3 de junho de 2026

A educadora Mabel Velloso

Uma bela homenagem à educadora baiana Mabel Velloso, “parteira de mentes brilhantes”.

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Mabel é também escritora, compositora e cordelista. Trabalha há 50 anos como professora. É irmã de Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Do Terra Magazine

PARTEIRA DE MENTES BRILHANTES
Por Jorge Portugal / Terra Magazine

Quando ainda ensinava no pré—vestibular baiano (que saudades  sinto!), ao terminar uma explicação sobre algum aspecto técnico de Redação, voltava-me para os alunos e lhes pedia quase suplicando: “agora que vocês já sabem a técnica, por favor, soltem o João Ubaldo que dorme dentro de vocês! Soltem Cecília, Clarisse, Miriam Fraga, Drummond que estão aí, loucos para sair e escrever o mais belo dos textos”. Era uma risada geral, mas, num porcentual modesto, terminava acontecendo.

Conto esse episódio só para lembrar que o professor não é apenas um transmissor de regras e datas mas, sobretudo, um garimpador de talentos, um parteiro de mentes brilhantes que, muitas vezes, a escola da pedagogia castradora e complicada mata no nascedouro. Para tanto, além da competência do saber e da explicação, precisa de uma bela dose de sensibilidade senão, não é educador mas, tão somente, um “vendedor de peixe”.

Mabel Velloso é uma dessas educadoras em extinção. Sem terminologias pedagógicas complicadas e inócuas, há, pelo menos 50 anos, faz um bem danado à educação brasileira. Desde Santo Amaro e seu querido “Araújo Pinho”, Mabel prepara pessoas, lapida caracteres e liberta a fonte limpa da criação que habita em cada um de nós.

Muito além do sossego de uma aposentadoria, Mabel continua a educadora inquieta que sempre foi. Ensinando a garotos e garotas no Pelourinho, aplica o seu infalível método de descobrir poetas onde os olhares medíocres só veem futuros marginais.

Outro dia, em mais uma belíssima aula que nunca separa memória de criação, Mabel invocou o tema “Tristeza” e pediu que os alunos falassem livremente o que fariam por ela caso ficasse profundamente triste. Um disse: “traria conchas do mar para alegrar o seu dia”. Outro falou:”roubaria algumas estrelas para iluminar sua noite”. E um terceiro poetizou: “eu lhe daria o barulho das páginas de um livro passando quando você está lendo”. Alunos pobres de uma escola do Pelourinho, com idade entre 9 e 12 anos. Se dependerem da nossa elite, serão marginais; pelo trabalho de Mabel, já são poetas.

Mabel: é um crime desperdiçar o bem que você faz ao mundo. Obrigado por mim.

Jorge Portugal

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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