A Maternidade Golpeada

A Maternidade Golpeada 

Uma mulher, na periferia de uma grande cidade sai cedo e deixa seus quatro filhos sozinhos. Neste dia a babá se atrasou. Às onze horas da manhã, a mulher está no Conselho Tutelar, um vizinho a denuncia por abandono. Ela e a babá criam os filhos sozinhas. A moça que cuida de seus filhos enquanto ela sai para trabalhar também tem filhos e neste dia um deles acordou febril. Ela precisou levá-lo ao posto de saúde. Parece um ato corriqueiro, mas deflagra um tensionamento cotidiano na vida de muitas mulheres. 

No outro lado da cidade, uma outra mulher trança os cabelos de sua pequena filha, sentada no quintal de uma instituição infantil, ela aguarda a liberação da criança do abrigo que a acolheu enquanto cumpria pena por tráfico na rota Brasil-Moçambique. Nas prisões brasileiras as mulheres não podem ficar com seus filhos, somente durante os seis primeiros meses para amamentação. 

O que estas mulheres têm em comum é a maternidade vivenciada como fragilidade, um fio tênue sempre pronto a se romper porque são cobradas por um papel impossível de se atingir. Como se fosse um desenho de uma pessoa que satisfeita por ter dedicado sua vida a uma maternidade exigente e por mantê-la no lugar tradicional.  

 Estamos num momento em que deveríamos estar refletindo sobre o distanciamento necessário dos antigos modelos hegemônicos, rastrear raízes históricas, reconstruindo seus elementos ideológicos ,demonstrando as constrições que este tipo de maternidade impõe para as mulheres e quais os papéis que estas necessitam se reconhecer. Seriam então maternidades, no plural, como exercícios de afeto e escolhas ligados a parentalidades.

Há um ano, a presidenta Dilma Rousseff, que ocupava uma posição central em um espaço  tradicionalmente masculino como a política, foi afastada de seu cargo, o que viemos assistindo, desde então, é um desmonte sistemático no estado de direito. 

Justiça social parece um conceito em desuso e a mão do golpe cai com mais força sobre os mais vulneráveis. As mulheres e seus filhos parecem estar cada vez mais longe de fazerem parte de uma agenda política.  

Em 2017, o orçamento para o Atendimento às Mulheres em Situação de Violência caiu 74%. O valor passou de R$ 56, 5 milhões neste ano para R$ 14, 7 milhões. É bom lembrar que, assim que assumiu, Michel Temer extinguiu a Secretaria de Políticas para as Mulheres, que tinha status de Ministério. A verba para a Promoção, Proteção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes teve redução de 47,52% na previsão do governo golpista, passando de R$ 80 milhões para R$ 42 milhões. 

Enfatizar a subordinação das mulheres é o que este governo mais tem feito, com os desastrosos pronunciamentos e atos de Michel Temer, trata a mulher como um apêndice do homem. A única responsável pela criação e cuidado dos filhos. Coloca em pauta, um problema central,  o acesso desigual de homens e mulheres à cidadania.  Reitera a percepção do corpo feminino como território para o exercício de poderes . Ofereceu uma ponte para o futuro que poucos andam interessados em atravessar. 

Esta semana, em São Paulo, um evento foi organizado pela Fundação Global Child Forum em parceria com a Unicef e a Childhood Brasil na sede da FIESP , na prioridade dos programas brasileiros estava o “Criança Feliz, que tem como embaixadora a primeira-dama Marcela Temer, que entre tantas críticas está o retorno do primeiro-damismo na Política de Assistência Social, a falta de diálogo do Governo Federal com a sociedade civil e com os conselhos das políticas da intersetorialidade, da priorização do terceiro setor, indo na contramão da Lei Orgânica da Assistência Social  e do Sistema Único de Assistência Social, que priorizam a execução direta do Estado nos programas e projetos.  

Em Belo Horizonte, mães usuárias de drogas ou em situação de rua estão sendo afastadas compulsoriamente de seus bebês ainda na maternidade. Integrantes do movimento “De Quem É Esse Bebê” alertam que até que essas mães consigam reestruturar suas vidas, seus bebês já foram adotados.  

Mais grave é que as decisões relativas à legislação e às políticas públicas estejam assim submetidas. Vemos a arbitrariedade se alastrar, um consentimento à existência de espaços na sociedade nos quais os direitos humanos não precisam ser mais respeitados.

Maternidades como mode de expressão que mobilizam  afetos e experimentações, não como naturalização e estereotipias naturalizadas em papéis fixos, colocando as mulheres em posições de subordinação como base de suas identidades. Este destaque à opressão e assimetrias nas relações como forma de apagamento da autonomia desdobra-se em desvalorização das opções feitas pelas mulheres. 

 

 

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