A imbecilização da educação na república “concurseira”
Por Guilherme Perez Cabral
O acesso a um cargo público, no Brasil, para quem não é do mundo da política, não tem curral eleitoral, nem é indicação de algum dono do poder, passa pelo (des)caminho dos concursos públicos. Então, prepare-se. Digo, não para o cargo. Não para o trabalho. Não para o exercício da cidadania. Prepare-se para a prova das múltiplas escolhas.
Deseduque-se. Imbecilize-se, por algum tempo. Torne-se o bom cidadão da república concurseira. Afaste-se do mundo. O que acontece nele não importa. Não perca tempo com os problemas e a solução dos problemas do Brasil. Agora, isso é besteira. Debruce-se sobre as leis e os códigos. Decore-os, todos. Artigos, parágrafos, incisos e alíneas. Leia e releia os manuais e sinopses. Esqueça filosofia, sociologia, educação, história. Não servem. Faça a lição de casa que o professor do “cursinho” passou. Quando chegar a hora da prova, não pense muito, atenha-se ao que foi perguntado. Limite-se à resposta. A alternativa correta.
Tenha paciência e foco. Você chega lá. Em quatro anos, talvez menos, estudando oito horas por dia, pode virar… Juiz de direito. Isso! Você, que passou tanto tempo alheio ao mundo real, alquebrado, autoestima lá em baixo, daqui por diante, será o Juiz Hércules, de que fala Ronald Dworkin. Julgará casos de família; o que é melhor para uma criança; reintegração de posse; crimes contra a vida. Decidirá sobre vidas, sem nenhuma experiência de vida.
A lógica concurseira de acesso ao cargo público preocupa. Tem reflexos na prática do serviço público, que virá depois. Dia desses, uma magistrada, ao decidir ação judicial, comparou ensino sem qualidade com um carro sem motor. Sabe muito de processo, possivelmente declama, de cor, artigos da lei. Mas a interpretação superficial da educação, restrita à leitura rasa do código de defesa do consumidor, ao decidir sobre educação, impressiona. Não, “Excelência”! A escola não pode ser comparada com uma montadora de automóveis. O ensino não tem nada a ver com mercadoria, à venda no supermercado. Escola, ensino tem a ver com gente, com ser humano, de verdade. Sem motor.
É, por isso, uma grande burrice. Não beneficia, em nada, a construção do espaço público democrático, no país, onde, aliás, emerge como ponto alto de uma estrutura educacional deturpada, restrita a objetivos estáticos, estaticamente avaliados. O exame semestral. A aprovação no fim do ano. O vestibular. O concurso.
A educação é um processo de crescimento contínuo. Não tem fim. Insistia John Dewey, há quase cem anos, que pensar é resolver problemas com que nos deparamos no dia a dia, utilizando as habilidades, os conhecimentos aprendidos anteriormente. Ao solucionar dificuldades, ao preencher lacunas na experiência, mudamos nós, que aprendemos e crescemos. Muda, também, o mundo diante de nós, que se expande, se adensa. Novos problemas, mais complexos, surgem, então, para serem resolvidos por pessoas mais críticas, mais maduras, com mais competências e recursos intelectuais. Isso é educação.
A aprendizagem, o conhecimento, enfim, têm uma finalidade prática muito mais importante do que resolver questão de múltipla escolha. Eles servem para nos ajudar a solucionar as dificuldades, os conflitos, individuais e sociais, que vivemos em nosso cotidiano.
Para ser o bom cidadão, na república concurseira, o problema é localizado: uma boa classificação na prova. Mesmo se sabendo que os problemas a serem enfrentados, no desempenho do serviço público, não são resolvidos com um “x” de caneta esferográfica azul ou preta, na quadrícula correspondente à resposta certa. As respostas para as mazelas históricas do Brasil não podem ser decoradas, nem extraídas do manual. Não estão resumidas no best seller “Dez lições para passar em concurso”. Demandam cidadãos e profissionais críticos, que pensam.
Mas fique tranquilo. Pelo menos, por enquanto. Isso não cai no concurso público.
Dilma teria coragem de reforçar ministério com Lula, Requião e C
Blog do Esmael Morais
Dilma teria coragem de reforçar ministério com Lula, Requião e Ciro?
08 ago 2015 – 09:16
Dilma Rousseff e PT entram em contagem regressiva contra o golpe; presidenta pode surpreender país e golpista com reforma ministerial que poderá ter Ciro Gomes, Roberto Requião e Lula.
Ao longo das últimas horas especula-se em Brasília que Dilma Rousseff estaria preparando uma reforma ministerial antigolpe. Dentre as novidades, segundo os bastidores, estaria o ex-presidente Lula. Ele ocuparia a chancelaria do país.
Interlocutor da presidenta também teria consultado o senador Roberto Requião (PMDB-PR) e o ex-ministro Ciro Gomes (PROS) para o “governo de guerra” contra o golpismo. Ambos foram sondados para a Fazenda e Justiça.
A reforma no ministério deverá ocorrer na semana que vem, na véspera do protesto do dia 16 chamado pela oposição e setores antipetistas.
O PSDB, que flertava com o impeachment de Dilma, agora acha que não dá para acreditar numa eventual transição com o vice Michel Temer (PMDB).
Os tucanos temem que o peemedebista, uma vez na titularidade do cargo, não entregue a eles. Por isso, a tropa do senador Aécio Neves (MG) agora defende a “renúncia” da presidenta.
Dilma disse ontem (7) que “ninguém vai tirar a legitimidade que o voto me deu”, ou seja, não deixará o cargo “espontaneamente” pelas pressões partidárias. Paralelamente, o PT ensaia reagir nas ruas ao golpe.
Nesse ambiente de crise política e pré-golpe, Dilma teria coragem de convocar o trio de ferro Lula, Requião e Ciro para o governo? A conferir.
Fonte: Blog do Nassifsab, 08/08/2015 – 12:00Atualizado em 08/08/2015 – 17:21Por Andre Araujo
UM PAÍS ACOVARDADO, O CASO MC CARTHY – O ano de 1950 marca o deslanche da Guerra Fria com dois acontecimentos cruciais ocorridos em 1949: a detonação da bomba atômica soviética e o triunfo do comunismo na China.
Havia uma percepção nos EUA de que os russos conseguiram a bomba com espiões levando os segredos da construção do artefato, o que era em parte verdadeiro. Muitos espiões foram presos, como Alger Hiss e Klaus Guchs, formando um quadro que, combinado com o triunfo de Mao Tse Tung na China, provocou grande inquietação nos Estados Unidos.
É nesse cenário que surge um demagogo – Joseph Mc Carthy -, que se aproveita do choque que esses dois acontecimentos impactantes e fartamente explorados pela mídia impressa e pela TV que esta começando, criam na população americana, e lança uma caça as bruxas que opera em ondas crescentes contra vários grupos sociais.
