2 de julho de 2026

A esperteza ridicularizada, por Laurindo Lalo Leal Filho

Foto Estado da Arte
 
A esperteza ridicularizada
 
por Laurindo Lalo Leal Filho
 
Não se deve lutar contra um apelido por mais que ele nos desgoste. Essa lição aprendi ainda criança. Quanto mais o apelidado repudia o apelido mais a alcunha fica nele grudada. Lembro disso porque soube que o ex-juiz Moro está injuriado com a excelente denominação recebida: “Marreco de Maringá”. É mais um erro na sua já longa carreira de desacertos. Sua irritação só fez crescer o número de referências ao apelido nas redes sociais. Para quem ousa revelar o ridículo dessa figura surgida das trevas brasileiras, com voz em falsete e conteúdo insosso, é um tiro na mosca, com perdão da analogia bélica. 
 
O caso serve para colocar em pauta um tema de importante atualidade: como as pessoas bem informadas e esclarecidas, críticas daqueles que se apossaram do poder no país, devem se relacionar com os defensores do atual estado de coisas, donos de saberes rasteiros e contumazes no uso de linguagem vulgar? 

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Discutir de forma elegante, a partir de argumentos racionais e empiricamente comprovados ou partir para o bate-boca nivelando-se aos seus opositores? Há respostas afirmativas para as duas formas de lidar com os adversários mas ambas, a meu ver, inconsequentes. 
 
A primeira é praticamente ininteligível pela massa a qual se dirige. Trata-se de segmento da sociedade que não possui os instrumentos culturais necessários para interpretar ideias um pouco mais elaboradas, capazes de escapar dos limites dados pelos chavões típicos do WhatsApp. Fogem ao debate e refugiam-se nos xingamentos. Seguem, dessa forma, o ocasional líder do grupo, responsável hoje por governar o país. 
 
A segunda também não leva a nada. Na troca de insultos, acaba prevalecendo aquele que só conhece esse tipo de relação, uma vez que o outro, esgotado pela limitação repetitiva do adversário, tende a se cansar rapidamente e deixar de lado a disputa infrutífera. 
 
A meu ver existe uma saída eficaz: combinar as duas formas de relacionamento e ir à luta. Usar o conhecimento e até mesmo a erudição para, na medida do possível, embalá-las em fórmulas simples, mas irrefutáveis. 
 
O humor fino é um ingrediente importante nesse processo. Vídeos como os produzidos por Marcelo Adnet, na Globo, satirizando a prepotência do atual presidente da República, e de Gregório Duvivier, no canal Porta dos Fundos, ironizando a empáfia dos economistas neoliberais, são exemplos do momento. 
 
Não ofendem nem muito menos xingam. Com linguagem compreensível até para os menos informados, revelam o ridículo dos discursos de corruptos falando contra a corrupção, de interessados nos seus negócios privados defendendo reformas em nome do interesse público e de negociantes da fé clamando por moralidade. Se não mudam opiniões, pelo menos devem colocar interrogações nas cabeças dos que seguem esses ilusionistas. 
 
Em tempos obscuros, esse tipo de humor nos palcos e nas telas, somado à ironia – fina mas compreensível – em debates nas redes ou nas ruas, torna-se arma poderosa contra adversários medíocres. 
 
William Shakespeare (1564-1616) já provara isso em suas peças ao traduzir para platéias populares as tramas urdidas pelos poderosos em meio à censura imposta pela rainha Elizabeth I, no Reino Unido. No Brasil, Millôr Fernandes e Flávio Rangel, construíram um espetáculo teatral clássico: “Liberdade, liberdade”, desafiando com humor e inteligência os militares que assaltaram o poder em 1964. 
 
No Rio, os atores Paulo Autran, Tereza Rachel, Nara Leão e Oduvaldo Vianna Filho, eram interrompidos por aplausos e risadas do público a cada frase em que ridicularizavam aquilo que os militares chamavam de “revolução”. Em Montevidéu vi, pouco antes da implantação da ditadura uruguaia, a peça ser saudada aos gritos de “Frente Amplia”, movimento que chegaria ao poder depois da redemocratização do país. 
 
Os tempos são difíceis outra vez, mas estas experiências nos ensinam a enfrentá-los. Desnudar o poder mostrando suas entranhas de forma simples, facilmente compreensível e, se possível, bem humorada é o melhor caminho para abrir corações e mentes. 
 
