4 de junho de 2026

As Três Versões de Judas

 

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Uma campanha liderada pelo Monsenhor Walter Brandmuller, líder do Comitê do Pontífice para Ciência Histórica (Cúria Romana), pretende convencer seguidores a enxergarem com mais compaixão e respeito a um homem que vem sendo vilipendiado há 2.000 anos.

Monsenhor  Brandmuller disse aos colegas que é hora de refazer a leitura da história de Judas, recebendo o apoio do proeminente escritor católico, Vittorio Messori que manteve estreitos relacionamentos com os papas João Paulo II e Bento XVI.

Esse fato me fez lembrar das versões de Judas por Borges, escritas alguns anos antes da descoberta do Evangelho de Judas, manuscrito redigido em língua copta, datado do século IV, e que tinha permanecido escondido numa caixa dentro da caverna El Minya no deserto do Egito. Da autoria anônima de cristãos gnósticos, o documento foi escrito originalmente em grego por volta do ano 180 e traduzido para o copta entre 220 e 340. A tradução para o inglês foi supervisionada por Marvin Meyer, professor de Estudos Bíblicos e Cristãos na Chapman University, da Califórnia. Aliás, a própria descoberta do manuscrito é uma estória rocambolesca, foram 28 anos de peregrinação entre a descoberta do texto e a publicação oficial. O chamado Evangelho de Judas possui treze folhas e foram necessários cinco anos para o trabalho de tradução, autenticação e restauração que se transformaram em vinte e seis páginas. Este texto vem juntar-se aos Pergaminhos do Mar Morto descoberto em 1947, que nos trouxeram textos antigos do Velho Testamento e aos Manuscritos do Nag Hammadi, descoberto em 1948 e que revelaram a existência dos Evangelhos Apócrifos, textos estes que mostram a existência de diversas versões, contradições e correntes diferentes dentro do cristianismo primitivo. Ou seja, muita coisa foi escrita nos primeiros séculos do cristianismo além dos Evangelhos Canônicos.

O bispo de Lyon, santo Irineu, justamente o bispo que teve atuação decisiva para que apenas os quatro Evangelhos entrassem na Bíblia, havia escrito um livro (5 volumes) em 180 d.C. denominado Contra os Hereges na qual citava nominalmente O Evangelho de Judas e o classifica de herético. Cumpre esclarecer que o livro de Santo Irineu já está publicado em português, em sua segunda edição pela editora Paulus, com o título Contra as Heresias.

Irineu faleceu em 202, mas em 367, um fervoroso seguidor dele – bispo Atanásio de Alexandria – elaborou uma lista dos textos aceitáveis (quase todo o Novo Testamento conhecido) e exigiu que os monges do todo o Egito destruíssem as obras não incluídas ali. A sorte é que nem todos os monges foram obedientes a sua ordem e é por isto que O Evangelho de Judas chegou até nós. Aqui uma hipótese torna-se quase certeza: Judas teve seguidores e algum destes seguidores provavelmente de alguma comunidade gnóstica, que acreditavam que a salvação vinha pelo autoconhecimento – escreveu O Evangelho de Judas. Relatamos aqui duas constatações levantadas por Stephen Emmel, especialista em copta: “[…] ou Judas teve tempo de contar suas conversas com Cristo antes de se matar; ou não morreu tão cedo.”  Mistérios…

Outra questão importante a ser levantada: o que teria acontecido se os textos gnósticos tivessem predominado sobre as demais correntes do cristianismo? Emmel, especulativamente, responde: “Nesse caso, talvez, Judas viesse a ser conhecido como o discípulo mais importante de Jesus… mas não foi isso que aconteceu.”

E o que afinal traz de novo O Evangelho de Judas? Ele afirma que: 1) Judas foi o Apóstolo preferido de Jesus; 2) não houve traição, uma vez que ele atendeu a um pedido de Jesus e o entregou aos soldados romanos; 3) era um homem leal já que obedeceu a Jesus, mesmo sabendo que seu nome seria eternamente amaldiçoado; 4) ele foi o único Apóstolo a entender o significado dos ensinamentos de Jesus; 5) foi o responsável pela libertação do espírito de Jesus, ao permitir que, pela morte do corpo, o espírito de Jesus se libertasse; 6) não há relato de suicídio, nem de enforcamento, mas há a sugestão de que ele foi aceito nos reino dos céus por ter sido usado como instrumento para realizar os desígnios de Deus.

