22 de junho de 2026

Como o advogado das delações arma as denúncias com a Lava Jato, por Gleisi Hoffmann

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Jornal GGN – A senadora Gleisi Hoffman mostra, em artigo, como eram feitas as manipulações de delações pelo advogado Figueiredo Bastos, acusado de vender proteção aos clientes contra a Lava Jato.

O submundo das delações premiadas          

Gleisi hoffmann

         A imprensa acaba de revelar algo que muitos já sabiam: há um abjeto submundo nas delações premiadas, uma verdadeira indústria. Não só nas delações, mas também em alguns silêncios premiados. Segundo a imprensa, o advogado Figueiredo Basto, pioneiro das delações, cobrava propina para garantir silêncio seletivo de seus clientes, manipulando depoimentos. Eu e Paulo Bernardo sempre denunciamos que somos vítimas destas manipulações. Explico em seguida.

         Antes, porém, cabe registrar a grande ironia disso tudo. Acusado por delatores premiados, Figueiredo Basto agora diz que a palavra de delatores não deve ser considerada. Em outros termos: advogado de delatores descarta a palavra de delatores. Seria a piada pronta, mas é o trágico retrato de um sistema judicial envenenado e partidarizado.

          Figueiredo Basto deve ter amplo direito de defesa para (eventualmente) desconstituir a palavra dos delatores. Daqui a alguns anos poderá provar que não é o achacador que hoje estão dizendo na imprensa. Aviso ao advogado que será um tempo de muita dor.

         Há quase quatro anos, Paulo Bernardo e eu fomos acusados falsamente  de pedir e receber dinheiro ilícito para uma campanha eleitoral. A notícia ocupou e ocupa ainda hoje enorme espaço na imprensa. O caso deve ser resolvido em breve pelo Supremo. O que há contra nós está (só e só) nas palavras dos delatores que eram clientes do agora delatado Figueiredo Basto.

         Alberto Youssef afirmou que Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás, teria recebido um pedido de doação de campanha diretamente de Paulo Bernardo. Youssef, o delator original da Lava Jato, é defendido por Figueiredo Basto. Youssef (do Figueiredo Basto) está, portanto, na origem da denúncia.

         A delação começou a ruir quando Paulo Roberto Costa – que tem outro advogado – desmentiu Youssef e negou que Paulo Bernardo tivesse solicitado qualquer doação de campanha. E negou em inúmeros depoimentos (incluídas duas acareações com o próprio Youssef). Até hoje não há ninguém que diga ter recebido, de Gleisi ou Paulo Bernardo, o pedido de dinheiro. No entanto, estão considerando no processo, até aqui, que possa ter existido a entrega.

         Neste ponto, Youssef (do Figueiredo Basto) disse originalmente que ele próprio havia entregado o dinheiro, em parcela única, a um emissário de Paulo Bernardo, o empresário Ernesto Kugler. Depois alterou a versão para sustentar que teriam sido várias entregas. Afirmava que Kugler, com este objetivo, teria estado em seu escritório em São Paulo. Investigados os registros, ficou demonstrado que Kugler nunca havia estado no escritório mencionado. E Kugler sempre sustentou que nunca recebeu nada de ninguém. Até aqui, portanto, não havia prova alguma do pedido ou da entrega de dinheiro.

         Youssef (do Figueiredo Basto) altera outra vez o depoimento (já estamos na terceira versão…). Diz que outros “auxiliares” teriam cumprido a missão de entregar o dinheiro. No entanto, os “auxiliares” indicados por Youssef, ouvidos pela Polícia Federal, negaram (nenhum era cliente de Figueiredo).

         A estória seguia órfã de um pedido e de uma entrega de dinheiro. É neste momento que aparece (mais de um ano depois denúncia) outro cliente de Figueiredo Basto: Antônio Carlos Pieruccini. Trata-se de um velho conhecido da Polícia Federal. Foi sócio de Youssef no famoso escândalo da Copel/Olvepar. À época, os dois – Pieruccini e Youssef – também foram defendidos por Figueiredo Basto (e ambos também delataram).

         Voltando à denúncia, fato é que Pieruccini (indicado na quinta versão de Youssef) afirmou que teria sido o responsável pela suposta entrega de dinheiro a Ernesto Kugler (que continuou negando). Aqui é importante uma pausa para tentar compreender o possível concerto de delações.

