Aonde vão os Estados Unidos?
R.Moraes
O sistema de educação superior norte-americano – e, em especial, suas universidades de pesquisa – já haviam adquirido porte em 1930. Já eram suficientemente fortes para atrair cientistas europeus, inquietos com as turbulências e incertezas políticas de seus países.
Mas foi depois da II Guerra que esse sistema se transformou em uma tremenda máquina de pesquisa e inovação, inovação fortemente impulsionada pelo gasto militar – pesquisa encomendada de grande porte e praticamente a fundo perdido. Essa máquinas – o complexo industrial-militar-acadêmico – gerou tecnologias de aplicação genérica e transbordou para aplicações civis que deram ao mundo produtivo americano uma vantagem suplementar no cenário do pós-guerra. Foi assim, por exemplo, que a pesquisa para o desenvolvimento do B-52 desdobrou-se no Boeing. Ou que o projeto Tiger desdobrou-se no Federal Express. Há centenas, milhares de exemplos. Dizemos vantagem suplementar porque já havia uma vantagem derivada do próprio conflito bélico – as economias europeias e asiáticas (Japão, especificamente) saiam desse cenário destruídas, enquanto a indústria americana e seu setor público, pelo contrário, haviam se construído através da guerra.
Esse cenário foi decisivo enquanto durou – até o final dos anos 1960, mais ou menos. A partir daí, a reconstrução dos aliados começava a gerar competidores. Em algumas áreas, as indústrias européias e nipônicas estavam mesmo à frente dos americanos, beneficiadas por algo que se costuma chamar de vantagem dos tardios – podiam adotar a última palavra nos equipamentos, processos, desenhos produtivos, enquanto os americanos tinham um lastro de instalações e linhas de produção mais antigas, em processo de amortização.
O certo é que, passados os “vinte e cinco gloriosos” do pós-guerra, as empresas norte-americanas teriam que tratar com esse novo quadro adverso – e ajustar-se a ele. Talvez tenha sido Robert Reich o primeiro a difundir a tese de que esse ajuste, ao invés de caminhar pelo antigo processo de inovar tecnologicamente (na produção), optou por um caminho menos virtuoso, até mesmo perverso, através de inovações especulativas e contábeis, o “capitalismo de papel”. As empresas passaram a disputar nacos dos fundos públicos, explorando brechas da legislação para pagar menos impostos, furar regulações, especular com produtos financeiros, etc. Uma variante dessas táticas é a enorme renúncia à nacionalidade americana – centenas de empresas agora se declaram cidadãos das Bahamas, Bermudas e outros paraísos fiscais. Um subproduto desse novo ‘mood’ teria sido, por exemplo, o redesenho do perfil dos managers – não sairiam mais do setor de vendas e engenharia, sairiam da finança; não eram mais ‘organizational men’, que subiam na empresa depois de anos e anos dentro da firma, eram experts financeiros contratados, que por vezes sequer sabiam o que a empresa produzia. Daí para a especulação com papéis e ‘contabilidade criativa’, há apenas um passo. Para a instalação de ‘sedes’ em paraísos fiscais… quem sabe um passo e meio. Vários estudos foram feitos mostrando tal mudança. E outro subproduto, aparentemente, foi a inclinação maior dos estudantes para campos outros que não a engenharia e as ciências, mas para as escolas de direito e administração. Um outro subproduto parece ter sido a mudança das atividades de ‘consultoria’. As empresas desse tipo deixaram de trabalhar sobre produtos e processos, manufatura, etc. Desenvolveu-se tremendamente um outro tipo de consultoria: contabilidade criativa, orientação tributária, estudos sobre modos de contornar regulações legais, etc.
Quando olhamos o quadro dos prêmios Nobel, elaborado por estudiosos especializados, temos esta revelação:

O que Nelson e Wrigth procuram mostrar, nesse ensaio, é um traço claro da liderança econômica e tecnológica americana na segunda metade do século XX. Enquanto a “ciência dura” dos europeus estagna ou reduz sua velocidade, os americanos decolam, inclusive pela incorporação de cientistas daqueles países, um outro saldo da guerra.
