Recomendo o belo post de sexta do Fernando Reinach (Estadão) a respeito da mudança dos números referentes à capacidade do Sistema Cantareira após o início do bombeamento do volume morto da represa Jaguari.
Vale dizer que ontem a elevação do nível do reservatório de 8% para 26,7% foi noticiada com entusiasmo pela mídia, ficando como manchete principal em vários portais. Hoje, no entanto, a Grupo Técnico de acompanhamento do Sistema Cantareira atualizou o relatório que é apresentado na Sala de Situação dessa agência reguladora, e os números são outros (http://arquivos.ana.gov.br/saladesituacao/BoletinsDiarios/DivulgacaoSite…). Diferentemente do anunciado em tantas ocasiões, a inclusão do volume morto repercutiu na elevação de cerca de 14 pontos percentuais, e não de 18,5, de forma que agora o Sistema Cantareira estava, ontem, com 22,3%. A questão é de matemática simples: a utilização de parte do volume morto, por suposto, também implica o aumento do denominador, isto é, da quantidade total de água, em tese, que pode ser retirada (passou de 973,94 metros cúbicos para 1156,41 metros cúbicos). Claro, a quantidade de água anunciada a mais é a mesma, mas o erro aritmético é crasso e dá uma falsa ilusão de que a condição é um pouco menos pior do que já é a partir da contabilidade criativa. Não é à toa que já há dois dias não é possível acessar os sítios da SABESP que permitem o acompanhamento dos níveis dos mananciais, o que constitui uma lacuna de transparência básica inescusável. É preciso colocar, enfim, o absurdo em si dessa mudança súbita de apresentação dos dados, que apresentam uma condição que não é a real, constante dos termos da outorga realizada em 2004. Trata-se de uma condição absolutamente excepcional que, inserida por meio dessa criativa estratégia que transforma volume morto em volume útil, banaliza a emergência e torna um cenário pré-trágico coisa trivial. Não é preciosismo colocar que mais adequado seria apresentar as informações sem a admissão a priori desse estoque morto como parte já integrada da operação do sistema (inclusive com relação ao Atibainha, que já aparece com a capacidade de uso estimada de seu volume abaixo do nível das comportas mesmo sem a instalação das bombas).
O total de água disponível é de cerca de 250 metros cúbicos. Como estamos perdendo cerca de 60 metros cúbicos ao mês, a água dura até Setembro (isso sem sabermos se todas as bombas serão instaladas a tempo, conforme notícia de ontem do Jornal GGN).
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,agua-diminui-represa-sobe,11676…
Água diminui, represa sobe
Para não ficar cantando durante o banho, verifico antes como anda o Cantareira. Na quinta-feira, 15, restavam 8,2% do volume útil. Suspiro e banho rápido.
Nesta sexta-feira, 16, repeti minha rotina. Levei um susto. O Sistema Cantareira estava com 26,7%. Como o volume de água no reservatório poderia ter aumentado 18% em uma noite? Curioso, entrei no Diário do Sistema Cantareira, no site da Sabesp. Informava que havia começado o bombeamento do “volume morto” (quantidade de água que fica no fundo da represa) do Sistema Cantareira. O texto dizia: “Com isso, o nível do Sistema Cantareira será acrescido de 182,5 bilhões de litros de água, o que fará com que o nível suba 18,5% a partir desta sexta-feira”.
Se não estivesse acompanhado essa enorme crise ambiental que assola São Paulo, teria tomado um banho longo e despreocupado, afinal o Cantareira estava salvo! Mas não se engane: os 26,7% são uma ilusão retórica.
O que aconteceu foi que, com o começo do funcionamento das bombas, a quantidade de água disponível para ser vendida em São Paulo realmente aumentou. Estamos sugando o fundo da represa, o chamado “volume morto” ou, como prefere a Sabesp, a “reserva técnica”. Na lógica do marketing, se esse volume passou a ficar disponível, porque não somá-lo ao nível da represa? Parece simples. Talvez seja purismo, mas, na minha opinião, essa soma é uma forma de desonestidade intelectual que prejudica a compreensão da crise que estamos vivendo.
O discurso honesto seria dizer que o Sistema Cantareira está no limite de sua capacidade e que sua maior represa, responsável por 83% do volume, está com somente 1,7% de sua capacidade útil. Quando a capacidade útil chega a zero, o sistema deixa de ser capaz de fornecer água para São Paulo.
O Sistema Cantareira abastece de água quase 9 milhões de pessoas. Se ele deixar de levar água para São Paulo, boa parte dessas pessoas não terá água em suas casas. Felizmente, parte dessas residências pode ser abastecida por outras represas, mas metade delas não pode ser abastecida de outra maneira e teria de receber água de caminhão-pipa ou ser desocupada.
Dada a seriedade do problema foi decidido instalar uma série de bombas capazes de coletar parte do “volume morto”. Esse é o volume de água que garante a recuperação da represa e sua sobrevivência no longo prazo. Essa decisão foi inevitável e vai garantir o abastecimento por alguns meses, talvez até o inicio do próximo período de chuva. Mas é importante dizer que essa decisão envolve riscos. Se gastarmos a maior parte do “volume morto” durante este ano e não chover no final do ano, talvez não exista sequer água para organizar um racionamento em 2015. Além disso, a retirada dessa água vai dificultar, atrasar ou mesmo impedir a recuperação do Sistema Cantareira.
Mas discurso honesto é difícil.
Para entender o problema, é preciso saber que quando uma represa é projetada, é praxe não colocar o túnel que capta a água no ponto mais profundo da represa. Isso garante a existência de um volume que nunca é retirado, o que permite a recuperação do reservatório. É o “volume morto”. Além disso, os engenheiros definem um mínimo operacional, abaixo do qual é recomendável reduzir drasticamente a retirada de água de modo que o reservatório possa cumprir sua função por mais tempo. Quando o Sistema Cantareira foi construído, o nível mínimo operacional foi definido em 829 metros (é o número de metros acima do nível do mar em que se encontra a superfície da água) e o “volume morto” começava aos 820,8 metros.
Como eu descrevi no artigo da semana passada, durante a seca de 2004, o reservatório ficou abaixo de 829 metros, e os governos estadual e federal decidiram redefinir o nível do volume mínimo, que passou a ser igual ao início do volume morto (820,8 metros). Naquela época foi usado o mesmo truque retórico. Da noite para o dia, o volume do Sistema Cantareira “cresceu” quase 20%. O equivalente aos 8 metros entre 829 e 820,8. Foi a primeira vez que o Cantareira “subiu” de nível sem que entrasse uma gota de água. Agora chegamos nos 820 metros, e foi necessário instalar as bombas. E, com elas, o “nível” cresceu novamente. A água diminui, mas a represa sobe.
Como disse Ésquilo: “A primeira vítima de uma guerra é a verdade”.
Mais informações: Ressuscitando Morto com Caneta, publicado no ‘Estado’ em 9 de maio de 2014. Clique aqui para ler.
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