4 de junho de 2026

Os bastidores do nascimento de um clássico do rock’n’roll

Sugerido por Marco St.

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Por dentro da produção impossível de Bohemian Rhapsody, do Queen

Por Mário David, do Move That Jukebox

 

Olá! Meu nome é Roy Thomas Baker e eu sou um daqueles caras que ninguém sabe que conhece. Ok, não sou um bonitão nem fiz alguma descoberta científica. Mas com certeza você já escutou alguma coisa em que eu coloquei minhas mãos: Stones, The Who, Bowie. Pô, já trampei até com o maluco do Zappa.

Mas o grande lance mesmo foram os garotos do Imperial College. E deles você já ouviu falar, pode ter certeza. O Brian era um puta músico desde moleque. O Taylor também dava pro gasto. Agora, o cara mesmo era o Farrokh, ou Freddie, se você preferir. Já chegou jogando fora aquela droga de primeiro nome (“Smile” – tá de brincadeira?) e mostrando a que veio. E o cara era mesmo uma Rainha. Uma Rainha genial.

Esse tipo de mágica só poderia ter rolado nos anos 70. E meu rolê com eles foi de 73 a 76, com uma cacetada de prêmios e cinco discos clássicos: Queen, Queen II, Sheer Heart Attack, A Night at the Opera e A Day at the Races. Mas o foco dessa história não é a carreira do Queen, nem a vida dos camaradas. O lance aqui é a música que me fez entrar com eles no Guinness, o livro dos recordes. O lance aqui é “Bohemian Rhapsody”.

http://www.youtube.com/watch?v=fJ9rUzIMcZQ]

É o seguinte, 1975: a banda tinha acabado de encerrar a primeira turnê. A responsa de gravar um albúm foda era grande, e o sentimento de que aquela era a hora de consolidar o sucesso pairava sobre todo mundo. Pra pesar ainda mais a barra, a banda tinha acabado de quebrar o contrato com a Trident Records (uma gravadora sanguessuga) e ficou devendo uma nota em multa recisória pros caras. A salvação veio com o maluco do Peter Grant – o empresário do Led Zeppelin -, que descolou um contrato novo com a Swan Song Records.  Deu pra sentir a pressão? Esse álbum novo tinha que ser grande. Muito grande.

O resto da história acho que todo mundo já conhece. O Night At The Opera foi gravado em seis estúdios diferentes, custou uma nota preta (o álbum mais caro da história, na época), e se tornou um dos maiores clássicos da história do rock. De quebra, terminou de consolidar a fama mundial do Queen, nos deixou todos ricos, me deu a chance de me mudar pra América e me juntar à CBS Records. Mas já enrolei de novo. Vamos lá: “BoRhap”.

Um dia, Freddie me chamou no piano dele – a maravilha de um Bechstein alemão (da foto abaixo) – e me mostrou o começo de uma balada com uma puta letra densa: “Mamma, just killed a man…” Caramba, a melodia era linda. Daí ele vira pra mim e diz: “É aqui que entra a ópera”. Fiquei sem entender nada. Esse foi o primeiro contato com a música que nós apelidamos carinhosamente de “Brinquedinho do Freddie”.

 

Ao contrário das outras músicas do Queen, que eram montadas em conjunto, “Bohemian” já chegou completa na cabeça do Mercury. Ele a estava escrevendo desde os anos 60, dá pra acreditar? No começo, a galera da banda não entendia bem o que ele queria, e não acreditava muito na música. Então ele começou a gravar sozinho, no Rockfield Studios, no País de Gales, em 24 de agosto de 75. Naquela época, a gente levava uma semana pra gravar uma música complexa. “BoRhap” levou mais de três semanas – e seis estúdios diferentes, como já falei.

A música terminou dividida em meia dúzia de sessões: intro, balada, ponte, ópera, rock e apoteose. Se você entende um pouco de música já sacou de onde vem essa estrutura, né? Isso mesmo: da música clássica. O tom da composição é si bemol, meio tom abaixo da tonalidade em que Freddie costumava cantar (si). Ele a compôs assim para que a música soasse mais densa e pesada.

