4 de junho de 2026

A TRAGÉDIA DE SANTA MARIA: A DOR E O SHOW TELEVISIVO.

PARA OS CONHECIDOS E FAMILIARES
A sua dor é toda sua, por isso a sinta e se precisar compartilhe comigo. Receba o meu afago, o meu braço amigo, o meu carinho. Estou aqui ao seu lado. Sua dor me atinge e sensibiliza os meus sentidos. Gosto de você, de todos os seres humanos. Só não gosto dos que fogem de si mesmos. Se for grande demais, venha a mim, deixe ser um pouco meu esse corte que faz tudo parecer dor. Sinta toda a dor e saiba que estou aqui, ao seu lado, posso não chorar, mas tudo em mim, tem um pouco da dor, que é só sua.

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TEXTO

Melodia de guitarra canta em meus ouvidos, enquanto em uma boate, jovens inalam fumaça e morrem aos montes. Tristeza é pouco a palavra certa é revolta. Vou deixar as lágrimas para os parentes, amigos e conhecidos. De minha parte não existe espaço para choro. O que aconteceu não é culpa de quem causou o incêndio. A culpa não é de qualquer pessoa em particular, diga  a imprensa o que disser. A culpa é da forma de entretenimento, que os jovens são submetidos, a culpa é da sede de lucro que fecha as portas para os verdadeiros interesses dos jovens e os trancam entre quatro paredes, ao som bizarro de engrenagens que produzem ruídos estrondosos, amplificados em superdoses de álcool.

O que acontece quando você pega um monte de animais, dá veneno, fecha eles num depósito e toca fogo? Com certeza algo parecido com o que aconteceu na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Eles vão morrer, queimados, matando uns aos outros, lascando a cabeça na parede e fazendo de tudo para poderem escapar. Com o ser humano não é muito diferente.

Todo mundo sabe que, na sociedade em que vivemos os animais se tornaram mercadorias, infelizmente o ser humano se tornou mais uma dessas mercadorias. Se você quer ganhar dinheiro; é só colocar pessoas em grande quantidade, dentro de uma sala, e vender; bebidas, música de péssima qualidade, sexo fácil e tudo mais que eles puderem comprar. E se eles não pagarem? Toca fogo neles, mete o cassete neles. E se sobreviverem? Chama a polícia e coloca todos na cadeia por não pagarem a conta.

Os jovens são tratados como bichos de terceira ordem, bichos com traços de coisas descartáveis, que podem ser aglomerados, estimulados a pularem e obedecerem as pancadas,e que essencialmente pagam para apanharem e ficarem mais presos ainda, enquanto tem a ilusão de estarem comprando uma entrada para o show da liberdade sem medida,não sabendo que a qualquer momento, as portas podem ser fechadas,com eles lá dentro, inalando a fumaça dos seus próprios corpos em combustão.

E o que a imprensa tem a dizer sobre tudo isso? Nada. A imprensa só manipula as informações, para que as doses de dor e angústia possam gerar o máximo de audiência, por um espaço de tempo mais prolongado. Onde a lógica é; a quantidade de mortos é proporcional ao tamanho da repercussão. Assim, cria-se um ranking das tragédias, e busca-se os sobreviventes para relatarem as suas experiências de escapadas do “fogo do inferno.”Coisa de esporte sado masoquista.

Mas o número de mortos nunca é suficiente, para a imprensa, outros corpos tem de ser encontrados, nos banheiros, nos corredores e seja lá onde for. Mais mortos é mais gente de frente a televisão. A hecatombe sempre está à espera de novos números, que venham agregar valor ao acontecimento, que a princípio só se trata de sofrimento e angustia, mas que ganha ares cinematográficos, no jardim dos animais televisivos.

O sofrimento que dilacera o espírito daqueles que eram próximos às vítimas é qualquer coisa de atrativo e insignificante. E uma solidariedade hipócrita e calculista toma conta de todos. Vende-se produtos em nome da alma dos mortos, propõem-se mudanças nos cuidados com a segurança. Agradece-se a Deus, pois o jovem que tinha sido convidado a ir a festa não foi, e agora pode relatar a sua experiência, de não ter ido à festa.

A reflexão sobre os significados da vida, da dor, do sofrimento e da angústia, são reduzidos a questões de uma religiosidade pobre. A dor é a fonte do espetáculo e ao mesmo tempo jamais é apresentada. Em um dualismo de fascínio de repulsa, pelas suas consequências em interioridades que parecem vazias, apesar do pranto.

O sofrimento apresentado nos programas é sem substância, para que os telespectadores se sintam convidados a continuarem assistindo, sem perder o apetite para devorar um delicioso frango descongelada, que provavelmente já foi anunciado no mesmo canal, que agora uma angústia vazia e estimulante aos índices de audiência, faz de todos, passivos telespectadores da trama passada e mastigada incessantemente até o último osso ser despedaçado, por nossos apetites vorazes e enfadonhos.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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