O quadro é curioso quando o confrontamos com esse outro, elaborado por Emanuel Todd (1999, p. 59).

Intrigado com esse contraste, passei a prestar atenção a tal aspecto especifico, nos estudos sobre a sociedade americana. Um desses estudos, de William Lazonick, aponta um quadro ainda mais estranho do que o de Todd. Lazonick registra que no ano letivo 2003-2004 as universidades americanas haviam gerado uns 137 mil bacharelados nas áreas de engenharia, ciências da computação e tecnologia da informação. No mesmo período, a Índia havia diplomado 139 mil – e China, nada menos do que 361 mil. Lazonick comenta que um grande número desses graduados indianos e chineses ia em seguida para os Estados Unidos para fazer pós-graduação.
Lazonick discute esse quadro dentro de uma tradicional polêmica americana – quase uma obsessão – com os flagrantes declínios do desempenho de estudantes de nível médio, em especial quando medidos em exames padronizados internacionais, nos quais ficavam atrás de países bem menos aquinhoados. Não é esse viés que vou explorar. Lazonick aponta outro, talvez mais intrigante – o desempenho particularmente fraco dos estudantes de ‘minorias’, como os latinos e negros. E a participação declinante (para os negros) ou estagnante (latinos) destas minorias no emprego em grandes corporações – e em especial nesses empregos STEM (Science, Technology, Engineering, Mathematics). E o emprego crescente de asiáticos. Mais revelador ainda é outro indicador que tem sido apontado por diversos estudos: a exportação de empregos de nível superior para as filiais de empresas americanas na Ásia (Índia, China, etc) ou para empresas asiáticas fornecedoras de serviços para as americanas (outsourcing).
Anotei então outros dados de um estudo sobre o ensino superior (especialmente de pós-graduação) norte americano recente: Wendler, C., Bridgeman, B., Cline, F., Millett, C., Rock, J., Bell, N., and McAllister, P. (2010). The Path Forward: The Future of Graduate Education in the United States. Princeton, NJ: Educational Testing Service.
Nesse estudo, ficamos sabendo que o percentual de evasão nos cursos de pós-graduação é próximo de 50% (p. 27). Alto, mas não é apenas isso que intriga. São dados como estes:
“Em 1977, 82% dos doutorados obtidos nos Estados Unidos foram concedidos aos cidadãos dos EUA, mas em 2007 esse número havia caído para 57%. Na área de engenharia, apenas 29% dos graus de doutoramento foi para os nativos (abaixo de 56% em 1977), e a porcentagem hoje nas ciências físicas é de 43% (abaixo dos 76% de 1977). Mesmo no campo da educação, a porcentagem de doutoramentos para cidadãos dos EUA diminuíu, de 91% em 1977 para 81% em 2007. (p. 21)”
Um número crescente desses estrangeiros fica nos EUA. Uma outra parte volta para os seus países. Ali, se empregam em filiais americanas ou empresas locais fornecedoras destas – a preços bem menores do que se estivessem vendendo sua força de trabalho nos EUA. E assim se redesenha a distribuição da força de trabalho de nível superior no mundo, um fenômeno que alguns estudos já estão apontando.
Resta saber qual o impacto acumulado dessa tendência dentro dos Estados Unidos. A renda e sua distribuição, por exemplo. Quando juntamos essa ‘exportação’ de empregos com a transferência de sedes de empresas para paraísos fiscais – um esporte florescente nos Estados Unidos – temos um quadro do quanto pode ser predatória a atividade das grandes corporações americanas. Elas ganham, reduzem compromissos com o fisco. Eventualmente, também alguns empregados qualificados no terceiro mundo ganham com isso – e o fisco americano perde capacidade de investir na infra-estrutura, nas políticas sociais, na educação.. Será que os Estados Unidos estão mesmo se tornando um país do terceiro mundo?
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