Citamos aqui a passagem do Evangelho de Judas na qual Jesus diz a Judas: “Se afaste dos outros e eu lhe concederei os mistérios do Reino. Você pode entendê-los, mas vai sofrer por isso.” Portanto, este gnóstico revela que Judas era um iniciado e só ele tinha acesso aos mistérios do reino de Deus – gnosis. Mais adiante Jesus fala que Judas “sacrificará o homem que me veste” e revela a missão principal de Judas: matar a parte física para livrar seu espírito daquele corpo. Judas, leal, cumpre tudo como fora ordenado. Desta forma, neste Evangelho, ele é o melhor amigo de Jesus e cúmplice perfeito para execução de seus planos, transformando-se de vilão em herói, modelo de obediência e amor. A Igreja, como sempre, negou sua aprovação ao texto e taxou o mesmo de produto de fantasia religiosa. A posição da Igreja é clara: quem trai é um Judas e ponto final.

Fonte: Salma Ferraz

As Três Versões de Judas de Jorge Luis Borges

Na Ásia Menor ou em Alexandria, no segundo século de nossa fé, quando Basílides publicava que o cosmos era uma temerária ou perversa improvisação de anjos deficientes, Niels Runeberg teria dirigido, com singular paixão intelectual, um dos conventículos gnósticos. Dante lhe teria destinado, talvez, um sepulcro de fogo; seu nome aumentaria os catálogos dos heresiarcas menores, entre Saturnilo e Carpócrates; algum fragmento de suas prédicas, exonerado de injúrias, perduraria no apócrifo Liber adversus omnes haereses ou teria perecido quando o incêndio de uma biblioteca monástica devorou o último exemplar do Syntagma. Em troca, Deus lhe concedeu o século vinte e a cidade universitária de Lund. Aí, em 1904, publicou a primeira edição de Kristus och Judas; aí, em 1909, seu livro capital Den hemlige Frälsaren. (Deste último tenho a tradução alemã, executada em 1912 por Emili Schering; chama-se Der heimliche Heiland.)

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Antes de ensaiar um exame dos mencionados trabalhos cabe repetir que Nils Runeberg, membro da União Evangélica Nacional, era profundamente religioso. Num grêmio de Paris ou de Buenos Aires um literato poderia muito bem redescobrir as teses de Runeberg; essas teses, propostas num grêmio, seriam exercícios ligeiros de negligência ou de blasfêmia. Para Runeberg, foram a chave que decifra um mistério central da teologia; foram matéria de meditação e análise, de controvérsia histórica e filológica, de soberba, de júbilo e terror. Justificaram e arruinaram sua vida. Quem recorrer a este artigo deve também considerar que ele registra tão-somente as conclusões de Runeberg, não sua dialética e suas provas. Alguém possivelmente observará que a conclusão precedeu sem dúvida as “provas”. Quem se resigna a buscar provas de algo em que não crê ou cuja prédica não lhe importa?

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Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas.

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A primeira edição de Kristus och Judas leva esta catégorica epígrafe, cujo sentido, anos depois, dilataria monstruosamente o próprio Nils Runeberg: Não uma coisa, todas as coisas que a tradição atribui a Judas Iscariotes são falsas (De Quincey, 1857). Precedido por algum alemão, De Quincey especulou que Judas entregou a Jesus Cristo a fim de forçá-lo a declarar a sua divindade e acender uma vasta rebelião contra o jugo de Roma; Runeberg sugere uma justificação de índole metafísica. Habilmente, começa por destacar a superfluidade do ato de Judas. Observa (como Robertson) que para identificar um professor que pregava diariamente na sinagoga e que operava milagres diante de concursos de milhares de homens não se requer a traição de um apóstolo. Isso, no entanto, ocorreu. Supor um erro na Escritura é intolerável; não menos intolerável é admitir um acontecimento casual no mais precioso acontecimento da história do mundo. Portanto a traição de Judas não foi casual: foi um ato prefixado que tem seu lugar misterioso na economia da redenção. Prossegue Runeberg: o Verbo, quando foi feito carne, passou da ubiqüidade ao espaço, da eternidade à história, da bem-aventurança sem limites à mutação e à carne; para corresponder a tal sacrifício era necessário que um homem, representando todos os homens, fizesse um sacrifício condigno. Judas Iscariotes foi esse homem. Judas, único entre os apóstolos, intuiu a secreta divindade e o terrível propósito de Jesus. O verbo havia se rebaixado a mortal; Judas, discípulo do Verbo, podia rebaixar-se a delator (o pior delito que a infâmia suporta) e ser hóspede do fogo que não se apaga. A ordem inferior é um espelho da ordem superior; as formas da terra correspondem às formas do céu; as manchas da pele são um mapa das incorruptíveis constelações; Judas refletiu de algum modo a Jesus. Daí os trinta dinheiros e o beijo; daí a morte voluntária, para merecer ainda mais a reprovação. Assim elucidou Nils Runeberg o enigma de Judas.

