Samba paulista, por Walnice Nogueira Galvão

O “samba paulista” é representado com muita honra por Adoniran Barbosa (v. Jornal GGN, 11.7.2018), Germano Mathias e mais o doutor e cientista Paulo Vanzolini, ilustre herpetólogo, que constituem sua linha de frente.

Samba paulista

por Walnice Nogueira Galvão

Ronda (Paulo Vanzolini)

Volta por cima (Paulo Vanzolini)

Minha nega na janela (Germano Mathias)

Guarde a sandália dela) (Germano Mathias)

Trem das onze (Adoniran Barbosa)

Saudosa maloca (Adoniran Barbosa)

Iracema (Adoniran Barbosa)

Samba do Arnesto (Adoniran Barbosa)

Atribui-se a Vinicius de Moraes a pecha, desavisadamente lançada, de ser São Paulo o túmulo do samba. A aleivosia arde até hoje, especialmente quando se alinhavam as razões, catalogam-se os nomes e se ouve a farta produção de altíssima qualidade.

O “samba paulista” é representado com muita honra por Adoniran Barbosa (v. Jornal GGN, 11.7.2018), Germano Mathias e mais o doutor e cientista Paulo Vanzolini, ilustre herpetólogo, que constituem sua linha de frente.

Mas antes desses três houve Caco Velho e mais Jorge Costa, Geraldo Filme, Kazinho e Elzo Augusto, entre os principais. E afora eles, muitos outros bambas da Barra Funda, da Casa Verde e do Bixiga, bem como das escolas VaiVai e Camisa Verde e Branco.  Só de Jorge Costa, Germano Mathias gravou nada menos que 25 composições, como “Bronca da Marilu” e “Falso rebolado”. E não só ele: todo mundo queria gravá-lo, de Ângela Maria a Gilberto Gil, bem como os Demônios da Garoa várias vezes. E “Triste madrugada” estourou na voz de Jair Rodrigues.

O excelente cantor Noite Ilustrada, elemento crucial para a definição da forma que o samba típico da capital assumiria, contribuiu com sua presença e desempenho pelas boates da vida noturna.  Seus discos pioneiros com as canções de Paulo Vanzolini foram lançados à medida que elas eram criadas e se transformaram numa fieira de sucessos. Também ele gravaria Jorge Costa, num total de 11 sambas. Inezita Barroso, grande defensora do samba paulista, foi outra que ajudou a tornar Vanzolini conhecido.

Caco Velho, na pia batismal Mateus Nunes, era um cantor esfuziante, de balanço incomparável, capaz de uma performance inesquecível, com seus gestos muito copiados por outros cantores e a cuíca cujo ronco imitava com a garganta. O samba que fazia era mais ritmado e mais sincopado que o normal. Todo samba é baseado na síncopa, como ninguém ignora, mas alguns são mais sincopados que de hábito. Quem chama a atenção para esse ponto é seu discípulo confesso Germano Mathias, em sua biografia publicada. Caco Velho era o rei do breque, essa suspensão da continuidade que “quebra” o ritmo e acrescenta comentários jocosos que duram alguns segundos ou minutos.

Uma de suas mais divertidas composições é Esta nega sem sandália, cujo refrão, em francês, reza: “Pourquoi? Oui, oui, oui, oui, oui!” . Com esse toque de humor,  não é outra a razão de ter sido interpretado por Elza Soares e Miltinho, sambistas extraordinários, capazes de dar conta dessas nuances. Tampouco o deixaram escapar os Demônios da Garoa, azes do samba paulista, que pareciam exclusivos de Adoniran Barbosa. E, por ocasião de sua morte, Elis Regina o homenageou em seu programa de televisão.

Caco Velho tinha trânsito internacional, entre Paris, Las Vegas e Portugal. Depois de muitos anos fora, voltaria a São Paulo, onde se fixaria, abrindo no Centro sua própria casa de shows, à rua Peixoto Gomide quase na Augusta, com o nome de Brazilian´s.

Ocorreu um lance curioso, que deu muita dor de cabeça ao sambista, e que hoje talvez não ocorresse. Com o título de Barco negro, Mãe preta foi várias vezes gravado em Portugal, com sua cadência mudada de samba para fado. Passou a ter um entrecho de pescadores que partem para mar alto, enquanto as mulheres permanecem na praia esperando. Mas havia um ponto que não variava: jamais aparecia o nome do autor. Inclusive, ampliando sua fama extramuros, houve um filme em que foi cantado nada menos que pela mais famosa fadista que já houve, Amália Rodrigues. Depois, seria nessa mesma linha gravado por orquestras de dança estrangeiras. Tudo isso custou tempo e dinheiro a Caco Velho em processos e ações judiciais.

Quem quiser conhecê-lo ou renovar o prazer do contato com um sambista magistral, além de paulista (embora gaúcho de nascimento), é só procurar no YouTube e em seu acervo no Instituto Moreira Salles, que guarda 60 gravações.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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