10 de junho de 2026

O preço do subdesenvolvimento é a eterna ignorância, por Luís Nassif

Aqueles que blindavam a Lava Jato enquanto ela destruía o país, hoje conseguem até ver o Pix como soberania nacional.
Reprodução

A geopolítica influenciou eventos no Brasil, como a Lava Jato, com interferência dos EUA e desinformação na mídia.
O Departamento de Estado dos EUA controlou setores estratégicos brasileiros, afetando Petrobras, Embraer e programas nacionais.
A falta de projeto nacional e elite econômica limita avanços, mesmo com Lula podendo vencer a próxima eleição.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O preço do subdesenvolvimento é a ignorância eterna. Poucos motes se encaixam tão bem na história brasileira — e na história recente, então, serve de chave de leitura.

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De uns tempos para cá, a geopolítica entrou no cardápio do leitor mais bem informado. Deve-se o favor, em boa medida, a Donald Trump e a Netanyahu, professores involuntários do que há de mais brutal nas disputas entre potências. Mas a geopolítica nunca esteve ausente. Esteve em 1964; esteve no enredo que começou a ser tecido com o mensalão; na campanha do impeachment; na Lava Jato — um encadeamento previsível que terminou por entregar o país ao crime organizado. Nunca foi tão simples manobrar uma nação ignorante, uma elite política imbecilizada, uma imprensa amadora e um Supremo Tribunal Federal acuado pelas campanhas de mídia.

Lembro-me de 2018. A interferência norte-americana na Lava Jato já era nítida, e bons analistas descartavam os alertas com uma única palavra: “teoria conspiratória”. Era teoria conspiratória ousar supor que a CIA conspira.

Vale lembrar um documento. O Despacho 1035-960 da CIA, Countering Criticism of the Warren Report, foi emitido em 1º de abril de 1967 pela chefia dos Serviços Clandestinos e só veio a público em 1976, por um pedido do New York Times via FOIA. Diante do ceticismo crescente quanto à versão de que Oswald agira sozinho no assassinato de Kennedy, a CIA instruía suas estações a mobilizar contatos influentes — políticos, editores, jornalistas — em defesa do relatório oficial. A agência reconhecia estar implicada (corria a acusação de que Oswald trabalhara para ela) e fixava o objetivo do despacho: municiar esses ativos para contestar e desacreditar as alegações dos “conspiracy theorists” e conter sua circulação no exterior. Em suma, prova documental de uma operação coordenada de propaganda, via assets na imprensa, para desqualificar críticos — usando, como moldura, o rótulo de “teórico da conspiração”.

Que fique claro: nossos bravos intelectuais, os que brandiam o argumento da “teoria conspiratória” para blindar a Lava Jato, não eram agentes da CIA. Estavam muito longe disso. Mas o fato de o rótulo ter colado até em mentes bem informadas revela a pobreza de diagnóstico que cerca o país. Alguns dos melhores jornalistas brasileiros mergulharam de cabeça na defesa da operação. Uns pela audiência que o tema rendia; outros — como certos ministros do STF — apostando que, afastado Lula, o PSDB voltaria ao poder. Ignoravam, todos, o novo poder que emergia das redes sociais e o efeito corrosivo que a desqualificação da política produziria na cabeça do eleitor.

O resultado está à vista. O Departamento de Estado conseguiu desmontar ou capturar praticamente todos os setores de desenvolvimento autônomo do país — entendidos como aqueles sem vínculo direto com o capital e as empresas norte-americanas. Puseram interventores na Petrobras, na Embraer, na JBS, na Eletrobras; arrasaram a construção civil; interromperam o Prosub. A subserviência chegou ao ponto de uma equipe da Lava Jato — chefiada pelo próprio procurador-geral da República — viajar aos Estados Unidos para entregar informações contra a Petrobras e recolher munição contra o almirante Othon, o principal cérebro do programa nuclear brasileiro.

É curioso. Esse mesmo pessoal hoje é capaz de enquadrar até o Pix no conceito de soberania nacional, mas foi incapaz de enxergar a destruição do que restava de desenvolvimento autônomo no Brasil. Havia interesses em jogo, sim. Mas havia, acima de tudo, a ignorância ancestral — a mesma que franqueou as jogadas de Rui Barbosa com o capital inglês na aurora da República e as de Golbery do Couto e Silva com o capital norte-americano ao longo da ditadura. E as de Michel Temer e Bolsonaro no pós-impeachment.

Daí a desmedida carga de esperança depositada nas costas de Lula. Mas como um país sem elite econômica, sem projeto nacional, sem partidos, sem consciência industrialista pode aspirar a um Plano de Metas, a uma construção deliberada do futuro? E, sem esse plano, não se sai do lugar. Lula pode até vencer a próxima eleição; se insistir no mais do mesmo, terá apenas adiado a destruição da Nação — entregue, ao fim, ao crime organizado que orbita a ultradireita.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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