Como a ida dos irmãos Weintraub para os EUA sela o esvaziamento do olavismo no governo

Pressão de militares e parlamentares contra comportamento explosivo de Abraham e Arthur e busca por pacificação têm feito governo minimizar influência da ala ideológica

Por Grasielle Castro e Isabel Fleck

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A transferência de Arthur Weintraub, que deixou o cargo de assessor especial da Presidência para assumir um posto de assessor em uma secretaria da OEA (Organização dos Estados Americanos), em Washington, nos Estados Unidos, acentuou a crise da ala ideológica no governo de Jair Bolsonaro.

Tanto que, no vídeo de despedida do assessor, Bolsonaro ressalta o papel que os Weintraub tiveram quando “ninguém acreditava na gente”. “Dois anos antes da eleição, o Arthur e seu irmão acreditaram na gente (…). E esse aqui (Arthur) teve uma participação muito grande no que fazemos hoje”, disse o presidente.

Fontes ouvidas pelo HuffPost afirmam que é essa a estratégia atual do governo: premiar integrantes do núcleo ideológico com cargos no exterior. Como diz o ex-aliado de Bolsonaro, o senador Major Olímpio (PSL-SP), “Bolsonaro não abandona soldado ferido”.

Esses interlocutores indicam que a guinada e mudança de pensamento no governo ocorreram no meio deste ano, após a escalada de tom dos representantes da ala ideológica, que culminou com a abertura dos inquéritos no STF (Supremo Tribunal Federal) para investigar a disseminação de fake news e a promoção de atos antidemocráticos.

O governo foi colocado contra a parede e, por pressão do Congresso, de ministros militares e até de ministros do STF, Bolsonaro encontrou um cargo em Washington para abrigar o então ministro da Educação Abraham Weintraub: diretor-executivo do Banco Mundial.

De lá para cá, o governo vem tentando se livrar do que pode representar brigas e problemas. Tanto Abraham quanto Arthur são conhecidos pelo comportamento explosivo e agressivo em discussões. Uma das fontes ouvidas pelo HuffPost também citou como marco da mudança a criação do Ministério das Comunicações e a escolha do parlamentar Fábio Faria para chefiá-lo. Com a criação dessa pasta, que agregou a Secretaria da Comunicação – tradicional abrigo de olavistas no governo Bolsonaro –, a frequência de atritos diminuiu.

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Segundo o interlocutor, que tem trânsito no Congresso, o novo ministro assumiu o cargo com defesa de um governo sem brigas. Para Fábio Faria, a postura pacificadora rende frutos ao governo.

Há um entendimento de que o conselho funcionou. Além do auxílio emergencial, a mudança de comportamento do presidente é também apontada como fator para aumento de sua aprovação. De acordo com pesquisa da XP/Ipespe, divulgada no último dia 14, mais brasileiros agora consideram seu governo ótimo ou bom (39%) do que ruim ou péssimo (36%).

Na rixa entre militares e olavistas, o primeiro grupo, que defende uma postura mais política do governo, acabou entregando resultado, com poucos conflitos. Outro exemplo citado é o do general Eduardo Pazuello no comando do Ministério da Saúde.

Há ainda destaque para a atuação do general Braga Netto na Casa Civil. Depois que ele assumiu o cargo que era de Onyx Lorenzoni, também próximo à ala ideológica, o relacionamento com o Congresso começou a melhorar.

Embate nas redes sociais

Para chegar a esse ponto de esvaziamento do olavismo, no entanto, houve uma série de confrontos com o a ala militar. Um dos primeiros embates públicos foi contra o ex-ministro Santos Cruz. A troca de farpas entre o general e Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, contou com a participação do ex-comandante do Exército general Villas Boas.

“Mais uma vez o senhor Olavo de Carvalho, a partir de seu vazio existencial, derrama seus ataques aos militares e às Forças Armadas demonstrando total falta de princípios básicos de educação, de respeito e de um mínimo de humildade e modéstia”, disse o general, em maio de 2019.