O Senador Joseph Mc Carthy foi eleito pelo Estado interiorano de Wisconsin contra o então Senador Robert La Folette, um veterano que Mc Carthy acusou de ter lucrado com a guerra enquanto ele, Mc Carthy lutava na Marinha.
A campanha virulenta garantiu a Mc Carthy a cadeira no Senado e levou La Folette ao suicídio.
No mesmo período também se desenrola a Guerra da Coreia, uma guerra contra o comunismo, o que atiça o clima.
A primeira campanha de Mc Carthy foi contra 205 funcionários do Departamento de Estado, acusados de comunistas por ele. Sua narrativa era de que o Partido Nacionalista caiu na China por conta da sabotagem desses diplomatas, o que era um absurdo. O Governo Chiang Kai Shek caiu por causas objetivas mas essa queda foi uma surpresa, uma vez que a mídia americana nunca apresentou a realidade de um regime apodrecido que cairia por sua incompetência, miséria da população e alta corrupção. O casal Chaing Kai Shek era adorado nos EUA.
Mc Carthy fez campanha para o candidato presidencial de 1952 de seu Partido Republicano, o General Eisenhower, que não tolerava sua demagogia mas foi aconselhado a jamais criticá-lo pois Mc Carthy tinha apoio popular e da mídia.
O segundo grupo de ataque na campanha anti-comunista de Mc Carthy foi Hollywood, diretores, roteiristas, artistas, dramaturgos, produtores, dentre eles o legendário Chales Chaplin esteve prestes a ser preso e fugiu para a Europa por causa de Mc Carthy.
O Senador era temido e ninguém o enfrentava, seus discursos no Senado eram violentos e longos, uma vez discursou por seis horas ininterruptas, presidia o Subcomitê de Atividades Anti Americanas do Senado, transformado-o em Tribunal Anti-Comunista. Era abastecido de informações por J.Edgar Hoover, diretor do FBI, a policia federal americana.
No ataque à comunidade artística, Mc Carthy desgraçou carreiras, provocou suicídios, e muitos artistas se exilaram para não ser perseguidos. Seus interrogatórios no Senado eram televisionados e ele humilhava os inquiridos.
Sua terceira onda de ataques foi contra o Exército. Centrou baterias contra o General George Marshall, uma figura lendária, respeitadíssima, o arquiteto da vitoria americana na Segunda Guerra, acusado de ser tolerante com o comunismo, assim como todo o Governo Trumam e o antecessor Franklin Roosevelt.
O General George Marshall, Premio Nobel da Paz de 1953, foi mentor do Presidente Eisenhower que não o defendeu dos ataques de Mc Carthy, tal o medo que este provocava no Partido Republicano, submetido aos seus caprichos.
Mas ao atacar o Exercito Mc Carthy não mediu o que estava em jogo e superestimou sua força. O Exército o enfrentou e o derrubou. Em 21 de desembro de 1954 o Senado provocou um voto de censura contra Mc Carthy, que o derrubou por 67 a 22, tirando-lhe o cargo de presidente da subcomissão, que era sua trincheira. A partir dai Mc Carthy derrapou rapidamente para a decadencia e sua real dimensão ficou clara para o País, um reles demagogo que explorava certos temores da sociedade americana mas que era um canalha e um vilão sem nenhum caráter.
Mc Carthy morreu aos 48 anos de hepatite mas a real causa foi seu alcoolismo. Deixou um rastro terrível na Historia americana, um vampiro de carreiras e vulgar explorador de sentimentos e receios de uma sociedade amedrontada.
A lição do Caso Mc Carthy é o perigo que cruzadas falsamente moralistas “em prol do interesse publico” podem encobrir ação de maníacos e demagogos. A registrar o papel indecente da mídia conservadora a favor de Mc Carthy, especialmente do grupo TIME LIFE, que o prestigiou até o último momento de sua cruzada, um apoio acrítico que fez também não ser atacado pelos seus colegas do Congresso ou pela Suprema Corte.
Mc Carthy desgraçou milhares de pessoas a quem acusava de espiões comunistas sem que outras forças do País lhe cortasse os passos.
Mc Carthy foi uma mancha negra na Historia americana, que os Republicanos de hoje fazem questão de esquecer.
RESUMO Figura de destaque na militância estudantil durante a ditadura militar, o ex-ministro do governo Lula voltou à prisão na semana passada, desta vez sob suspeita de ter recebido propinas de empreiteiras. Cumprindo pena em regime domiciliar após caso do mensalão, José Dirceu, 69, parece distante do jovem preso em 1968.
*
É bom conversar com José Dirceu. Ele analisa a conjuntura à maneira de Fernando Henrique Cardoso, que enraíza querelas brasilienses no solo mundial. Como Delfim Netto, pensa primeiro em objetivos nacionais e só depois na casta dos profissionais da política. À semelhança de Fernando Haddad, é realista e evita lero-lero numa conversa a dois. O ex-ministro compartilha com Valério Arcary a cicatriz de quem esteve com as massas em movimento: o dirigente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado tem tatuagens da Revolução dos Cravos na psique; o militante preso na segunda-feira passada traz na pele queimaduras dos incêndios de 68.
O próprio José Dirceu abriu a porta da mesma casa onde a polícia foi buscá-lo nesta semana. Era uma manhã de domingo do fim do ano passado. Estava de calção azul, camiseta vermelha e calçava chinelos. Rijo e bronzeado, parecia mais saudável do que nas fotos dos jornais, nas quais era flagrado indo para o trabalho. Apresentou-me Simone Pereira, sua quarta companheira, e lhe fez um afago no rosto.
Atravessamos o saguão, duas salas sombrias, saímos para o sol raivoso de Brasília e nos sentamos no terraço, à beira do jardim, da piscina e do salão de ginástica. Logo apareceu Maria Antônia, sua filha de quatro anos. Ela recebeu esse nome em homenagem à rua paulistana onde Dirceu teve o seu batismo político.
A menina estava com uma engenhoca eletrônica que emitia silvos insistentes. O pai lhe disse que ficasse um pouco mais longe, mas Maria Antônia se aninhara a seu lado e só saiu quando quis.
Ele conversou primeiro sobre o PT. Falou que, mesmo com a vitória recente de Dilma Rousseff, haveria uma debandada nos quadros e na base do partido. A Lava Jato não cheirava bem, e lhe dava a impressão de causar calafrios em possíveis candidatos pela legenda. Aparentemente, a investigação não o alarmava.
Pedro Ladeira – 11.jul.2014/Folhapress José Dirceu deixa Centro de Progressão Penitenciária para trabalhar em escritório, em julho de 2014, no DF
“Já reviraram minhas contas bancárias, meus telefonemas e declarações de renda”, afirmou. “Nunca encontraram nada. Tenho uma consultoria, presto serviços para empresas e recolho impostos.” Durante o encontro, que se estendeu até o meio da tarde, Dirceu não tocou em álcool, proibido no regime de prisão domiciliar: “Não dou mole de jeito nenhum”.