A superioridade cultural de quem tem mais informações e discernimento não pode ser utilizada como imposição elitista de ideias e nem como amparo misericordioso dos menos afortunados. Deve, isso sim, servir para dar suporte para construções bem elaboradas, capazes de mostrar o ridículo daqueles que se julgam espertos.
 

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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9 Comentários
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  1. Ale Nogueira

    1 de fevereiro de 2019 10:22 am

    Esses patos! Quá, quá, quá!

    Esses patos! Quá, quá, quá!

  2. alexis

    1 de fevereiro de 2019 10:34 am

    Excelente texto

    Parabéns!

    1. Photios Andreas Assimakopoulos

      1 de fevereiro de 2019 11:37 am

      ,Muito bom…

      …Marreco de Maringá! Hohoho!

  3. Albasgodel

    1 de fevereiro de 2019 11:24 am

    Marreco de Maringá.

    “Depois que você  partir (pros  EUA ou os quintos…) ninguém ficará triste marreco de maringá”. Apelido poético.

  4. Bo Sahl

    1 de fevereiro de 2019 12:03 pm

    O volume de bobagens é avassalador para explicar tudo a cada um

    Ótimo post, que ressalta a dificuldade de termos uma discussão produtiva com os correntes anti-petistas, bozominions conservadores e quetais. Contra qualquer um que não seja alinhado (que será inevitavelmente comunista a ir pra Cuba).

    A necessidade de explicar cada conceito, cada distorção, cada farsa, multiplicada por dezenas, centenas de “vozes” xingando e agredindo com afirmações e questões toscas e diversionistas que exigem um mínimo de elaboração e um inexistente respeito pelos impacientes e indignados ouvintes, manipulados EMOCIONALMENTE com um pensamento binário ou simplista é um trabalho que, embora tremendamente necessário, é missão quase impossível, principalmente se tivermos uma consideração de valor de amizade, parentesco e coleguismo a ser perdido num clima de agressão e provável desnudamento da fragilidade argumentativa (ser burro e/ou ignorante?!) dos que não discutem fatos e idéias, apenas berram desqualificações e xingamentos.

    É a batalha entre o raciocínio, a lógica e a memória mais elaborada contra as substancias materiais produzidas no figado, intestinos e quetais. E sabemos todos que a emoção (principalmente a ruim) não é uma boa conselheira da razão.

    O problema do atual predomínio daquela sobre esta é que estamos todos no mesmo barco.

    No mesmo pobre-rico país que nunca chega a ser nação…

  5. republicanoarrependido

    1 de fevereiro de 2019 3:17 pm

    o pato , vinha cantando

    o pato , vinha cantando alegremente, cuem cuem cuem

    quando sifu no meio da lagoa…

  6. +almeida

    1 de fevereiro de 2019 8:56 pm

    Kkkkkkkkkk…

    Acho um desrespeito esse negócio de apelido.

    Onde já se viu? Marreco de Maringá.

    Marreco de Maringá?

    Kkkkkkkkkkkk…Kkkkkkkkkk…Kkkkkkkkkk…

    Marreco de Maringá! Kkkkkkkkk… Kkkkkkkkkk….

  7. Luís Henrique Donadio Baptista

    11 de fevereiro de 2019 9:14 am

    Lá vem o pato
    pata aqui pata acolá
    Lá vem o pato
    para ver o que é que há

    O pato pateta
    Pintou o caneco
    Surrou a galinha
    Bateu no marreco

    Pulou do poleiro
    No pé do cavalo
    Levou um coice
    Criou um galo

    Comeu um pedaço
    De genipapo
    Ficou engasgado
    Com dor no papo

    Caiu no poço
    Quebrou a tigela
    Tantas fez o moço
    Que foi pra panela

  8. Anônimo

    15 de fevereiro de 2019 8:27 pm

    Lá vem o marreco
    merreca aqui, merreca acolá
    Lá vem o marreco
    merreca aqui, merreca acolá

    O marreco marreta
    armou uma treta
    Surrou a justiça
    bateu no eSTaFeta

    Julgou o doleiro
    pra não julgá-lo
    não teve “choice”
    Foi um abalo

    Comeu um pedaço
    De ministério
    Foi grande mistério
    Me diga, é sério?

    Caiu no fosso
    Melou a receita
    Tantas fez o moro
    Que foi pros States

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