5 de junho de 2026

A mentira da “preservação sexual” da ministra Damares, por Debora Diniz e Giselle Carino

Há correlação entre defesa da abstinência e o aumento da gravidez na adolescência e da maternidade precoce, apontam estudos
Foto: Agência Brasil

do El País 

A mentira da “preservação sexual” da ministra Damares

por Debora Diniz* e Giselle Carino**

A ministra das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos mente. Ministra Damares Alves mente em nome da ciência para encobrir a própria fé: confunde o rebanho do templo evangélico com o povo de uma democracia. A mais recente decisão de defender “abstinência sexual para adolescentes” como método de “preservação sexual” seria estapafúrdia, se não fosse política pública de Estado. Não existe “preservação sexual” como categoria científica – é parte da novilíngua bolsonarista, pois se inventam sentidos ou palavras para naturalizar a ordem autoritária. A cosmética linguística é fundamental para fazer crer que há algo além do fanatismo patriarcal-religioso liderado por Damares.

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Ministra Damares menciona evidências científicas para a tática moral de “preservação sexual”. No evento de lançamento da política em Brasília, cartazes alardeavam a ineficácia da camisinha para a transmissão do vírus HIV, pois haveria “poros” que permitiriam a passagem do vírus. A propriedade dos cartazes era de um padre católico que os recolheu ao final do evento – uma cortesia exibicionista sobre o encontro missionário entre evangélicos e católicos quando o assunto é sexo. Como não existe “preservação sexual” fora de táticas de tortura corporal, como cinto de castidade ou castração química, Damares está falando de “abstinência sexual” como política pública de saúde para os adolescentes.

Há evidências abundantes, conhecidas como meta-análises, que comprovam a ineficácia e o risco das políticas de saúde baseadas na hipótese da “abstinência sexual”. Os estudos são variados e confiáveis porque há tempos o imperialismo estadunidense tenta exportar ao mundo o modelo cristão de perseguição à sexualidade adolescente: a cada novo governo republicano nos Estados Unidos, novas táticas são instauradas para promover a abstinência como valor moral travestido de ciência. Em inglês, a sigla AOUM (abstinency-only-until-marriage) é nada menos que “abstinência até o casamento”. Há financiamento abundante do governo de Donald Trump para promover o modelo da abstinência sexual, um giro ao que foi o governo Barack Obama que buscava financiar as melhores práticas no campo da educação sexual.

Em 2017, já sob o governo de Trump, a Society for Adolescent Health and Medicine (Sociedade para Saúde e Medicina Adolescente) publicou um artigo de posição em que, além de revisar a literatura global, demonstrava os impactos negativos da “abstinência sexual” como política pública: há correlação positiva entre defesa da abstinência, gravidez adolescente e maternidade precoce. Em um ciclo ampliado das consequências sociais do silêncio sobre o sexo, uma série de dimensões da vida adolescente caminham juntas: maiores taxas de gravidez adolescente, maiores riscos de adoecimento por infecções sexualmente transmissíveis, maiores taxas de aborto, maior abandono escolar e aumento da pobreza. Como em qualquer modelo abstrato de correlação entre duas variáveis, os adolescentes são desigualmente expostos aos riscos: meninas e meninos pobres e negros estão entre os mais vulneráveis à política mentirosa da “preservação sexual”.

O que se preserva, então? Os estereótipos de gênero de um fanatismo religioso. Um estudo realizado no Texas mostrou que há uma “conspiração do silêncio”: se fala muito sobre abstinência sexual, ao mesmo tempo em que estereótipos de gênero são reforçados e falsidades científicas são disseminadas. O par silêncio-estigma caminha lado a lado, tal qual os “poros da camisinha” estampados pelo padre no evento da ministra Damares. Se houve ridículo no azul-rosa de Damares há um ano, agora há a implementação do binarismo de gênero pela hipocrisia do silêncio sobre o sexo. As consequências serão nefastas e antecipáveis, em particular para as adolescentes e para os adolescentes não-binários. Ministra Damares viola os direitos humanos de adolescentes, em particular o direito a um projeto de vida em que os estereótipos de gênero não sejam um destino e a sexualidade não seja um tabu.

*Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown

**Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR

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7 Comentários
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  1. valderli felix de souza

    6 de janeiro de 2020 10:11 pm

    A Dadá Goiabeira é um misto de loucura com picaretagem. E esta mistura é altamente explosiva. Né não?

  2. Carlos Elisio

    7 de janeiro de 2020 2:25 am

    Perde-se tempo e energia demais refutando idiotices daqueles que compõem a camarilha governamental. Contudo, mentes progressistas e inovadoras precisam mesmo se unir para desenvolver um conjunto de ações capaz de banir definitivamente do cenário político estes que, integrando o governo mais infame e bizarro que o Brasil já teve, tentam a todo momento impor um pensamento retrógrado e obscurantista, elaborado por seitas religiosas conduzidas por cretinos e cretinas travestidos de bispos, pastores, apóstolos etc.

  3. Andre Rs T

    7 de janeiro de 2020 2:40 am

    Falo de uma pequena cidade do interior e vai aqui meu testemunho : meu irmão que é pastor e manteve filhos e filhas sob uma redoma de vidro, de nada adiantou : a filha está com uma filha pra criar e com pai ausente, os filhos caíram na bebedeira e na droga, um desenvolveu a esquisofrenia.

    A mãe se jogou no chão quando um dos 5 filhos assumiu a homoafetividade , sendo que este, para se manter vivo espiritual, sexual e socialmente, saiu do Brasil e pediu refúgio alegando perseguição familiar.

