4 de junho de 2026

A teratologia escancarada

Um juiz de férias coordena a desobediência de um delegado da Polícia Federal a um desembargador. Enquanto isso, membros do tribunal atravessam prerrogativas para anular uma decisão legítima do plantonista. O objetivo: impedir um habeas corpus concedido ao favorito nas pesquisas presidenciais. Não aconteceu numa ditadura bolivariana ou islâmica. Aconteceu no país da normalidade democrática, onde só militares aplicam golpes.

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Tudo previsível, lamentavelmente. A avalanche de inconstitucionalidades vem desabando há meses, anunciando futuros sombrios, enquanto o garrote se normaliza a cada arbítrio da Lava Jato. Aconteceu de novo e de novo passará incólume.

O que de fato sobressai no episódio é o desnudamento irreversível do caráter político da prisão de Lula. As autoridades vociferando ordens de seus retiros dominicais e turísticos. A mobilização desesperada e quase clandestina, o enfrentamento indisciplinado, o atropelo de ritos. A afoiteza das maiores instâncias da Justiça, lutando contra o tempo como se estivessem metidas numa invasão de alienígenas famintos.

Fizeram parte da tragicomédia os circunspectos especialistas midiáticos, inventando bobagens sobre “juízo natural” e “competências”, vociferando jargões vazios, distorcendo normas e conceitos num estranho surto de ignorância jurídica. Então descobrimos que os textos legais são demasiado ambíguos para as combativas “agências de checagem”.

A selvageria ideológica da Cruzada Anticorrupção foi instrumentalizada pelo coronelismo eleitoral. Uma espécie de loucura sem loucos que protege as decisões judiciais e entorpece os debates públicos sobre elas, obstruindo a percepção e a denúncia dos absurdos cometidos contra Lula. O delírio ultrapunitivista se confunde com o ódio ao ex-presidente, servindo de pretexto inclusive para criminalizar tentativas de preservação de seus direitos constitucionais.

Não havendo esperança de vitória nesse deserto de regras, o combate possível é romper a ilusão do jogo ritualístico, derrubar o manto doutrinário que esconde a ditadura togada. Triunfos técnicos da defesa de Lula, como no blefe dos recibos, apenas forçam mudanças de estratégia condenatória. Já o imbróglio simbólico do habeas corpus arrancou os guardiões da Lava Jato da pantomima do rigor processual. Despiu-os de seus personagens republicanos.

Decerto virá resposta à altura da infame provocação petista. Afinal, garantindo sua própria impunidade e legitimando a si mesmo, o Regime Judicial de Exceção tem poderes ilimitados. Nisso, contudo, ele se torna vulnerável. Quanto maiores os esforços empenhados para destruir a influência de Lula, maior a derrota da obsessão imperial dos tribunos e mais óbvia a disparidade entre o indivíduo e as corporações que o martirizam.

O cunho eleitoral da investida também prejudica seus protagonistas. Alimentada pela ameaça do lulismo, a radicalização fanática aproxima os déspotas da Lava Jato do polo reacionário da disputa presidencial. A julgar pelas pesquisas, a certa altura os monstros se unirão em torno da causa comum. Então, alinhados ao atraso, rejeitados por todas as correntes partidárias, receberão do país aquilo que tentam outorgar a Lula. Tarda mas não falha.

 

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/2018/07/a-teratologia-escancarada.html

Redação

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