14 de junho de 2026

Censura na Universidade, por Valter Pomar

 
Censura na Universidade
 
por Valter Pomar 
 
Colegas
 
Ao chegar na Universidade, nesta terça-feira 24 de julho às 08h da manhã, encontrei a mensagem abaixo na minha caixa de mensagem.
 
Imagino que deva ser uma piada, uma pegadinha. Pois simplesmente não é crível que alguém faça uma denúncia anônima, cite meu nome, se instale uma comissão de sindicância, eu seja instado a responder um questionário-interrogatório e ainda seja sugerido que eu mantenha sigilo sobre a coisa toda.
 
Desde quando o método da denúncia anônima é cabível para situações desse tipo? Evento público, lançamento de um livro, debate político, nada disto integra a lista de motivos que justificariam a existência, para algumas situações muito especiais, do anonimato do denunciante. Aceitar que situações corriqueiras sejam tratadas com este método, conduziria a naturalizar práticas características de ditaduras e seus inquéritos policial-militares. Aliás, nos IPM também havia perguntas assim: “poderia dizer o nome de outros organizadores?” 

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Como não poderia faltar numa pegadinha deste tipo, há questões bizarras como: “Durante o evento ocorreram manifestações de apreço por parte de servidores em horário de serviço a favor de Lula e partidos de esquerda? Durante o evento ocorreram manifestações de desapreço e contra o Presidente Temer e integrantes do poder judiciário-MP?”
 
Ou seja: servidores “em horário de serviço” não poderiam manifestar “apreço” pelo presidente da República diretamente responsável pela criação da Universidade Federal do ABC; não poderiam manifestar “apreço” por partidos de esquerda (e se fossem de direita, poderiam?); não poderiam manifestar “desapreço” pelo presidente que está cortando verbas da educação; não poderiam manifestar “desapreço” por servidores públicos que estão atropelando a Constituição com fins políticos partidários. 
 
Se não fosse uma pegadinha, eu acharia que a correta impessoabilidade do serviço público está sendo confundida com censura ao direito de opinião dos cidadãos.
 
Outro sinal de que se trata de uma pegadinha é perguntar se durante o evento houve “apologia ao crime”. Deve ser uma maneira irônica de demonstrar que, em tempos de golpe, defender as liberdades democráticas previstas na Constituição de 1988 é um “crime”.
 
E por falar nisso: não sou organizador do evento, não estive presente ao evento e não sou autor da obra em questão. Mas pelo visto devo integrar alguma lista de “suspeitos de sempre”. No passado, quem fazia parte desta relação era preso regularmente para investigação, a qualquer pretexto e hora. Agora, em tempos de lawfare, tais pessoas são chamadas a responder a processos. Entretanto, espero que neste caso seja apenas e tão somente uma pegadinha.
 
Atenciosamente
 
Valter Pomar
 
Prezado Prof. Dr.  Valter Pomar
 
Boa tarde,
 
Fomos designados para conduzir os trabalhos da Comissão de Sindicância Investigativa nº23006.001375/2018-70. Essa comissão originou-se de denúncia anônima encaminhada à Corregedoria desta Universidade pedindo esclarecimento acerca do evento do lançamento do livro A verdade vencerá realizado nas dependências da Fundação Universidade Federal do ABC.
 
De acordo com as normas que regem as sindicâncias, é necessário manter discrição sobre os documentos e informações que constam nos autos do processo, tendo em vista sua tramitação com visualização restrita aos interessados.
 
De modo a podermos esclarecer os fatos, pedimos que sejam respondidos os seguintes questionamentos preferencialmente até quinta feira dia 26/07/2018.
 
1- O senhor participou da organização do evento A verdade vencerá, realizado nas dependências da Fundação Universidade Federal do ABC?
 
2- É de seu conhecimento quais pessoas participaram da organização do evento  A verdade vencerá, realizado nas dependências da Fundação Universidade Federal do ABC?  Poderia dizer o nome de
outros organizadores?
 
3- Quais foram os objetivos da organização de tal evento?
 
4- A realização do evento foi autorizada por algum servidor? Se sim por quais?
 
5- O  uso do espaço da UFABC (sala, anfiteatro,etc.) foi autorizada por algum servidor? Se sim por quais?
 
6- Houve venda de livros durante o evento?
 
5- A venda de livros foi autorizada por algum servidor?
 
7- Durante o evento houve apologia ao crime?
 
8- Durante o evento ocorreram manifestações de apreço por parte de servidores em horário de serviço a favor de Lula e partidos de esquerda?
 
9-  Durante o evento ocorreram manifestações de desapreço e contra o Presidente Temer e integrantes do poder judiciário-MP?
 
Atenciosamente

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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4 Comentários
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  1. Paulo Diniz d'Avila

    24 de julho de 2018 9:49 pm

    Só posso ter pena do Sr.

    Só posso ter pena do Sr. Daniel Miranda. Um cidadão e servidor público se prestar a este papel é simplesmente lastimável!

  2. JB Costa

    24 de julho de 2018 11:06 pm

    Não vivemos um Estado de

    Não vivemos um Estado de exceção, mas num Estado de total PIRAÇÃO. Aí resta apelar para o argumento “nem”. Nem no tempo da ditadura se ousou tanto. Nas universidades havia, sim, as tristemente famosas “ASI-Assessoria de Segurança e Informação” destinadas a “pastorar”, “espiar” os esquerdistas/comunistas. Mas era tudo declarado, às claras.

    Agora não: a essência é a mesma, entretanto eufemisticamente são denominadas de “Comissão de Sindicância”. Hoje, como bem lembrou um feicebuqueano, não só o Comunismo, mas a própria Esquerda foi anatematizada. 

    Vivas aos que profetizaram que teríamos um “auspicioso passado” no futuro que ora se faz presente.

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    25 de julho de 2018 11:50 am

    O DOPS federal em ação,

    O DOPS federal em ação, novamente.

    Os policiais, procuradores e juízes não tem mais qualquer noção de ridículo.

    Nem sabem o que significa a palavra legalidade presente no art. 37, da CF/88.

    Resumindo, todos os envolvidos nessa mutreta político-ideológica para restaurar a censura devem ser processados por danos morais junto com a União.

  4. Roberto Sidnei

    25 de julho de 2018 1:19 pm

    Kkk
    Só rindo para não chorar.

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