A tentativa de emplacar uma narrativa de contestação eleitoral e criar um clima de instabilidade institucional colocou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em um isolamento profundo dentro de seu próprio partido. Um levantamento publicado pelo jornal O Globo revela que 75% dos eleitos pelo Partido Liberal, o que representa três em cada quatro parlamentares e governadores da legenda, ignoraram sumariamente a carta golpista veiculada pelo candidato derrotado.
Dos 155 eleitos analisados no levantamento (englobando 121 deputados federais, 28 senadores e seis governadores), 117 preferiram se distanciar do manifesto negacionista, enquanto apenas 38 embarcaram na retórica golpista.
Pragmatismo e medo de sanções institucionais
De acordo com apuração do Globo, integrantes da cúpula do PL avaliam que insistir no ataque ao sistema eleitoral compromete a pauta de oposição no Congresso, desgasta a imagem do partido e abre margem para severas reações institucionais. O próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto, fez questão de se afastar publicamente do documento, pontuando que o texto não passou pelo crivo da direção partidária e que o foco deve ser o trabalho parlamentar.
O levante solitário do senador desmoronou ainda mais após descumprir ordens judiciais do Supremo Tribunal Federal (STF). Para evitar a entrega de seus passaportes determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, o parlamentar articulou uma rota de fuga do país rumo a Miami, amparado por aliados da extrema-direita internacional ligados às gestões de Donald Trump e Javier Milei. O plano de voo inclui agendas na capital americana, Washington, onde busca pontes com o Departamento de Estado e parlamentares republicanos.
O outro lado: silêncio diante da vitória de Lula
Embora a maioria expressiva tenha rejeitado o manifesto radical, o levantamento do Globo indica uma divisão estratégica no comportamento público da sigla. Por um lado, um grupo expressivo de parlamentares optou por reconhecer formalmente a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, citando a ampla diferença nas urnas, de 4,4 milhões de votos, e a validação do pleito pelas instâncias institucionais e chefes de Estado. Por outro, 86% dos eleitos preferiram evitar declarações públicas de reconhecimento direto, recorrendo ao silêncio tático para não se indispor com a base radical, ainda que sem endossar a aventura golpista de Flávio.
Do lado dos radicais, o endosso à peça conspiratória ficou restrito a um núcleo duro formado pelos senadores Magno Malta, Jorge Seif e o recém-eleito Gustavo Gayer, além dos deputados federais José Medeiros, Nikolas Ferreira e Magda Mofatto, que empenharam esforços nas redes para difundir o texto.
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