O governo recém-reeleito lhe parecia velho, exausto, sem rumo. “O PT sofrerá uma derrota de proporções históricas nas eleições municipais”, vaticinou. Ele nunca se deu bem com Dilma. Chamou-a de “camarada de armas” no discurso de despedida no Congresso, mas intramuros a critica desde sempre.
Questionado sobre o que faria se voltasse ao poder, fez uma longa peroração, coalhada de cifras, sobre a vocação do Brasil na América Latina: construir estradas, aeroportos, usinas, linhas de ferro, portos, a infraestrutura inteira do continente. Não disse palavra sobre desigualdade, classes, lucros e interesses nacionais contraditórios, muito menos socialismo.
GUINADA
Sem transição, como lhe é comum, mudou de assunto e deu uma guinada abrupta à esquerda: disse que trabalharia para o PT apoiar a candidatura à prefeitura carioca de Marcelo Freixo, do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). “O Rio é a única grande cidade brasileira com garra para eleger um prefeito de esquerda”, disse (ignorando a eleição do petista Haddad em São Paulo) enquanto checava o celular, deitado na mesa à frente, gesto que repetia de cinco em cinco minutos.
Há dez anos, Dirceu tivera papel preponderante na expulsão do PT de ativistas que viriam a criar o PSOL, a começar por Luciana Genro. Antes mesmo, na década de 1990, agira com mão pesada para que a esquerda não concorresse ao governo do Rio. O candidato em potencial era Vladimir Palmeira, que não só pertencia ao PT como se formara em radicalismo na turma de 1968. Ele tinha a sustentação firme da seção fluminense do partido no Rio, mas a direção nacional –leia-se: Lula e José Dirceu– impôs o voto em Anthony Garotinho. Deu no que deu. O celular não tocou nenhuma vez.
“As pessoas mudam, e os líderes políticos também”, disse-me Valério Arcary, pedindo desculpas pelo clichê. “O José Dirceu de 1980 e o de 2015 não são a mesma pessoa.” O líder do PSTU ficou boquiaberto com o relato, publicado na terça-feira pela Folha, de que Dirceu se ajoelhara diante de uma imagem de Nossa Senhora.
Eles conviveram na década de 1990, quando integraram a comissão executiva nacional do PT. Ainda que tivessem posições conflitantes, davam-se bem. Dirceu fora preso e banido na ressaca de 1968. Passara anos em Cuba, vivera clandestino no interior do Paraná, onde abandonou política, e chegara relativamente tarde ao Partido dos Trabalhadores. Defendia as posições de Fidel Castro e de Cuba.
Já Arcary morava em Lisboa quando estourou a Revolução dos Cravos, em 1974. Voltou ao Brasil anos depois e foi um dos fundadores da Convergência Socialista, grupo trotskista cujos militantes se filiaram ao PT para cooptar novos adeptos. Ele se lembra de várias virtudes de Dirceu: “Era assertivo, não se metia em intrigas, acreditava num projeto, comprava a discussão política e a fazia às claras”.
Ou seja, era quase o contrário de Lula e dos sindicalistas que o seguiam. O presidente do PT relutava em divergir frontalmente, tentava conciliar o inconciliável e volta e meia ocultava o que de fato pensava. Dirceu e Lula tinham deficits semelhantes: não escreviam e nunca estiveram em minoria no partido. O político que escreve ordena as ideias; estar em minoria é didático, fortalece quem tem princípios e paciência.
Um belo dia, as virtudes de José Dirceu se voltaram contra Arcary. Foi quando o movimento pela derrubada de Fernando Collor ganhou corpo, em 1992. Manifestações continuadas juntavam centenas de milhares de pessoas. O presidente estava por um fio, mas o mundo político, jurídico e empresarial não chegara a um acordo quanto ao que fazer.
A Convergência Socialista defendia a derrubada de Collor, mas não queria que o vice, Itamar Franco, tomasse posse no lugar –por não ter sido eleito e por defender o programa liberal do titular. Seu objetivo era seguir com as passeatas e atos públicos até que se abrisse uma crise revolucionária.
José Dirceu partiu para cima da Convergência. Defendeu que a organização não tivesse vida independente e o seu jornalzinho semanal fosse proibido. “Quero ser secretário-geral do PT contra a palavra de ordem ‘fora Collor'”, repetia. No seu raciocínio, o partido deveria esperar até 1994, vencer as eleições e só então entrar no Planalto. Não deu outra: a direção do partido ficou com Dirceu, e milhares de trotskistas foram expulsos.
O PT tornou-se uma organização eleitoral. Arcary não guarda mágoa. “Dirceu optou por uma política e a defendeu com lealdade, sem dar golpes baixos”, disse ele. O PT não chegou ao poder em 1994 nem quatro anos depois. Empalmou o Planalto só em 2002, com José Dirceu na condição de hiperministro e candidato óbvio à sucessão de Lula.
As mutações de Dirceu e do PT não se deram num buraco negro a-histórico. O “big bang” do processo foi a queda do Muro de Berlim. Desmoronou o “socialismo real” (que de socialismo não tinha nada), com o qual boa parte da esquerda latino-americana cultivava relações ambíguas. Esboroaram com ele a via insurrecional para a tomada do poder e a perspectiva de revolucionar a sociedade.
A vaga eleitoralista, com a adoção de um programa palatável à ordem do capital, pôs em polvorosa a Frente Sandinista de Daniel Ortega, na Nicarágua, os Tupamaros de José Mujica, no Uruguai, e o PT de Lula e José Dirceu. Os três partidos deixaram de falar em socialismo até nos dias de festa, como mandava a etiqueta social-democrata. Vieram os showmícios.
Mesmo o róseo reformismo feneceu. Ele deu lugar às ditas políticas compensatórias, mais ao gosto dos poderes centrais. Não por acaso Obama disse que Lula era “o cara”, o “político mais popular na Terra”.
A transfiguração foi testemunhada por Frei Betto. Ele conheceu José Dirceu nos idos de 1968. Estudava antropologia na USP da Maria Antônia, teologia no convento dos dominicanos, nas Perdizes, e era repórter da “Folha da Tarde”, para a qual cobria o movimento estudantil. “Foi o ano em que não dormi”, disse-me Betto.
Conheceram-se melhor na ocasião em que o estudante se refugiou no convento. Aproximaram-se mais quando aderiram à Aliança Libertadora Nacional, a ALN de Carlos Marighella. A década de prisões e exílios os separou. Tornaram a se encontrar no início dos anos 1980. Por achar que a esquerda consistia de sabichões que queriam manipulá-lo, Lula a evitava. Mas gostava de Betto por ser frade e fazer parte da Pastoral Operária. Foi ele quem apresentou José Dirceu a Lula.
FOME ZERO
Os caminhos de Betto e Dirceu voltaram a se cruzar quando subiram a rampa do Planalto. O frei foi encarregado por Lula de construir o Fome Zero. Na sua concepção, o programa seria gerido em conjunto por técnicos do governo e pelos próprios beneficiários, que se reuniriam periodicamente. Ao longo de três anos, os favorecidos seriam treinados num ofício, passariam a trabalhar e prescindiriam da bolsa estatal.