Até a sessão da ópera, ele gravou todos os vocais sozinho em multicanais. Vale lembrar que naquela época não tinha existia essa frescura de Pro Tools. Então, cada vez que você queria sobrepor uma faixa de vocal sobre outra, tinha de rebobinar a fita e gravar por cima. Daí você me pergunta: “Mas Roy, e se rolar um erro em alguma das vozes?”. Fácil: fita no lixo e começa tudo de novo. Isso até não era muito problema em músicas convencionais, com apenas duas ou três backing vocals. Com 12 horas de produção se resolvia a parada. Agora, quando o Freddie decide gravar um coral com três caras, a coisa fica séria.

Na sessão de ópera de “Bohemian Rhapsody”, cantaram Freddie, Roger e Brian. A combinação dos tons de voz super baixos do Brian com os médio-altos precisos do Mercury e agudos estridentes do Brian é o que dá a sonoridade única dessa parte da música. Na época, a maior quantidade de canais que uma mesa de som tinha era 24. Então não satisfeito em encher 24 pistas com vocais, Freddie continuava a gravar outros takes por cima das fitas (overdubs), até chegar no som que tinha dentro da cabeça. Foram mais de 180 overdubs e oito lotes de fitas, que seriam suficientes pra gravar dois álbuns inteiros. Ele inclusive queria gravar mais faixas de vocais, mas o fim da festa veio por parte das próprias fitas: de tanto gravar e regravá-las, as coitadas começaram a afinar e ficar transparentes. Com medo de perder tudo, Freddie deu sinal verde para continuarmos.

 

Todas essas fitas tiveram de ser recortadas com gilete e precisamente coladas com fita adesiva, para que os vocais gravados nas infinitas unidades diferentes ficassem perfeitamente alinhados. Como os pedaços da música foram gravados em seis estúdios diferentes, eles utilizaram uma fita com a  gravação da bateria do Roger Taylor pra se guiar, como um metrônomo.

Em constraste a todo esse trampo, Brian May gravou aquele solo de guitarra icônico em um só take e um só canal, usando sua querida Red Special. O que dá a sonoridade especial da guitarra aqui é um amplificador caseiro que John Deacon tinha feito, e que nós apelidamos de Deacy Amp.

No fim, a música sofre uma modulação de si bemol pra dó menor, e é isso, musicalmente, que dá aquela cara super diferente e introspectiva, como se a música fosse diminuindo, como o final de um filme frenético. Pô, confesso que foi como ver o Elvis nascer, ou alguma coisa assim. Não acreditava muito no começo, mas quando a canção foi ficando pronta, a gente simplesmente sabia que tinha toda uma nova página da história musical sendo escrita ali.

Aí, com a música pronta, começou outro problema. Ela tinha seis minutos, o que era uma espécie de ofensa comercial, na época. A gravadora ficava dizendo “Nenhuma rádio vai querer essa merda, caras!” Mas não só seguimos em frente como transformamos ela num single. Pra fazer a galera tocar a música, espalhamos um boato pra um radialista de que a faixa era proibida de ser tocada nas rádios. Ah, meu camarada, diga pra alguém o que ele não deve fazer e esse é o caminho mais rápido pra que a tal coisa aconteça.

Enfim. “Bohemian Rhapsody” virou um dos maiores singles da história, entrando para o Guinness, e atingiu a marca inédita de se tornar número 1 nas paradas duas vezes, uma no lançamento e outra depois da morte de Freddie. Desde lá, já tentaram reproduzir a “fórmula” do clássico diversas vezes, a mais notável sendo “Paranoid Android”, do Radiohead. Olha, podem me chamar de antiquado, mas não acho que alguém vá repetir nosso feito com essa música. E digo isso não só por causa do trabalho humano necessário para superar a falta de tecnologia (hoje, a produção levaria uns três dias, no máximo), mas, principalmente, porque os verdadeiros gênios da música são aqueles que ousam primeiro – e nesse quesito, meus amigos, igual ao Freddie, nunca mais.