    No final das contas, o filho homoafetivo foi o único que se preservou mentalmente saudavel e no momento vive feliz com o namorado americano, agora é chamar a Damares pra controlar mais corpos na Terra Brasid e dar um jeito nesse pecado kkkk

    Ah sim, um garanhão aqui da cidade se batiza em tudo quanto é igreja evangélica pra pegar as virgens inocentes e, diz ele, na hora da virada de olhos não há jesus que segure

    O que manda é a biologia e o conhecimento, agora tentem explicar isso para abecedarianos terraplanistas como Damares

    “Os abecedarianos foram uma seita cristã alemã do século XVI que defendia o analfabetismo. O ponto principal de sua doutrina era o fato de que todo o conhecimento humano, inclusive o alfabeto é desnecessário e supérfluo. Wikipédia

    ……..

    1. Patricia

      7 de janeiro de 2020 9:09 am

      André Pessoas normais falam sobre coisas, pessoas inteligentes falam sobre ideias e pessoas mesquinhas falam sobre pessoas.
      Esse caso que vc citou não reflete a maioria. Não há nada errado em dizer a uma menina de 13 anos para adiar sua vida sexual, essas mulheres do artigo se forem mães são hipocritas. Ninguém disse para mentir ou colocar em uma redoma, até pq hj em dia a informação está em todo lugar, mas dar uma opção Em aguardar, em privilegiar os estudos, fazer um planejamento familiar, agora chamam os evangélicos de rebanho… onde está o respeito? Não respeitam nada nem ninguém apenas a própria convicção em ser do contra, odeio o conservadorismo e ponto final, não veem q a barbarie e a miséria vem na maioria das vezes pelo abuso das liberdades. Até agora não consegui entender onde pode ser prejudicial pedir a uma pré adolescente que não faça sexo até estar pronta, só um blá-blá-blá sem nexo algum e cheio de contradições e preconceito.
      Isso eh ser democrático????

    2. AMORAIZA

      7 de janeiro de 2020 2:39 pm

      Meu irmão é bispo, a mulher dele é pastora, o filho é depressivo e vive atentando contra a própria vida, a filha iniciou sua vida sexual sem casamento na menoridade, e o outro filho é travesti de cabelo roxo, alegre e saltitante. Muitas coisas horríveis acontecem na família dele.
      Meu outro irmão, agora falecido , perdeu a filha para a droga, tendo ela falecido de aids, não sem antes deixar uma filha que ele criou e um filho que ela teve com um bandido, que meu irmão e a mulher dele abandonaram no hospital, já que a minha sobrinha, que estava vivendo na rua, não tinha condição de criar. Ele, a esposa e a família dele comemoram os 16 abortos que a minha sobrinha fez enquanto viva.
      Foram todos nascidos e criados na assembléia de deus e não havia coisa mais linda do que vê–los cantando e pregando o evangelho. Converteram muitas almas a jesus.
      Os crentes, especialmente os neopentecostais, que nos poupem, portanto, das suas hipocrisias e idiosincrasias.
      Por outro lado, minha tia, irmã da minha mãe, criou seus filhos na fé sabatista (Igreja adventista do sétimo dia). Crente moderada, não pentecostal, tem a família mais equilibrada e exemplar que se possa conceber.Todos os seus filhos e filhas têm família unida, solidária e em harmonia ao ponto de se juntarem todos os sábados para fazerem a cerimônia do por do sol, e somente os seus netos, sobremaneira poupados das vicissitudes da vida, resultaram em vigorosos coxinhas.
      A diferença talvez esteja nas congregações denominacionais que são:
      1-As congregações que receberam o pentecostes: as pentecostais, cujos fiéis recebem o “batismo no espírito santo”, falam línguas estranhas, têm o dom da profecia, oram em altos brados e se dão a grandes exibições de “cura” e fé. São os crentes escandalosos.
      2-As congregações que não receberam o pentecostes, (as não pentecostais) que são as igrejas moderadas, sem grandes exibições de fé, seguindo preceitos do evangelho segundo seu entendimento, mas com moderação e respeito aos rituais mínimos.
      De vivência com pentecostais na minha família e na dos amigos da família posso narrar mais de 70 anos de desgraça e mal viver o que me leva a desconfiar se o espírito que dizem receber nas suas igrejas seja santo mesmo.

  4. paulo Fessel

    7 de janeiro de 2020 11:39 am

    Infelizmente esse discurso faz parte do projeto de desgoverno: ao pregar a abstinência sexual, aí é que os jovens irão se sentir livres para transar!!!! Sendo assim, vai haver mais mães jovens, em idade que deveriam estudar, pesquisar, idealizar, planejar, enfim fazer projetos de futuro; havendo mais mães jovens, fomenta-se não só a miséria material como também a miséria educacional, trabalhista, moral e sexual. Os novos rebentos nesse meio também tem um sentido: maior numerário de pessoas que não terão os seus direitos, principalmente de saúde e educação; estabelece-se então esse círculo vicioso que traz vantagens somente para governos vis e antidemocráticos. No fundo esse discursinho idiota tem por traz todo o projeto de não liberação feminina, o projeto de impedir o empoderamento feminino. Sim, como pais, devemos orientar nossos filhos a seguirem o caminho dos estudos e adiar a iniciação sexual, porém quem vai decidir a hora é o próprio filho e para isso, como pais devemos prepará-los para a sua inicação sexual sadia. A situação é bizarra: de um lado prega-se a abstinência sexual como projeto governamental e de outro, a mídia televisiva mostra em todas as suas cores a natureza sexual do ser humano…. Querem enganar a quem?

  5. Elilde da Silva Souza

    7 de janeiro de 2020 4:44 pm

    concordo com vc! Esse jornal e esquerdopata.Trabalha contra o governo.Nao são a favor da familia.Dao exemplos aqui de exceções e nao leva em consideração a maioria.É uma vergonha certos comentarios!

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