
Chuva de Primavera
Silvia Badim
Então eu parei. Eu parei naquele porto silencioso e foi lá que eu abri as mãos e deixei ir, deixei escorrer pelos dedos as tantas dores que me compunham, aquelas velhas dores já passadas pelo tempo. Lá era minha foz, e eu me fazia mar. Meus rios beijavam, enfim, às águas salgadas, e eu não tinha mais medo de me saber em maresias. Fusão, transformação, e o novo era eu. Eu toda em mutação de novos tempos. Ali, naquele altar de mim, eu me curvei. Era hora de dobrar os meus apegos, e as minhas resistências. Ajoelhei aos pés das águas de Oxum e lá deixei, uma a uma, rumo ao vasto oceano das estrelas. A água gelada me arrepiava os pêlos, e eu estava feliz. Eu estava pronta.
E foi nesse momento que você chegou, inesperada em rápidas notícias. Foi de repente que você choveu em mim, trazida pelas nuvens que me encontraram ali, bem ali, em frente àquelas águas profundas. Era lá que eu estava quando a travessia chegou ao fim, foi para lá que me levaram os meus rios de tantos tempos. Foi tanta água, tanto caminho e eu tinha me esquecido como era estar fora da correnteza que me tirava o ar. Enfim eu respirei e era dia, dia claro de vento morno a me acariciar os cabelos. Tinha flor e uma sombra para descansar e contemplar o horizonte que se abria rosa no desabrochar da primavera. Céu azul que não previa chuva, mas você me choveu. Chuva fresca de pingos grossos. Chuva de desejos de verão e frescor de folhas verdes.
Você choveu e eu pude te receber assim, nua, leve, de corpo lavado e alma acalentada pelo encontro das águas. Eu estava só e sem mágoas, eu estava livre e você choveu inteira a me penetrar a pele, minha nova pele. Eu fui sentindo a novidade me preencher quente, meu corpo todo pulsou com você por dentro, meus sentidos acordaram todos em novos tempos e eu tremi de alegria. Fiquei tomada de desejo, paralisada na terra que se enchia em poças largas, férteis de novos dias. Nadei na chuva e em você em mim.
Desde então você cresce, cresce por dentro e eu sinto vontade, uma vontade imensa de continuar a nadar sem margens e sem contornos, sem limites e sem bússolas, com você grudada em mim. Meus pés estão sentindo a terra molhada por entre os dedos, terra que me penetra os orifícios. E então eu te olho e te sinto e me solto em sorrisos, em tesão, em beleza, em química, em admiração, em olhar profundo, em celebrações, em motivações, em inspirações. Em um porvir de ondas que eu quero todas, em sede de ser.
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