[video:http://youtu.be/oozJH6jSr2U

P.S.: o texto acima, baseado inteiramente em fatos reais, mas escrito em primeira pessoa e sob o ponto de vista do produtor Roy Thomas Baker, é original e criado por Mário David, colaborador do Move.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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9 Comentários
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  1. Afonso Braga

    24 de agosto de 2014 3:14 pm

    Bohemian Rhapsody

    Pessoal, apresento o Galeazzo Frudua, o cara é esécialista em Beatles e ensina os vocais corretos, pessoalmente não tinha idéia como é complexo os vocais feito pelos Beatles, mas neste vídeo ele mostra todos os vacais de Bohemian e que demorou vário meses para concluí-lo[video:https://www.youtube.com/watch?v=UPvfl_sr9jU%5D

    1. Luiz Antonio Antunes Machado

      24 de agosto de 2014 3:23 pm

      Legal

      Muito legal, Afonso, eu ainda não conhecia.

    2. AldoH

      25 de agosto de 2014 1:16 pm

      Frudua
      Galeazzo Frudua é, em primeiro lugar, um luthier italiano de primeiríssissima linha. Frudua Guitars produz guitarras e baixos top de linha e amplificadores valvulados fantásticos. Recomendo o video em que ele joga um amplificador valvulado pela janela do primeiro andar, leva pra dentro da fábrica a chutes, pluga a guitarra e sai tocando. O cara é fódis.

  2. morallis

    24 de agosto de 2014 4:35 pm

    Nunca fui fã do Queen mas

    Nunca fui tão  fã do Queen mas muito legal a linguagem do “David, desmistifica

    sem tirar o valor e o conteúdo. Fui ao show deles no Morumbi em São Paulo,

    na hora dos vocais da bohemian as luzes do palco se apagaram e mandaram

    um belo “play back”. Já no “Rock in rio I” não rolou mas o show foi 100% melhor.

    1. Marco St.

      24 de agosto de 2014 5:53 pm

      Em todos os shows em que

      Em todos os shows em que tocavam “BoRhap”  o Queen sempre usava o playback no trecho do “coral operístico”. Faziam isso pq era impossível reproduzir, ao vivo, tantas vozes sobrepostas enquanto ainda tinham que tocar seus instrumentos. Se em estúdio, náquela época, munidos de giletes e fitas, já  havia sido um trabalho monumental, imagina em um palco…

      Há uma outra música do Queen ,”March of the Black Queen”  que era praticamente impossível de ser tocada ao vivo, pelos 4, dado a complexidade da composição, variação de de ritmo, instrumentos  e vocais. A banda, quando a tocava, nunca a fazia completamente.

      Aqui a Seattle Rock Orquestra faz um cover completo

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=igr_4M_thcw%5D

      1. morallis

        25 de agosto de 2014 5:13 am

        Concordo parcialmente

        Concordo parcialmente Marco..já assisti até banda-cover

        mandando muito bem sem “play back, só no “gogó!

        Mas isso tambem não quer dizer P..nenhuma a música

        é ótima isso é que conta. Fred  e Brian May gostavam muito

        da banda “Sweet” !??!

        abs

  3. Mário Mendonça

    24 de agosto de 2014 5:06 pm

    Marco e Nassif
    Sabia da

    Marco e Nassif

    Sabia da complexidade dessa musica, principalmene pela época que foi gravada, mas pelo descrito, realmente foi uma “tese”. Como bem disse ele no final, genialidade é para poucos…

    Valeu o dia

     

  4. Max

    24 de agosto de 2014 5:25 pm

    genial
    http://m.youtube.com/watch?v=irLsjBDPe5c

  5. Leonardo M. G.

    24 de agosto de 2014 10:54 pm

    Não consigo ouvir essa música sem lembrar dessa cena:

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=wUAitHlJMvw align:left]

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