Houve resistência de prefeitos de todo o Brasil. Eles queriam organizar o cadastro, de modo a parecer que concediam a benesse. Assim, poderiam encabrestá-los e cobrar votos. José Dirceu, que pelejava para aproximar o governo de políticos de todos os partidos, comprou a ideia. “Como era ele que controlava o orçamento do governo, durante dois anos Zé Dirceu nos deixou a pão e água, não destinou um real ao Fome Zero”, conta Betto. O frade reclamava com Lula, que lhe dizia que tomaria providências. Nunca as tomou.
O cadastro dos prefeitos foi instituído, o Fome Zero virou Bolsa Família, e Betto deixou o governo. “O que era uma política emancipatória virou uma política compensatória”, avalia o religioso. “Milhões de pobres continuam sem emprego, só que agora são consumistas.” A gênese do Bolsa Família está historiada em “Calendário do Poder” (Rocco, 2007), no qual relata de maneira crítica e desapaixonada como funcionou o primeiro governo Lula.
Mas nem o livro de Frei Betto dissolve o denso mistério das relações entre José Dirceu e Lula. Graças ao primeiro, o PT se tornou uma máquina eleitoral a serviço do segundo. Eles nunca deixaram entrever como se dava na prática a relação entre ambos. Observando de fora, percebe-se que Lula respeitava Dirceu, mas jamais o teve por mentor. Por sua vez, Dirceu nunca disse uma frase reveladora a respeito de Lula.
O máximo a que chegou foi resmungar “Lula, Lula, Lula” com a fisionomia contrafeita, quando lhe perguntei como ia o ex-presidente. Estávamos no seu apartamento na rua Estado de Israel, na Vila Mariana, em São Paulo. Víamos na televisão a transmissão de uma das sessões do Supremo Tribunal Eleitoral, que julgava o mensalão.
O imóvel não tinha nada de mais: dois quartos, mobiliário de hotel duas estrelas, sinal de internet capenga. Dirceu mencionou que o apartamento passara por uma reforma. Na acusação dos procuradores de Curitiba, revelada na semana passada, tal reforma foi paga por uma empresa acusada de corrupção.
LODO
Ao se preparar para entrar no Planalto, Lula disse a Dirceu que forjasse a aliança do PT com os partidos de aluguel para formar a base do governo. Dirceu foi contra, queria que o PMDB fosse o aliado preferencial. Mas cumpriu as ordens. A semente do mensalão germinou nesse lodo.
Mas o mensalão só floresceu com exuberância devido a uma particularidade nacional: o Brasil tem uma das campanhas eleitorais mais caras do planeta. Bilhões de reais trocam de mãos a cada dois anos. Há inúmeros motivos para isso: o peso da TV e da propaganda; a longa duração e despolitização da ditadura militar; a ausência de vida partidária consistente; as mazelas da educação básica; a importância do Estado na economia.
Essa dinheirama faz com que as eleições tenham se tornado uma forma de acesso a verbas estatais, manipuladas por partidos em benefício de empresas, com as empreiteiras e bancos puxando a fila. É um jogo de leva e traz com poucos perdedores. Nada impede que um candidato derrotado desvie para a própria conta parte do que lhe foi doado por empresários.
É virtualmente impossível que um partido chegue ao poder sem manter relações com grandes companhias, sejam essas relações promíscuas, de favor, comerciais ou decorrentes do tráfico de influência. O sistema não é exclusivo do PT e tampouco começou com ele. O pedágio político está disseminado porque a economia brasileira funciona assim há décadas.
José Dirceu prestou serviços a grandes corporações, da OAS à Ambev, da Camargo Corrêa à Parmalat. O que fazia para elas? “Faço estudos, prospecto investimentos, dou sugestões, participo de reuniões”, respondeu ele. Estávamos na sede da sua consultoria, a JD, num casarão com jeito de mal- assombrado ao lado do parque Ibirapuera. Os móveis eram esparsos, e várias salas estavam desertas. Argumentei que nada disso era propriamente trabalho, criação de valor. Ele insistiu que era, e o diálogo não foi adiante.
Pouco depois de escrever uma resenha que apontava a má-fé e dezenas de erros de uma biografia de Dirceu, fui convidado por ele a almoçar na sua casa de campo. Ela fica num condomínio aprazível em Vinhedo, no interior paulista. A consultoria voltou à baila. “Ajudo na criação de empregos de empresas brasileiras”, disse ele. Pode ser. Mas quem cria empregos recria a exploração dos fracos pelos fortes, aufere lucro e perpetua a desigualdade entre as pessoas.
Tarso Genro também esteve com José Dirceu, na casa de Brasília. Como as relações entre eles se deram apenas no PT, o ex-governador gaúcho não chegou a ter conhecimento íntimo da personalidade ou da vida pessoal do companheiro. “Eu o via como uma pessoa extremamente obstinada, que nunca demonstrou desejo de tirar proveito pessoal da sua atividade política”, disse-me Tarso. “Depois de mais de dez anos sem conversarmos, minha visita teve finalidade humanística. Encontrei uma pessoa bastante deprimida, mas com enorme vontade de voltar a viver normalmente.”
Foi outra a minha última impressão de Dirceu. Numa hora lá, ele se afastou e foi ao fundo do jardim. Parecia perdido, amargurado, sem saída. Mudara tanto que talvez não soubesse quem era. Exilado de si mesmo, escorava-se nos próprios restos, na sua ruína. Lembrava o poeta peregrino, improvável sombra florentina sob os mil sóis do Planalto Central.
A derrocada de um homem tem uma dimensão moral que a sociologia e a psicologia não alcançam. Mas a poesia pode fornecer imagens que propiciam o seu entendimento. No primeiro canto da “Divina Comédia”, Dante se depara com o leopardo, o leão e a loba na selva selvagem da vida.
O significado das bestas é matéria de debate entre eruditos desde a Idade Média. No caso de José Dirceu, o leopardo é a fraude, o leão, a soberba, e a loba, a incontinência, o deixar-se levar pelos sentidos mais prementes. Encurralado pelas três feras, ele desce agora ao fundo do inferno.
MARIO SERGIO CONTI, 60, é colunista do jornal “O Globo” e apresentador do programa “Diálogos”, da GloboNews.
romério rômulo
9 de agosto de 2015 3:50 amfrente mineira pelo brasil
http://www.viomundo.com.br/politica/minas-se-levanta-em-defesa-do-brasil-contra-qualquer-tentativa-de-golpear-o-estado-democratico-de-direito.html
romério
aliancaliberal
9 de agosto de 2015 5:33 amA imbecilização da educação
A imbecilização da educação na república “concurseira”
Por Guilherme Perez Cabral
O acesso a um cargo público, no Brasil, para quem não é do mundo da política, não tem curral eleitoral, nem é indicação de algum dono do poder, passa pelo (des)caminho dos concursos públicos. Então, prepare-se. Digo, não para o cargo. Não para o trabalho. Não para o exercício da cidadania. Prepare-se para a prova das múltiplas escolhas.
