A terça-feira passada foi especial no Bar do Alemão.
Eduardo Gudin convidou Paulinho da Viola, que há anos não aparecia no bar.
Embalada pela presença de Paulinho, apareceu a fina flor do choro paulistano, dos bandolinistas Danilo (hoje em dia, um dos três melhores do país), do revelação Milk, ao violão soberano de João Macacão e demais músicos.
Paulinho é um insuperável contador de “causos” musicais. Gosta de contar, gosta de ouvir.
Contou, mais uma vez, o grande momento do choro, em 1957, quando Jacob convidou os pernambucanos a mostrarem sua música no Rio. Desceu um comboio de Recife, no qual brilhavam o violão de Canhoto da Paraiba e o bandolim de Rossini.
Foi nesse encontro que, encantado com o som que ouvia, o grande Radamés jogou seu copo de chopp para o alto, deixando uma mancha no teto. E Jacob, com seu senso histórico, jamais limpou a mancha para eternizar a passagem dos pernambucanos.
Paulinho tinha 17 anos quando testemunhou o encontro.
Das inúmeras histórias de Paulinho, chamou a atenção o personagem Ioiô, do grupo de choro de Niteroi. Conta Paulinho que era um sujeito de mais idade, conhecedor profundo do choro e de todos os improvisos em todos os instrumentos. Ficava ouvindo, apoiado em uma bengala e chamava a atenção para qualquer escorregão.
Foi o único sujeito perto do qual o Jacob tremia, contou Paulinho.
Procurou desmanchar a imagem que se tinha de Jacob, de um sujeito rabugento. Jacob era um gozador empedernido. Lembrou uma gravação na casa de Antonio Dáuria, em São Paulo, onde
Jacob tirava o maior sarro de Pixinguinha, que estava bêbado como um peru.
Tenho a gravação e é um barato, de fato.
Depois, lembrou-se de compositores históricos, como Henrique Lobo de Mesquita, autor de “Batuque”, que recebeu uma gravação pouco conhecida de Jacob. Quando lhe disse que tinha a gravação, e até solfejei um pedaço, surpreendeu-se.
Quem me forneceu tanto a gravação do Jacob com Pixinguinha, quanto a do “Batuque” foi Barão do Pandeiro que pela primeira vez estava tímido no bar, a ponto de nem se aproximar da mesa. Passou por lá em um momento em que Paulinho relatava um episódio pouquíssimo conhecido do choro. Mencionava um violonista, também pouco falado. E Barão, de passagem, identificou-o.
\Paulinho se surpreendeu com o conhecimento do Barão; eu não. O que o meu amgo Barão conhece de samba e choro não está escrito.
Contou também o primeiro encontro do menino Raphael Rabello, com 12 anos, e seu futuro mestre, Meira – que, antes, tinha ensinado Baden Powell e João de Aquino.
A mãe levou Raphael até a casa do mestre. Este, já de idade, não queria mais aceitar alunos.
Mas ao ver o lourinho baixo, com mãos pequenas, teve curiosidade em ouvi-lo tocar.
Bastou Raphael executar uma valsa, composta por seu avô, para Meira não apenas aceitá-lo como aluno, como não deixá-lo sair de casa. A mãe voltou de mãos abanando e Raphael passou dois dias inteiros na casa do mestre.
Naquela noite, pelas histórias de Paulinho passaram Jair do Cavaco, Tantinho da Portela, e, principalmente, Nelson Cavaquinho e Zé Ketti.
Ele achou curioso que até hoje não tenha saído um livro com os casos de Nelson, um mais divertido que o outro.
Contei dois deles, que testemunhei.
Um, o dia em que, depois de um show na boate Dobrão (na rua Cubatão) Chico Buarque, já embalado por uísque, foi até o bar da esquina e, ao ver Nelson Cavaquinho, ficou tão entusiasmado com o mestre que se curvou sobre uma mesa de ferro fundido, para beijar o ídolo.
