O dia em que conversei com João Gilberto pelo Facebook, por Luis Nassif

Alguns anos atrás, apareceu no Facebook um perfil de João Gilberto. Imediartamente ganhou popularidade. Nele, o autor colocava vídeos de música, com o bom gosto à altura de João Gilberto.

Era ou não era João?

Resolvi interagir com o perfil. Coloquei no reservado um artigo que escrevera na Folha sobre João Gilberto, em meados dos anos 90, e que seu produtor pedira autorização para incluir na divulgação dos seus shows.

Começamos a prosear. O perfil tinha o tique de sempre colocar reticências no meio da frase, como que repetindo, por escrito, o modo de falar de João Gilberto.

Criou-se uma discussão: seria João, seria o filho de João.

Certo dia resolvi tirar a dúvida de vez. Anos antes, houve um vazamento rápido de gravações caseiras com João Gilberto na casa de um amigo, Chico Pereira. Consegui baixar os arquivos antes que fossem retirados da rede – onde ficaram meio dia apenas.

Havia músicas e havia bate-papos. Uma das conversas foi sobre quem seria o maior violonista brasileiro. Chico Pereira, que devia ser bom anfitrião, mas de música era uma desgraça, comentou que poderia ser Baden Powell, mas Baden “estava acabado”. Baden mal entrara nos 20 anos, mas cometera o pecado mortal, na opinião de Chico Pereira, de gravar com Ângela Maria.

João Gilberto nem perdeu tempo discutindo. Apenas disse que o maior violonista brasieiro era Jacob, de São Paulo. Pediram para que ele mostrasse como Jacob tocava violão e ele disse que não conseguiria.

Levou alguns anos para eu descobrir que raios de Jacob era aquele. Acabei descobrindo na festa de 80 anos do Carlinho Lyra no apartamento de um amigo, presentes os velhos bossanovistas de São Paulo. Lá, me contaram que Jacob era o apelido de Edgard Gianullo, que eu tinha conhecido nos anos 70 ainda, levado pelo Nelsinho Risada, nosso guru e cavanhiquista do Alemão.

No reservado, lembrei a conversa e perguntei a João quem era Jacob. A resposta veio certeira e rápida:

– Era um jovem violonista de São Paulo.

Não havia dúvidas de que era João Gilberto.

Conversamos diariamente por algum tempo. Ele se queixava da dona do apartamento em que morava, uma senhora que morava em Paris e que cometia o abuso de pretender receber aluguéis.

Logo em seguida, o perfil de João foi alvo de ataques de trolls. Ele entrou em pânico, sumiu por alguns dias da rede. Depois, pelas mensagens do Facebook me pediu ajuda. O que poderia fazer. Perguntei a duas procuradoras amigas, a Eugênia e a Janice, que tipo de medidas poderia ser tomada.

Passei as recomendações para ele. No dia seguinte, ele me disse para esquecer. Descobriu que os ataques tinham vindo de Paulo Jobim, filho de Tom, solidário com a filha de João, Bebel Gilberto. Entendi que Bebel tinha queixas amargas do pai e Paulo Jobim foi em sua defesa.

Nem perguntei as razões das brigas. Mais alguns dias e João Gilberto sumiu definitivamente do Facebook.

Lendo agora os desdobramentos das disputas familiares, não tenho a menor dúvida de que, por algum tempo, João Gilberto driblou sua solidão, seu desconforto com as pessoas, interagindo através do Face.

Deve ter sido o último contato do gênio com esses seres estranhos denominados de humanos.

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