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Os teólogos de todas as confissões o refutaram. Lars Peter Engström acusou-o de ignorar, ou de preterir, a união hipostática; Axel Borelius, de renovar a heresia dos docetas, que negaram a humanidade de Jesus; o contundente bispo de Lund, de contradizer o terceiro versículo do capítulo 22 do evangelho de Lucas.

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Esses variados anátemas influenciaram Runeberg, que parcialmente reescreveu o livro reprovado e modificou sua doutrina. Abandonou a seus adversários o terreno teológico e propôs oblíquas razões de ordem moral. Admitiu que Jesus, “que dispunha dos consideráveis recursos que a onipotência pode oferecer”, não necessitava de um homem para redimir a todos os homens. Rebateu, em seguida, os que afirmam que nada sabemos do inexplicável traidor; sabemos, disse, que foi um dos apóstolos, um dos eleitos para anunciar o reino dos céus, para curar os enfermos, para limpar os leprosos, para ressuscitar os mortos e para expulsar demônios (Mateus 10:78; Lucas 9:1). Um homem a quem o Redentor concedeu tal distinção merece de nós melhor interpretação de seus atos. Imputar seu crime à cobiça (como tem feito alguns, alegando João 12:6) é resignar-se ao motivo mais torpe. Nils Runeberg propõe o motivo contrário: um hiperbólico e até ilimitado ascetismo.

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O asceta, para maior glória de Deus, envilece e mortifica a carne; Judas fez o mesmo com o espírito. Renunciou à honra, ao bem, à paz, ao reino dos céus, como outros, menos heroicamente, ao prazer1. Premeditou com lucidez terrível suas culpas. Do adultério costumam participar a ternura e a abnegação; do homicídio, a coragem; das profanações e da blasfêmia, certo fulgor satânico. Judas elegeu aquelas culpas que não são visitadas por nenhuma virtude: o abuso de confiança (João 12:6) e a delação. Trabalhou com gigantesca humildade, creu-se indigno de ser bom. Paulo escreveu: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Coríntios 1:31); Judas buscou o inferno, porque a felicidade do Senhor lhe bastava. Pensou que a felicidade, como o bem, é um atributo divino que não devem usurpar os homens.

Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu.

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Muitos tem descoberto, post factum, que nos justificáveis começos de Runeberg está seu extravagante fim, e que Den hemlige Frälsaren é uma mera perversão ou exasperação de Kristus och Judas. Ao fim de 1907 Runeberg terminou e revisou o texto manuscrito; quase dois anos transcorreram sem que o entregasse à prensa. Em outubro de 1909 o livro apareceu com um prólogo (tíbio ao ponto do enigmático) do hebraísta dinamarquês Erik Erfjord e com esta pérfida epígrafe: Ele estava no mundo e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu (João 1:10). O argumento geral não é complexo, embora a conclusão seja monstruosa. Deus, argumenta Nils Runeberg, rebaixou-se a ser homem tendo em vista a redenção do gênero humano; cabe conjecturar que foi perfeito o sacrifício realizado por ele, não invalidado ou atenuado por omissões. Limitar o que padeceu a uma tarde na cruz é blasfematório3. Afirmar que foi homem e incapaz de pecado encerra contradição; os atributos de impeccabilitas e de humanitas não são compatíveis. Kemnitz admite que o Redentor podia sentir fadiga, frio, perturbação, fome e sede; também cabe admitir que poderia pecar e perder-se. O famoso texto Brotará como raiz de terra sedenta; não tinha boa aparência nem formosura; desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer (Isaías 53:2.3) é para muitos a previsão do crucificado na hora da morte; para alguns (por exemplo, Hans Lassen Martensen), uma refutação da formosura que o consenso popular atribui a Cristo; para Runeberg, é a profecia pontual não a respeito de um momento mas de todo o atroz futuro, no tempo e na eternidade, do Verbo feito carne. Deus se fez totalmente homem até a infâmia, homem até a reprovação e o abismo. Para salvar-nos, poderia ter eleito qualquer dos destinos que tramam a perplexa rede da história; poderia ter sido Alexandre ou Pitágoras ou Rurik ou Jesus; escolheu um ínfimo destino: foi Judas.