Nelson refugava, solene por trás da bebedeira: “Não beijo homem”. Chico inclinou-se tanto que cairam ele, a mesa de ferro e mais uns dois do MPB4 em cima do sambista. Com três meses de carreira jornalística, testemunhei um tombo histórico e o beijo musical que não houve
Outra história foi do negão Almeida, que resolveu levar Nelson Cavaquinho do bar do Alemão até a Rodoviária. Chegando lá, Nelson virou-se para ele e disse
– Você é meu afilhado. Vamos para o Rio que vou fazer uma buchada e convidar a velha guarda da Mangueira.
O negão deixou o carro na rua, comprou uma passagem e seguiu para o Rio, com Nelson dormindo e babando no seu ombro
Perto de Volta Redonda, Nelson acordou, olhou para o Almeida com ar estranho e perguntou
– Quem é você?
Outra história de Nelson, contada por Paulinho, foi em uma rodada em um boteco no Rio. Nelson apareceu com uma moça com quem circulava há dois dias e duas noites pela cidade. Começou a tocar e toda hora a moça vinha cochichar algo no seu ouvido, atrapalhando a música. Na terceira vez, Nelson reagiu:
– Minha filha, se você está com vontade de mijar, mije, mas não atrapalhe a música.
Jose Fernando Entratice
20 de dezembro de 2013 12:22 amQue beleza!! Isso deve fazer
Que beleza!! Isso deve fazer um bem danado pras calmas.
Laura Macedo
20 de dezembro de 2013 2:43 amA vibração etílica de Radamés Gnattali
Nassif, que delícia de relato!
Uma das minhas primeiras postagens no PLN foi “A vibração etílica de Radamés Gnattali” (2008). Existem (existiram ‘?’) controvérsias sobre o ocorrido. Que bom que apareceu mais uma testemunha ocular do episódio – Paulinho da Viola. O violonista Henrique Annes em conversa comigo, aqui em Teresina, garantiu que o Radamés realmente jogou o copo de cerveja no teto da sala do Jacob, fato relatado a ele pelo violonista Canhoto da Paraíba, presente na histórica reunião na casa do Jacob do Bandolim.
O próprio Canhoto, em depoimento a Myrian Taubkin e outros pesquisadores, em 13/06/1989, publicado no livro “Violões do Brasil”, diz: “O Radamés se interessou muito por um choro meu, “Lembrança que ficou”. Ficou entusiasmado mesmo, até jogou o copo prá cima”.
Já o cavaquinista Henrique Cazes contesta afirmando que Radamés nega o episódio.” Oh rapaz, você já me viu jogando cerveja pro alto? quem foi o filho da (*) que inventou essa história? Isso é uma esculhambação”.
Mesmo sem saber que o Paulinho tinha testemunhado o episódio eu já acreditava no que o Canhoto da Paraíba relatou ao Henrique Annes. O amigo Urariano Mota, também, em comentário no meu post, diz que o Canhoto não era homem de mentir.
E vocês, Nassif e amigos, o que acham?
Nilva de Souza
20 de dezembro de 2013 3:10 amPutz! Deve ter sido uma
Putz! Deve ter sido uma delícia, Paulinho é demais. Sempre aparece por aqui procuro ir aos seus shows. Adoro seus causos contados com aquela calma peculiar. Monstro sagrado !
Lucinei
20 de dezembro de 2013 3:15 amMuito bom!
De fato, em outras
Muito bom!
De fato, em outras plagas já haveria livros e mais livros, filmes e mais filmes. Aqui o pessoal “da cultura” que contar “historinha” de relacionamento. Chique, né?
Pra mim o principal é essa de “dar tombo” na roda de de quem toca. Não é corporação de ofício mas não tem ninguém de bobeira, não!
implacavel
20 de dezembro de 2013 3:20 amPaulinho e Marisa Monte sábado passado na Portela
[video:http://youtu.be/1itFzZYDrxo%5D
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lucianohortencio
21 de dezembro de 2013 1:48 amBatuque, de Mesquita!
[video:https://www.youtube.com/watch?v=TrYBg4nTia4%5D