Odair José reinventado, por Aquiles Rique Reis

Odair José reinventado

Odair José lançou Dia 16 (Saravá Discos), seu 35º disco de músicas inéditas. Lá estão 12 faixas que ele criou para trilhar o caminho do rock’n’roll, deixando aflorar a sua porção roqueira.

Decisão corajosa de um artista que aturou a pejorativa alcunha de “terror das empregadas”, nos anos 1970. À época, alguns de seus sucessos foram avassaladores, caso de “Vou Tirar Você Deste Lugar” e “Pare de Tomar a Pílula”. Foi quando ele sentiu a mão pesada da censura, que proibiu suas execuções em todo o território nacional. Quem acha que a censura era “apenas” política, há de reconsiderar tal opinião, pois ela também “protegia”, e como, “a moral e os bons costumes”.

A capa do disco chama a atenção, pelo fato de que em suas faces internas e externas, são lembrados fatos ocorridos em dias 16 –, dia em que Odair nasceu, no mês de agosto de 1948. Acontecimentos em profusão, alguns de pouco relevo, como o que dá conta de que o dia 16 de janeiro de 1978 foi o dia em que Sid Vicious teve uma overdose de drogas, despencou da janela de um hotel em San Francisco e foi levado às pressas para um hospital; outros, relevantes, como o 16 de agosto de 1984, dia do último comício pelas Diretas Já, em São Paulo. Só que é em meio a essa miscelânea, meio que escondidos, já que o álbum não traz encarte, estão os nomes dos músicos que gravaram, bem como os títulos das músicas.

Com Odair estão Junior Freitas (baixo, guitarra e teclados), Caio Mancini (bateria) e Alexandre  Fontanetti (produção, guitarra e vocais). O som predominante é o da guitarra, embalada por pedais de distorções e efeitos múltiplos, somado ao vigor quase juvenil da bateria e ao caminho construído pelo baixo, por onde desfila o cantar de Odair José.

Dia 16 é como o diário de um adolescente com fascinação pelo dia 16. Cada rock composto e gravado por Odair José, de alguma forma simboliza a vida cotidiana, com suas ilusões e dúvidas. Assim, não foi à toa que a formulação estética e existencial do CD como que “pediu” instrumentistas que compactuassem o desejo de Odair José de trazer a saudável “sujeira” do som roqueiro para os arranjos – um coletivo que tocasse sem afetações, como se estivesse num jovial quarto de dormir, ou numa garagem.

Em doze faixas, ele se sai melhor quando cai dentro do velho e bom roquenrrol. A força do gênero é o alimento para que ele rejuvenesça. E assim é também em duas suaves canções que fecham o CD. Todavia, algumas baladas, sem a força roqueira que reflete a obsessão em continuar vivo no tempo, destoam do conceito pré-estabelecido para Dia 16.

Talvez, sonhando com o tempo em que suas músicas pintavam no topo das paradas de sucesso, ele considera que este álbum tem “apelo popular e radiofônico”. Popular, sim, radiofônico? Sei não… mas assim é se lhe parece. Mas, como de bobo ele não tem nada, Odair sabe das atuais dificuldades para uma música ser tocada nas rádios que decretam um sucesso.

Salve a reinvenção de Odair José.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

3 comentários

  1. Segundo o própio Odair José,

    Segundo o própio Odair José, quando chegou ao RJ, não tendo onde morar, dormiu muitas noites no Aeroporto Santos Dumont no centro do RJ.

  2. Valeu, Aquiles!

    Um dos grandes artistas da música popular brasileira, tratado como “brega” por tanta gente. Entre tantas ousadias, relembro de Odair José o álbum “O filho de José e Maria”, ópera-rock genial, incompreendida na época e que ele levou ao Teatro Municipal de SP, numa recente Virada Cultural.

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