira

por Aquiles Rique Reis

‎Elizeth Moreira Cardoso faria cem anos no dia 15 de junho de 2010. Cem anos do dia em que um anjo proclamou aos céus: “Elizeth Cardoso. Enluarada mulher. Divina dama brasileira. Nós somos músicos, você, música. És música pelo sexo. Nasceste mulher para ser a música. Cantaste os sons de canções que, por serem de amor, nunca foram demais”.

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Santo o anjo que primeiro saudou Elizeth – não falo aqui do tempo dos mortais, mas sim dos imortais.

Choraste lamentos que senti como meus. Disseste poemas, puxados pelos mais doces “erres”, que embalaram sonhos adolescentes, só meus. Magnífica Elizeth. Que saudosa torrente de paixão, que emoção! Diferente de todas.

Eu tinha dez anos quando ouvi Elizeth pela primeira vez. Foi “Chega de saudade”. Senti que a voz daquela mulher era o palco iluminado. Deixei, então, que se abrisse o teto da minha alma para que salpicasse de estrelas o meu chão. Não, ainda não podia adivinhar que a maior ventura dessa vida poderia ser uma cabrocha, um luar ou um violão.

Ano de 1966. Músico profissional, fui apresentado à música Elizeth Cardoso, pelo Ciro Monteiro. Desde então, acompanhei encantado a espantosa evolução artística da nossa maior música popular. Nossos poucos encontros, naquela época, foram nos bastidores da TV Record em São Paulo, antes do programa “Bossaudade”, comandado por Elizeth e Ciro Monteiro, ou antes do programa do Chico Buarque, Nara Leão, Zimbo Trio e MPB-4, “Pra ver a banda passar”. Surpreendia-me o tratamento gentil, extremamente delicado, dedicado por Elizeth a todos. Mas também, e, especialmente, a nós do MPB-4. Eu achava, hoje tenho certeza, que aquela doçura para com os que a cercavam vinha da segurança de quem não tinha mais nada a provar para ninguém. Isso, num meio onde os egos eram e são enormes, quase infantis, me cativou profundamente. Dava-me uma segurança danada quando Elizeth estava por perto.

Outubro, ano de 1976, Rio de Janeiro. Convite de Carlos Machado, o “Rei da noite”, para que fizéssemos um musical baseado na obra do compositor João de Barro, o Braguinha, na casa noturna Vivará, no Leblon. Elenco: Quarteto em Cy, Lady Hilda, Sidney Magal, Roberto Azevedo, Marina Marcel, Vera Manhães, bailarinas, ritmistas, grande orquestra e… Elizeth Cardoso. “O Rio Amanheceu Cantando”, esse era o nome do musical. A expectativa de todo o elenco era de um sucesso retumbante. Não foi! Mas como foi bom. Só o orgulho, a honra, de dividir o palco com Elizeth Cardoso e todo aquele elenco era mais do que suficiente para garantir semanas imensamente felizes. Pelo menos para mim, que, tão logo chegava ao Vivará, dava religiosamente uma passadinha no camarim da Elizeth, que eu já – vejam a pretensão – sentia como amiga para tomar um conhaque com limão preparado pela fiel “irmã” Lurdes. Aliás, como gostava da Lurdes, a Elizeth. Conversávamos por alguns instantes e eu deixava-a só em sua preparação para transformar-se na música que tanto amávamos.

Aquiles Rique Reis, é músico e integrante do MPB4

Aquiles Rique Reis

Músico, integrante do grupo MPB4, dublador e crítico de música.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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