Deseduque-se. Imbecilize-se, por algum tempo. Torne-se o bom cidadão da república concurseira. Afaste-se do mundo. O que acontece nele não importa. Não perca tempo com os problemas e a solução dos problemas do Brasil. Agora, isso é besteira. Debruce-se sobre as leis e os códigos. Decore-os, todos. Artigos, parágrafos, incisos e alíneas. Leia e releia os manuais e sinopses. Esqueça filosofia, sociologia, educação, história. Não servem. Faça a lição de casa que o professor do “cursinho” passou. Quando chegar a hora da prova, não pense muito, atenha-se ao que foi perguntado. Limite-se à resposta. A alternativa correta.
Tenha paciência e foco. Você chega lá. Em quatro anos, talvez menos, estudando oito horas por dia, pode virar… Juiz de direito. Isso! Você, que passou tanto tempo alheio ao mundo real, alquebrado, autoestima lá em baixo, daqui por diante, será o Juiz Hércules, de que fala Ronald Dworkin. Julgará casos de família; o que é melhor para uma criança; reintegração de posse; crimes contra a vida. Decidirá sobre vidas, sem nenhuma experiência de vida.
A lógica concurseira de acesso ao cargo público preocupa. Tem reflexos na prática do serviço público, que virá depois. Dia desses, uma magistrada, ao decidir ação judicial, comparou ensino sem qualidade com um carro sem motor. Sabe muito de processo, possivelmente declama, de cor, artigos da lei. Mas a interpretação superficial da educação, restrita à leitura rasa do código de defesa do consumidor, ao decidir sobre educação, impressiona. Não, “Excelência”! A escola não pode ser comparada com uma montadora de automóveis. O ensino não tem nada a ver com mercadoria, à venda no supermercado. Escola, ensino tem a ver com gente, com ser humano, de verdade. Sem motor.
É, por isso, uma grande burrice. Não beneficia, em nada, a construção do espaço público democrático, no país, onde, aliás, emerge como ponto alto de uma estrutura educacional deturpada, restrita a objetivos estáticos, estaticamente avaliados. O exame semestral. A aprovação no fim do ano. O vestibular. O concurso.
A educação é um processo de crescimento contínuo. Não tem fim. Insistia John Dewey, há quase cem anos, que pensar é resolver problemas com que nos deparamos no dia a dia, utilizando as habilidades, os conhecimentos aprendidos anteriormente. Ao solucionar dificuldades, ao preencher lacunas na experiência, mudamos nós, que aprendemos e crescemos. Muda, também, o mundo diante de nós, que se expande, se adensa. Novos problemas, mais complexos, surgem, então, para serem resolvidos por pessoas mais críticas, mais maduras, com mais competências e recursos intelectuais. Isso é educação.
A aprendizagem, o conhecimento, enfim, têm uma finalidade prática muito mais importante do que resolver questão de múltipla escolha. Eles servem para nos ajudar a solucionar as dificuldades, os conflitos, individuais e sociais, que vivemos em nosso cotidiano.
Para ser o bom cidadão, na república concurseira, o problema é localizado: uma boa classificação na prova. Mesmo se sabendo que os problemas a serem enfrentados, no desempenho do serviço público, não são resolvidos com um “x” de caneta esferográfica azul ou preta, na quadrícula correspondente à resposta certa. As respostas para as mazelas históricas do Brasil não podem ser decoradas, nem extraídas do manual. Não estão resumidas no best seller “Dez lições para passar em concurso”. Demandam cidadãos e profissionais críticos, que pensam.
Mas fique tranquilo. Pelo menos, por enquanto. Isso não cai no concurso público.
http://educacao.uol.com.br/colunas/guilherme-cabral/2015/07/27/a-educacao-do-cidadao-na-republica-concurseira.htm?cmpid=fb-uolnot
Webster Franklin
9 de agosto de 2015 6:44 amDilma teria coragem de reforçar ministério com Lula, Requião e C
Blog do Esmael Morais
Dilma teria coragem de reforçar ministério com Lula, Requião e Ciro?
08 ago 2015 – 09:16
Dilma Rousseff e PT entram em contagem regressiva contra o golpe; presidenta pode surpreender país e golpista com reforma ministerial que poderá ter Ciro Gomes, Roberto Requião e Lula.
Ao longo das últimas horas especula-se em Brasília que Dilma Rousseff estaria preparando uma reforma ministerial antigolpe. Dentre as novidades, segundo os bastidores, estaria o ex-presidente Lula. Ele ocuparia a chancelaria do país.
Interlocutor da presidenta também teria consultado o senador Roberto Requião (PMDB-PR) e o ex-ministro Ciro Gomes (PROS) para o “governo de guerra” contra o golpismo. Ambos foram sondados para a Fazenda e Justiça.
A reforma no ministério deverá ocorrer na semana que vem, na véspera do protesto do dia 16 chamado pela oposição e setores antipetistas.
O PSDB, que flertava com o impeachment de Dilma, agora acha que não dá para acreditar numa eventual transição com o vice Michel Temer (PMDB).
Os tucanos temem que o peemedebista, uma vez na titularidade do cargo, não entregue a eles. Por isso, a tropa do senador Aécio Neves (MG) agora defende a “renúncia” da presidenta.
Dilma disse ontem (7) que “ninguém vai tirar a legitimidade que o voto me deu”, ou seja, não deixará o cargo “espontaneamente” pelas pressões partidárias. Paralelamente, o PT ensaia reagir nas ruas ao golpe.
Nesse ambiente de crise política e pré-golpe, Dilma teria coragem de convocar o trio de ferro Lula, Requião e Ciro para o governo? A conferir.
http://www.esmaelmorais.com.br/2015/08/dilma-teria-coragem-de-reforcar-ministerio-com-lula-requiao-e-ciro/
Amaro Doce
9 de agosto de 2015 8:38 amQuem será o nosso McCarthy, aquele que se encontra em evidência?
Um país acovardado, o caso McCarthy
Fonte: Blog do Nassifsab, 08/08/2015 – 12:00Atualizado em 08/08/2015 – 17:21Por Andre Araujo
UM PAÍS ACOVARDADO, O CASO MC CARTHY – O ano de 1950 marca o deslanche da Guerra Fria com dois acontecimentos cruciais ocorridos em 1949: a detonação da bomba atômica soviética e o triunfo do comunismo na China.
Havia uma percepção nos EUA de que os russos conseguiram a bomba com espiões levando os segredos da construção do artefato, o que era em parte verdadeiro. Muitos espiões foram presos, como Alger Hiss e Klaus Guchs, formando um quadro que, combinado com o triunfo de Mao Tse Tung na China, provocou grande inquietação nos Estados Unidos.