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À época, a influência da ala olavista foi capaz de derrubar Santos Cruz. Depois de um ano, o cenário mudou, e Olavo, agora, afirma que Bolsonaro “desistiu da luta ideológica”, mas segue com pressão contra os militares.

“Bolsonaro é excelente administrador da coisa pública, mas ele desistiu da luta que era no início o objetivo da sua vida política. Ele [Bolsonaro] disse isso. Ele disse aqui na embaixada que no início da sua vida política, o objetivo era a luta contra o comunismo. ‘Já deixou de ser, gente’. Ele nada está fazendo contra o comunismo”, disse Olavo de Carvalho.

Só na última semana, Olavo fez pelo menos duas postagens criticando os militares. Numa delas, compartilhou um vídeo que diz que as Forças Armadas são o “maior inimigo do país”. Na outra, escreve que “vários ministros do governo Bolsonaro, especialmente os militares” pensam que “o bolsonarismo é o pior dos crimes e tem de ser desarraigado a todo preço”.

“Eles querem salvar o presidente de toda contaminação com o discurso ideológico que o elegeu e que aliás, elegendo-o, deu a eles os cargos que ocupam. Talvez o próprio presidente já tenha se persuadido de que só pode sobreviver politicamente sacrificando aquilo que um dia ele alardeou como seu ideal supremo”, disse.

Tão longe da Esplanada, tão perto de Olavo

Se tirou mais um olavista da Esplanada, a acomodação de Arthur Weintraub em Washington jogou mais um para perto do guru do bolsonarismo. Agora, os irmãos Weintraub estão a menos de 2 horas de carro de Olavo de Carvalho, que mora na Virgínia.

Os dois, críticos do “globalismo”, também acabaram se rendendo ao sistema multilateral: Abraham no Banco Mundial, Arthur, na OEA. A concessão, aparentemente, valeu a pena, já que os irmãos conseguiram emplacar cargos na capital mais importante da diplomacia em todo o mundo.

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REPRODUÇÃO/ TWITTER
Os irmãos Weintraub em Washington: camisa da Portuguesa em homenagem a Bolsonaro e deboche sobre o uso de máscara.

Arthur foi direcionado para o cargo de secretário de Acesso a Direitos e Equidade, um posto dentro da Organização dos Estados Americanos, subordinado ao secretário-geral, o uruguaio Luís Almagro, de quem o governo Bolsonaro se aproximou.

Almagro, inclusive, foi reeleito em março para o posto, com o voto do Brasil. Ele e Bolsonaro se encontraram durante a visita do presidente brasileiro a Washington, em 2019, quando celebraram a afinidade nos duros posicionamentos em relação a Venezuela e Cuba.

REPRODUÇÃO/ TWITTER
Abraham Weintraub grava “aula” em frente ao monumento em homenagem a Thomas Jefferson, em Washington.

Arthur assumiu o cargo ocupado desde 2018 pelo também brasileiro Gastão Toledo, que foi assessor especial de Michel Temer na Presidência. Seu mandato deve ser de 2 anos – mesmo tempo que durará o mandato do irmão como diretor-executivo no Banco Mundial, se a indicação feita pelo governo brasileiro for referendada pelos outros países do grupo em outubro (Abraham entrou em agosto para terminar um mandato anterior, já que o posto estava vago, e precisará passar por nova eleição).

Os dois irmãos já começaram a postar fotos e vídeos juntos na capital americana. Abraham tem gravado vídeos em que percorre monumentos da cidade, em “aulas” sobre atores políticos históricos americanos.

Aparentemente, até agora, não fizeram uma visita ao seu guru na Virgínia, mas certamente não faltará oportunidade de encontro – até porque o futuro embaixador brasileiro em Washington, Nestor Forster, é amigo de longa data de Olavo de Carvalho, a quem apresentou o hoje chanceler Ernesto e Araújo e entregou a medalha Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco.

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