Poucas coisas ilustram tão bem a mentalidade coxinha quanto esse clipe lamentável, uma mensagem petulante e sarcástica construída em torno de uma bela canção.
Era 2001, alvorecer do novo milênio, e a esperança no anúncio de uma nova era ganhava o reforço de nova música alegre e vibrante, verdadeiro hino à inclusão, a saudar os novos tempos:
Festa no Gueto
Pode vir, pode chegar
Misturando o mundo inteiro
Vamos ver no que é que dá
Pode vir pode chegar, a festa é para todos, cantava Ivete arrebatadora alardeando a apologia da inclusão, bandeira de esperança para o novo milênio!
Hoje tem Festa no Gueto
Pode vir, pode chegar
Misturando o mundo inteiro
Vamos ver no que é que dá
Repetia e enfatizava a cantora para continuar esfuziante:
Tem gente de toda cor
Tem raça de toda fé
Guitarras de Rock ‘n Roll
Batuque de Candomblé
– Basta!, impuseram os coxinhas; insuportável a seus olhos a louvação do encontro da gente de toda cor, raça, e batuque… …um acinte. Mas a música era bela e arrebatadora, clamando por providência que recolocasse as coisas em seus devidos lugares aos olhos das criaturas antiquadas, arraigadas firme e cegamente a uma mentalidade oriunda de séculos anteriores.
A poeira das implosões de 11 de setembro mal havia baixado, quando o belo hino à inclusão veio à luz, revestido pelo vídeo sarcástico e hipócrita confeccionado para botar os pingos nos is, conforme a lamentável mentalidade coxinha, numa retaliação à ousadia proclamada na música.
O vídeo começa com a imagem enigmática de um escaravelho – popularmente um “rola-bosta”, devido a seu hábito de rolar bolas de excremento até suas tocas.
Disparatada, deslocada, a estranha imagem é substituída pela da cantora que irrompe bela e vibrante a apregoar seu hino, embora a “gente de toda cor”, exaltada na canção não apareça nas imagens que contrastam vivamente com a pregação sonora, mostrando apenas jovens abastados, alourados, bem vestidos, e bem cuidados.
A animação geral mostrada no vídeo é simulada mais pela movimentação da câmera que pela dança apática de uma galera bonita mas incapaz de libertar o corpo e se deixar levar pela vibração da música.
Vai lá pra ver a tribo se balançar
O chão da terra tremer
Mãe preta de lá mandou chamar
Avisou, avisou, avisou, avisou
Que vai rolar a Festa, vai rolar
O povo do Gueto mandou avisar
Que vai rolar a Festa, vai rolar
O povo do Gueto mandou avisar
Canta a bela a exaltar entusiasticamente a inclusão de todos, enquanto os circunstantes, a bem-nascida galera ao seu redor, talvez precisassem mesmo ir ao gueto para ver o chão da terra tremer sob os pés de um povo embalado pelas paixões, pela alegria, pela vida.
Mas a música conclama insistente e alegremente, a todos, para a festa; foi mãe preta de lá que mandou chamar:
– Vai rolar a festa, vai rolar!
Apesar da celebração da diversidade exaltada na canção, as imagens deixam claro que a festa não é para qualquer um, e que apenas a pessoas de um certo grupo é permitido participar.
A música precisa se repetir para que surja a imagem de um negão – em alusão ao batuque de candomblé. Seguem-se a este, 2 ou 3 outros negros incrustados, eventualmente, como papagaios de pirata nos ombros de Ivete. Não – revelam as imagens, em contraste com a mensagem explícita na música –, a festa não rolará para todos.
Visões do enigmático inseto se sucedem durante todo o clipe, inseridas no meio da festa de maneira aparentemente despropositada, quebrando certo encanto ao romper o lustro impecável do divertimento da galera abastada, com sua imagem repulsiva.
As pessoas continuam a movimentar seus braços ao ritmo da câmera e da música, simulando umas dancinhas com o máximo de animação conseguido pelos diretores da cena, apesar do esforço inútil de Ivete na tentativa de contagiar a galera com a conclamação do gueto; intento vão direcionado a um povo impedido de mergulhar de corpo e alma em alegrias mundanas.
E eis queque a música chega ao final, quando o besouro ressurge para pousar na lapela de um negão sisudo, de óculos escuros e terno escuro, trajado para revelar a elegância de seus patrões, denunciar sua condição de “segurança da festa” e mantê-lo excluído da diversão. Má escolha a do bicho; fleumático, o negão destaca de seu traje a repulsiva criatura e a atira fora, defenestrando-a. Desvela-se o enigma.
Fim da música e da festa; Ivete se despede dos convidados, enquanto ainda se ouve, ao fundo, o coro, talvez do gueto, a repetir ao longe, o hino da inclusão. E eis que o rola-bosta retorna, agora diretamente para a cantora que, irada, golpeio impiedosamente o impertinente, jogando-o ao chão. Não, aquele mundo não é para o bico de um rola-bosta; que fique bem claro!
O clipe de 2001 – verdadeira afirmação do mundo coxinha –, explicita a negação descarada das mensagens de inclusão reinantes no planeta há mais de um século que iriam iluminar o país durante anos, até receber duro golpe. Belas imagens para casca vazia; ilusões envoltas em promessas vãs, ao mesmo tempo tolas e cruéis cuja intenção era apenas acabar com a festa.
Mas, tornemos ao século XXI e mandemos avisar que vai rolar a festa!
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