É nesse cenário que surge um demagogo – Joseph Mc Carthy -, que se aproveita do choque que esses dois acontecimentos impactantes e fartamente explorados pela mídia impressa e pela TV que esta começando, criam na população americana, e lança uma caça as bruxas que opera em ondas crescentes contra vários grupos sociais.
O Senador Joseph Mc Carthy foi eleito pelo Estado interiorano de Wisconsin contra o então Senador Robert La Folette, um veterano que Mc Carthy acusou de ter lucrado com a guerra enquanto ele, Mc Carthy lutava na Marinha.
A campanha virulenta garantiu a Mc Carthy a cadeira no Senado e levou La Folette ao suicídio.
No mesmo período também se desenrola a Guerra da Coreia, uma guerra contra o comunismo, o que atiça o clima.
A primeira campanha de Mc Carthy foi contra 205 funcionários do Departamento de Estado, acusados de comunistas por ele. Sua narrativa era de que o Partido Nacionalista caiu na China por conta da sabotagem desses diplomatas, o que era um absurdo. O Governo Chiang Kai Shek caiu por causas objetivas mas essa queda foi uma surpresa, uma vez que a mídia americana nunca apresentou a realidade de um regime apodrecido que cairia por sua incompetência, miséria da população e alta corrupção. O casal Chaing Kai Shek era adorado nos EUA.
Mc Carthy fez campanha para o candidato presidencial de 1952 de seu Partido Republicano, o General Eisenhower, que não tolerava sua demagogia mas foi aconselhado a jamais criticá-lo pois Mc Carthy tinha apoio popular e da mídia.
O segundo grupo de ataque na campanha anti-comunista de Mc Carthy foi Hollywood, diretores, roteiristas, artistas, dramaturgos, produtores, dentre eles o legendário Chales Chaplin esteve prestes a ser preso e fugiu para a Europa por causa de Mc Carthy.
O Senador era temido e ninguém o enfrentava, seus discursos no Senado eram violentos e longos, uma vez discursou por seis horas ininterruptas, presidia o Subcomitê de Atividades Anti Americanas do Senado, transformado-o em Tribunal Anti-Comunista. Era abastecido de informações por J.Edgar Hoover, diretor do FBI, a policia federal americana.
No ataque à comunidade artística, Mc Carthy desgraçou carreiras, provocou suicídios, e muitos artistas se exilaram para não ser perseguidos. Seus interrogatórios no Senado eram televisionados e ele humilhava os inquiridos.
Sua terceira onda de ataques foi contra o Exército. Centrou baterias contra o General George Marshall, uma figura lendária, respeitadíssima, o arquiteto da vitoria americana na Segunda Guerra, acusado de ser tolerante com o comunismo, assim como todo o Governo Trumam e o antecessor Franklin Roosevelt.
O General George Marshall, Premio Nobel da Paz de 1953, foi mentor do Presidente Eisenhower que não o defendeu dos ataques de Mc Carthy, tal o medo que este provocava no Partido Republicano, submetido aos seus caprichos.
Mas ao atacar o Exercito Mc Carthy não mediu o que estava em jogo e superestimou sua força. O Exército o enfrentou e o derrubou. Em 21 de desembro de 1954 o Senado provocou um voto de censura contra Mc Carthy, que o derrubou por 67 a 22, tirando-lhe o cargo de presidente da subcomissão, que era sua trincheira. A partir dai Mc Carthy derrapou rapidamente para a decadencia e sua real dimensão ficou clara para o País, um reles demagogo que explorava certos temores da sociedade americana mas que era um canalha e um vilão sem nenhum caráter.
Mc Carthy morreu aos 48 anos de hepatite mas a real causa foi seu alcoolismo. Deixou um rastro terrível na Historia americana, um vampiro de carreiras e vulgar explorador de sentimentos e receios de uma sociedade amedrontada.
A lição do Caso Mc Carthy é o perigo que cruzadas falsamente moralistas “em prol do interesse publico” podem encobrir ação de maníacos e demagogos. A registrar o papel indecente da mídia conservadora a favor de Mc Carthy, especialmente do grupo TIME LIFE, que o prestigiou até o último momento de sua cruzada, um apoio acrítico que fez também não ser atacado pelos seus colegas do Congresso ou pela Suprema Corte.
Mc Carthy desgraçou milhares de pessoas a quem acusava de espiões comunistas sem que outras forças do País lhe cortasse os passos.
Mc Carthy foi uma mancha negra na Historia americana, que os Republicanos de hoje fazem questão de esquecer.
Gilberto Cruvinel
9 de agosto de 2015 10:40 amA derrocada de José Dirceu
por Mário Sergio Conti
da Folha de S.Paulo
RESUMO Figura de destaque na militância estudantil durante a ditadura militar, o ex-ministro do governo Lula voltou à prisão na semana passada, desta vez sob suspeita de ter recebido propinas de empreiteiras. Cumprindo pena em regime domiciliar após caso do mensalão, José Dirceu, 69, parece distante do jovem preso em 1968.
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É bom conversar com José Dirceu. Ele analisa a conjuntura à maneira de Fernando Henrique Cardoso, que enraíza querelas brasilienses no solo mundial. Como Delfim Netto, pensa primeiro em objetivos nacionais e só depois na casta dos profissionais da política. À semelhança de Fernando Haddad, é realista e evita lero-lero numa conversa a dois. O ex-ministro compartilha com Valério Arcary a cicatriz de quem esteve com as massas em movimento: o dirigente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado tem tatuagens da Revolução dos Cravos na psique; o militante preso na segunda-feira passada traz na pele queimaduras dos incêndios de 68.
O próprio José Dirceu abriu a porta da mesma casa onde a polícia foi buscá-lo nesta semana. Era uma manhã de domingo do fim do ano passado. Estava de calção azul, camiseta vermelha e calçava chinelos. Rijo e bronzeado, parecia mais saudável do que nas fotos dos jornais, nas quais era flagrado indo para o trabalho. Apresentou-me Simone Pereira, sua quarta companheira, e lhe fez um afago no rosto.
Atravessamos o saguão, duas salas sombrias, saímos para o sol raivoso de Brasília e nos sentamos no terraço, à beira do jardim, da piscina e do salão de ginástica. Logo apareceu Maria Antônia, sua filha de quatro anos. Ela recebeu esse nome em homenagem à rua paulistana onde Dirceu teve o seu batismo político.
A menina estava com uma engenhoca eletrônica que emitia silvos insistentes. O pai lhe disse que ficasse um pouco mais longe, mas Maria Antônia se aninhara a seu lado e só saiu quando quis.
Ele conversou primeiro sobre o PT. Falou que, mesmo com a vitória recente de Dilma Rousseff, haveria uma debandada nos quadros e na base do partido. A Lava Jato não cheirava bem, e lhe dava a impressão de causar calafrios em possíveis candidatos pela legenda. Aparentemente, a investigação não o alarmava.