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Em vão propuseram essa revelação as livrarias de Estocolmo e de Lund. Os incrédulos a consideraram, a priori, um insípido e laborioso jogo teológico; os teólogos a desdenharam. Runeberg intuiu nessa indiferença ecumênica uma quase milagrosa confirmação. Deus ordenava essa indiferença; Deus não queria que se propagasse na terra seu terrível segredo. Runeberg compreendeu que não era chegada a hora. Sentiu que estavam convergindo sobre ele antigas maldições divinas; recordou Elias e Moisés, que na montanha esconderam o rosto para não ver a Deus; Isaías, que aterrorizou-se quando seus olhos viram aquele cuja glória enche a terra; Saulo, cujos olhos quedaram cegos na estrada de Damasco; o rabino Simeon ben Azai, que viu o Paraíso e morreu; o famoso feiticeiro João de Viterbo, que enlouqueceu quando pôde ver a trindade; os midrashim, que abominam os ímpios que pronunciam o Shem Hamephorash, o nome secreto de Deus. Não seria ele acaso culpado desse crime obscuro? Não seria essa a blasfêmia contra o Espírito, que não será perdoada (Mateus 12:31)? Valério Sorano morreu por ter divulgado o nome oculto de Roma; que infinito castigo seria o seu, por ter descoberto e divulgado o terrível nome de Deus?

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Ébrio de insônia e de vertiginosa dialética, Nils Runeberg morreu pelas ruas de Malmö, rogando em altos brados que lhe fosse concedida a graça de compartilhar com o Redentor do inferno.

Morreu do rompimento de um aneurisma a primeiro de março de 1912. Os heresiólogos haverão talvez de recordá-lo; agregou ao conceito do Filho, que parecia esgotado, as complexidades do mal e do infortúnio.

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Jorge Luis Borges, 1944

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1 Borelius interroga com desdém: Por que não renunciou a renunciar? Por que não renunciar a renunciar?

2 Euclides da Cunha, num livro ignorado por Runeberg, anota que para o heresiarca de Canudos, Antônio Conselheiro, a virtude “era quase uma impiedade”. O leitor argentino recordará passagens análogas na obra de Almafuerte. Runeberg publicou, no panfleto simbolista Sju insegel, um assíduo poema descritivo, A água secreta; as primeiras estrófes narram os acontecimentos de um dia tumultuoso; as últimas, a descoberta de um lago glacial; o poeta sugere que a perduração dessa água silenciosa corrige nossa inútil violência e de algum modo a permite e a absolve. O poema conclui assim: A água da selva é feliz; podemos ser malvados e dolorosos.

3 Maurice Abramowicz observa: Jésus, d’aprés ce scandinave, a toujours le beau rôle; ses déboires, grâce à la science des typographes, jouissent d’une réputabon polyglotte; sa résidence de trentetrois ans parmi les humains ne fut en somme, qu’une villégiature. Erfjord, no terceiro apêndice da Christelige Dogmatik refuta essa passagem. Anota que a crucificação de Deus não cessou, porque o que aconteceu uma só vez no tempo se repete sem trégua na eternidade. Judas, agora, segue cobrando as moedas de prata; segue beijando a Jesus Cristo; segue arremessando as moedas de prata no templo, segue preparando o laço da corda no campo de sangue (Erfjord, para justificar essa afirmação, invoca o último capítulo do primeiro tomo da Vindicação da eternidade de Jaromir Hladík).

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