Comentário no post: “A Classe Social dos “batalhadores””.
Em primeiro lugar, é preciso deixar claro o que Jessé Souza compreende sociologicamente por classe média. Para ele, ser pertencente a uma classe média é ser portador não apenas de capital econômico (renda, dinheiro, bens materiais), mas também ser portador de “capital cultural”, sobretudo, na forma “incorporada” (senso de disciplina; senso estético ou gosto; senso de poupança; disposição para a planificação, etc.).
Trata-se de um patrimônio de conhecimentos e práticas culturais que os indivíduos adquirem e acumulam durante sua trajetória biográfica, principalmente na esfera familiar e na escola. É esse patrimônio cultural adquirido diferencialmente entre classes e frações de classe que vai ser uma variável condicionante importante para o sucesso ou fracasso numa sociedade competitiva como o Brasil.
Nesse sentido, as barreiras entre as classes não são apenas de natureza econômica, mas também cultural e essa última dimensão eclodiu de modo gritante nas pesquisas empíricas coordenadas por Jessé Souza. Muitos indivíduos entrevistados, mesmo alçando a condições econômicas semelhantes com as classes médias e altas estabelecidas, não se sentem pertencentes às essas mesmas classes.
Por razoes socioculturais diversas: por exemplo, grande parcela dos perfis de indivíduos das classes baixas compartilham gostos, estilos de vida e de comportamento dissonantes com os padrões dominantes, isto é, enxergados como legítimos entre as classes estabelecidas. Por isso, a forte “hostilidade” e “preconceito” por muitos dos perfis de classe média tradicional, principalmente em matéria de consumo cultural e educação formal – a exemplo disso, já ouvi muitos colegas da classe média educada, externar um mal-estar em frequentar bares ou restaurantes que, segundos os mesmos, “baixou o nível cultural”, dada a presença do “povão”; ou ainda que as praias se tornaram “praias de farofeiros”.
Além disso, haviam entrevistados batalhadores que apesar de possuírem capital econômico relativamente elevado, simplesmente sentiam vergonha e mal-estar de conviver nos círculos da “boa sociedade”, por se considerarem “ignorantes” ou por não compartilharem dos mesmos gostos culturais socialmente legítimos.
Embora a classe média brasileira seja em si, um estrato bastante heterogêneo, é possível identificar alguns padrões culturais consonantes entre seus pares, destaque para a “elevada” formação escolar, assim como por compartilhamento de gostos e práticas e consumos culturais socialmente legítimos (música clássica visita a teatros, literatura erudita, cinema de arte). Patrimônio de práticas e gostos culturais muito diferentes do que se observou empiricamente na classe de batalhadores, com seus hábitos culturais muito mais alinhados as demais classes trabalhadoras.
É essa dimensão sociocultural tão importante sociologicamente que as pesquisas que trabalham apenas com categorias analíticas como “renda” e “patrimônio material” não captam. Aliás, esse modelo economicista de análise de classe que enfatiza em demasia a variável renda é mais retrogrado e pobre analiticamente do que a abordagem marxista – esta última, pelo menos, reflete sobre a posição na divisão social do trabalho de produção e acumulação de capital, assim como seus efeitos sociais.
Enfim, ao contrário do que foi dito por alguns colegas críticos nos comentários aqui, a preocupação sociológica de Jessé Souza é justamente no sentido de reinserir o “social” nos estudos sobre estratificação e desigualdade, quase sempre tratados apenas pelas lentes estritamente econômicistas. Além, é claro, de colocar um pouco de realismo sociológico no tratamento do que processa atualmente na nossa sociedade. É uma grande contribuição científica, sem sombra de dúvidas.
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