Pedro Ladeira – 11.jul.2014/Folhapress
José Dirceu deixa Centro de Progressão Penitenciária para trabalhar em escritório, em julho de 2014, no DF
“Já reviraram minhas contas bancárias, meus telefonemas e declarações de renda”, afirmou. “Nunca encontraram nada. Tenho uma consultoria, presto serviços para empresas e recolho impostos.” Durante o encontro, que se estendeu até o meio da tarde, Dirceu não tocou em álcool, proibido no regime de prisão domiciliar: “Não dou mole de jeito nenhum”.
O governo recém-reeleito lhe parecia velho, exausto, sem rumo. “O PT sofrerá uma derrota de proporções históricas nas eleições municipais”, vaticinou. Ele nunca se deu bem com Dilma. Chamou-a de “camarada de armas” no discurso de despedida no Congresso, mas intramuros a critica desde sempre.
Questionado sobre o que faria se voltasse ao poder, fez uma longa peroração, coalhada de cifras, sobre a vocação do Brasil na América Latina: construir estradas, aeroportos, usinas, linhas de ferro, portos, a infraestrutura inteira do continente. Não disse palavra sobre desigualdade, classes, lucros e interesses nacionais contraditórios, muito menos socialismo.
GUINADA
Sem transição, como lhe é comum, mudou de assunto e deu uma guinada abrupta à esquerda: disse que trabalharia para o PT apoiar a candidatura à prefeitura carioca de Marcelo Freixo, do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). “O Rio é a única grande cidade brasileira com garra para eleger um prefeito de esquerda”, disse (ignorando a eleição do petista Haddad em São Paulo) enquanto checava o celular, deitado na mesa à frente, gesto que repetia de cinco em cinco minutos.
Há dez anos, Dirceu tivera papel preponderante na expulsão do PT de ativistas que viriam a criar o PSOL, a começar por Luciana Genro. Antes mesmo, na década de 1990, agira com mão pesada para que a esquerda não concorresse ao governo do Rio. O candidato em potencial era Vladimir Palmeira, que não só pertencia ao PT como se formara em radicalismo na turma de 1968. Ele tinha a sustentação firme da seção fluminense do partido no Rio, mas a direção nacional –leia-se: Lula e José Dirceu– impôs o voto em Anthony Garotinho. Deu no que deu. O celular não tocou nenhuma vez.
“As pessoas mudam, e os líderes políticos também”, disse-me Valério Arcary, pedindo desculpas pelo clichê. “O José Dirceu de 1980 e o de 2015 não são a mesma pessoa.” O líder do PSTU ficou boquiaberto com o relato, publicado na terça-feira pela Folha, de que Dirceu se ajoelhara diante de uma imagem de Nossa Senhora.
Eles conviveram na década de 1990, quando integraram a comissão executiva nacional do PT. Ainda que tivessem posições conflitantes, davam-se bem. Dirceu fora preso e banido na ressaca de 1968. Passara anos em Cuba, vivera clandestino no interior do Paraná, onde abandonou política, e chegara relativamente tarde ao Partido dos Trabalhadores. Defendia as posições de Fidel Castro e de Cuba.
Já Arcary morava em Lisboa quando estourou a Revolução dos Cravos, em 1974. Voltou ao Brasil anos depois e foi um dos fundadores da Convergência Socialista, grupo trotskista cujos militantes se filiaram ao PT para cooptar novos adeptos. Ele se lembra de várias virtudes de Dirceu: “Era assertivo, não se metia em intrigas, acreditava num projeto, comprava a discussão política e a fazia às claras”.
Ou seja, era quase o contrário de Lula e dos sindicalistas que o seguiam. O presidente do PT relutava em divergir frontalmente, tentava conciliar o inconciliável e volta e meia ocultava o que de fato pensava. Dirceu e Lula tinham deficits semelhantes: não escreviam e nunca estiveram em minoria no partido. O político que escreve ordena as ideias; estar em minoria é didático, fortalece quem tem princípios e paciência.
Um belo dia, as virtudes de José Dirceu se voltaram contra Arcary. Foi quando o movimento pela derrubada de Fernando Collor ganhou corpo, em 1992. Manifestações continuadas juntavam centenas de milhares de pessoas. O presidente estava por um fio, mas o mundo político, jurídico e empresarial não chegara a um acordo quanto ao que fazer.
A Convergência Socialista defendia a derrubada de Collor, mas não queria que o vice, Itamar Franco, tomasse posse no lugar –por não ter sido eleito e por defender o programa liberal do titular. Seu objetivo era seguir com as passeatas e atos públicos até que se abrisse uma crise revolucionária.
José Dirceu partiu para cima da Convergência. Defendeu que a organização não tivesse vida independente e o seu jornalzinho semanal fosse proibido. “Quero ser secretário-geral do PT contra a palavra de ordem ‘fora Collor'”, repetia. No seu raciocínio, o partido deveria esperar até 1994, vencer as eleições e só então entrar no Planalto. Não deu outra: a direção do partido ficou com Dirceu, e milhares de trotskistas foram expulsos.
O PT tornou-se uma organização eleitoral. Arcary não guarda mágoa. “Dirceu optou por uma política e a defendeu com lealdade, sem dar golpes baixos”, disse ele. O PT não chegou ao poder em 1994 nem quatro anos depois. Empalmou o Planalto só em 2002, com José Dirceu na condição de hiperministro e candidato óbvio à sucessão de Lula.
As mutações de Dirceu e do PT não se deram num buraco negro a-histórico. O “big bang” do processo foi a queda do Muro de Berlim. Desmoronou o “socialismo real” (que de socialismo não tinha nada), com o qual boa parte da esquerda latino-americana cultivava relações ambíguas. Esboroaram com ele a via insurrecional para a tomada do poder e a perspectiva de revolucionar a sociedade.
A vaga eleitoralista, com a adoção de um programa palatável à ordem do capital, pôs em polvorosa a Frente Sandinista de Daniel Ortega, na Nicarágua, os Tupamaros de José Mujica, no Uruguai, e o PT de Lula e José Dirceu. Os três partidos deixaram de falar em socialismo até nos dias de festa, como mandava a etiqueta social-democrata. Vieram os showmícios.
Mesmo o róseo reformismo feneceu. Ele deu lugar às ditas políticas compensatórias, mais ao gosto dos poderes centrais. Não por acaso Obama disse que Lula era “o cara”, o “político mais popular na Terra”.
A transfiguração foi testemunhada por Frei Betto. Ele conheceu José Dirceu nos idos de 1968. Estudava antropologia na USP da Maria Antônia, teologia no convento dos dominicanos, nas Perdizes, e era repórter da “Folha da Tarde”, para a qual cobria o movimento estudantil. “Foi o ano em que não dormi”, disse-me Betto.
Conheceram-se melhor na ocasião em que o estudante se refugiou no convento. Aproximaram-se mais quando aderiram à Aliança Libertadora Nacional, a ALN de Carlos Marighella. A década de prisões e exílios os separou. Tornaram a se encontrar no início dos anos 1980. Por achar que a esquerda consistia de sabichões que queriam manipulá-lo, Lula a evitava. Mas gostava de Betto por ser frade e fazer parte da Pastoral Operária. Foi ele quem apresentou José Dirceu a Lula.
FOME ZERO
Os caminhos de Betto e Dirceu voltaram a se cruzar quando subiram a rampa do Planalto. O frei foi encarregado por Lula de construir o Fome Zero. Na sua concepção, o programa seria gerido em conjunto por técnicos do governo e pelos próprios beneficiários, que se reuniriam periodicamente. Ao longo de três anos, os favorecidos seriam treinados num ofício, passariam a trabalhar e prescindiriam da bolsa estatal.
Houve resistência de prefeitos de todo o Brasil. Eles queriam organizar o cadastro, de modo a parecer que concediam a benesse. Assim, poderiam encabrestá-los e cobrar votos. José Dirceu, que pelejava para aproximar o governo de políticos de todos os partidos, comprou a ideia. “Como era ele que controlava o orçamento do governo, durante dois anos Zé Dirceu nos deixou a pão e água, não destinou um real ao Fome Zero”, conta Betto. O frade reclamava com Lula, que lhe dizia que tomaria providências. Nunca as tomou.
O cadastro dos prefeitos foi instituído, o Fome Zero virou Bolsa Família, e Betto deixou o governo. “O que era uma política emancipatória virou uma política compensatória”, avalia o religioso. “Milhões de pobres continuam sem emprego, só que agora são consumistas.” A gênese do Bolsa Família está historiada em “Calendário do Poder” (Rocco, 2007), no qual relata de maneira crítica e desapaixonada como funcionou o primeiro governo Lula.
Mas nem o livro de Frei Betto dissolve o denso mistério das relações entre José Dirceu e Lula. Graças ao primeiro, o PT se tornou uma máquina eleitoral a serviço do segundo. Eles nunca deixaram entrever como se dava na prática a relação entre ambos. Observando de fora, percebe-se que Lula respeitava Dirceu, mas jamais o teve por mentor. Por sua vez, Dirceu nunca disse uma frase reveladora a respeito de Lula.
O máximo a que chegou foi resmungar “Lula, Lula, Lula” com a fisionomia contrafeita, quando lhe perguntei como ia o ex-presidente. Estávamos no seu apartamento na rua Estado de Israel, na Vila Mariana, em São Paulo. Víamos na televisão a transmissão de uma das sessões do Supremo Tribunal Eleitoral, que julgava o mensalão.
O imóvel não tinha nada de mais: dois quartos, mobiliário de hotel duas estrelas, sinal de internet capenga. Dirceu mencionou que o apartamento passara por uma reforma. Na acusação dos procuradores de Curitiba, revelada na semana passada, tal reforma foi paga por uma empresa acusada de corrupção.
LODO
Ao se preparar para entrar no Planalto, Lula disse a Dirceu que forjasse a aliança do PT com os partidos de aluguel para formar a base do governo. Dirceu foi contra, queria que o PMDB fosse o aliado preferencial. Mas cumpriu as ordens. A semente do mensalão germinou nesse lodo.
Mas o mensalão só floresceu com exuberância devido a uma particularidade nacional: o Brasil tem uma das campanhas eleitorais mais caras do planeta. Bilhões de reais trocam de mãos a cada dois anos. Há inúmeros motivos para isso: o peso da TV e da propaganda; a longa duração e despolitização da ditadura militar; a ausência de vida partidária consistente; as mazelas da educação básica; a importância do Estado na economia.
Essa dinheirama faz com que as eleições tenham se tornado uma forma de acesso a verbas estatais, manipuladas por partidos em benefício de empresas, com as empreiteiras e bancos puxando a fila. É um jogo de leva e traz com poucos perdedores. Nada impede que um candidato derrotado desvie para a própria conta parte do que lhe foi doado por empresários.
É virtualmente impossível que um partido chegue ao poder sem manter relações com grandes companhias, sejam essas relações promíscuas, de favor, comerciais ou decorrentes do tráfico de influência. O sistema não é exclusivo do PT e tampouco começou com ele. O pedágio político está disseminado porque a economia brasileira funciona assim há décadas.
José Dirceu prestou serviços a grandes corporações, da OAS à Ambev, da Camargo Corrêa à Parmalat. O que fazia para elas? “Faço estudos, prospecto investimentos, dou sugestões, participo de reuniões”, respondeu ele. Estávamos na sede da sua consultoria, a JD, num casarão com jeito de mal- assombrado ao lado do parque Ibirapuera. Os móveis eram esparsos, e várias salas estavam desertas. Argumentei que nada disso era propriamente trabalho, criação de valor. Ele insistiu que era, e o diálogo não foi adiante.
Pouco depois de escrever uma resenha que apontava a má-fé e dezenas de erros de uma biografia de Dirceu, fui convidado por ele a almoçar na sua casa de campo. Ela fica num condomínio aprazível em Vinhedo, no interior paulista. A consultoria voltou à baila. “Ajudo na criação de empregos de empresas brasileiras”, disse ele. Pode ser. Mas quem cria empregos recria a exploração dos fracos pelos fortes, aufere lucro e perpetua a desigualdade entre as pessoas.
Tarso Genro também esteve com José Dirceu, na casa de Brasília. Como as relações entre eles se deram apenas no PT, o ex-governador gaúcho não chegou a ter conhecimento íntimo da personalidade ou da vida pessoal do companheiro. “Eu o via como uma pessoa extremamente obstinada, que nunca demonstrou desejo de tirar proveito pessoal da sua atividade política”, disse-me Tarso. “Depois de mais de dez anos sem conversarmos, minha visita teve finalidade humanística. Encontrei uma pessoa bastante deprimida, mas com enorme vontade de voltar a viver normalmente.”
Foi outra a minha última impressão de Dirceu. Numa hora lá, ele se afastou e foi ao fundo do jardim. Parecia perdido, amargurado, sem saída. Mudara tanto que talvez não soubesse quem era. Exilado de si mesmo, escorava-se nos próprios restos, na sua ruína. Lembrava o poeta peregrino, improvável sombra florentina sob os mil sóis do Planalto Central.
A derrocada de um homem tem uma dimensão moral que a sociologia e a psicologia não alcançam. Mas a poesia pode fornecer imagens que propiciam o seu entendimento. No primeiro canto da “Divina Comédia”, Dante se depara com o leopardo, o leão e a loba na selva selvagem da vida.
O significado das bestas é matéria de debate entre eruditos desde a Idade Média. No caso de José Dirceu, o leopardo é a fraude, o leão, a soberba, e a loba, a incontinência, o deixar-se levar pelos sentidos mais prementes. Encurralado pelas três feras, ele desce agora ao fundo do inferno.
MARIO SERGIO CONTI, 60, é colunista do jornal “O Globo” e apresentador do programa “Diálogos”, da GloboNews.