          No momento em que assumiu o papel de entregador, Pieruccini estava encrencado na Lava Jato. Havia sido denunciado pelo Ministério Público Federal como sócio e “laranja” de Youssef. Para complicar o caso, Pieruccini teria lavado dinheiro por intermédio de uma empresa que estava em nome das filhas. Havia uma nítida situação de oferta e demanda de delações a envolver dois clientes de Figueiredo Basto. Por tal razão, não tenho dúvida alguma, é possível afirmar que houve um concerto de delações.

         Há anos venho denunciando este concerto de delações.

         Pieruccini – que ao longo de todos os casos de Youssef ainda não havia sido apontado como “entregador” – assumiu-se responsável por uma entrega de dinheiro que nunca existiu. O depoimento de Pieruccini à Polícia Federal é ilustrado integralmente por elementos que já estavam no próprio inquérito (uma verdadeira engenharia de obra pronta). Mais do que isso, o depoimento é incrementado com fantasias inverossímeis, como o meu nome em etiquetas nos pacotes de dinheiro, o que nunca havia sido cogitado em nenhuma outra entrega de dinheiro por Youssef.

     Detalhe importante: Pieruccini disse ter recebido dinheiro de Rafael Ângulo, pessoa ligada a Youssef. Só que Ângulo negou. Detalhe não menos importante: Ângulo também não é cliente de Figueiredo Basto.

         A verdade é que estas falhas e contradições não importam. O concerto de delações foi bem exitoso para os dois clientes de Figueiredo Bastos. Youssef confirma a estória que andava órfã e Pieruccini “colabora” para livrar-se e salvar as filhas.

         Apesar do concerto, a acusação contra Gleisi e Paulo Bernardo claramente ainda não tinha a robustez necessária. Aqui entram em cena mais dois clientes do mesmo Figueiredo Basto, todos citados na denúncia do Ministério Púbico. Em estória desconexa e fora de contexto, Delcídio Amaral (do Figueiredo Basto) afirma que Paulo Bernardo seria um “operador” de Gleisi. Uma acusação de “ouvir dizer”. O ex-deputado Pedro Correa (do Figueiredo Basto) teria ouvido de Paulo Roberto Costa sobre o pedido de Paulo Bernardo de doação de dinheiro para a campanha. Faltou lembrar que, à época do suposto pedido, Pedro Correa estava cumprindo pena pela Ação Penal 470 (mensalão). Parece que o concerto de delações comandado pelo delatado Figueiredo nem sempre é tão cuidadoso. A imprensa agora também revela descuido na venda de silêncio por Figueiredo Bastos.

         O então Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (edição de 17/11/2014), afirmou textualmente que Figueiredo Basto tinha vinculações com o PSDB e com o ex-governador do Paraná, Beto Richa, sugerindo motivações eleitorais na movimentação do advogado. Sempre sustentamos isso. A acusação de Janot já autorizava supor que o fato de sermos do PT e adversários históricos de Richa tenha influenciado na condução das delações dos clientes de Figueiredo Bastos.

      O mais provável, no entanto, é que tenha havido neste caso (como em tantos outros, quem sabe) conveniente tráfico e concerto de delações. Se Figueiredo supostamente recebia dinheiro para manipular delações (dizem agora delatores), por que não as manipularia para ajudar outros clientes que o remuneravam ou agradar políticos amigos? Figueiredo ocupou cargos no governo Richa, mas não vamos acusá-lo apenas com base em delações.

         Se a motivação é incerta; a vítima é certa. As vítimas somos nós – que estamos há quatro anos respondendo a um processo ancorado exclusivamente nas delações concertadas do delatado Figueiredo Basto. Quantas vítimas o submundo das delações tem feito ao longo destes tempos difíceis? Um dia, em ambiente menos conflagrado, teremos uma resposta justa e verdadeira.

Gleisi Hoffmann é senadora (PT-PR) e presidenta nacional do PT

 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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10 Comentários
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  1. Zé Silva

    21 de maio de 2018 1:16 am

    Farsa-a-jato e Incriminações

    Farsa-a-jato e Incriminações premiadas!!!!

  2. Lucio Vieira

    21 de maio de 2018 1:27 am

    Isto que a coligação justiça/tucanos fazem é sim coisa de máfia

    de quadrilheiro periculoso. Pior para eles que muita coisa já está aprente agora. Quando mais adiante certos detalhes ficarem disponíveis, vai ficar às claras como funciona a quadrilha mais corrompida que atua no submundo do crime dos engravatados, uniformizados, servidores públicos porém amadores, hipócritas e desorganizados. As coisas aparecem porque entre bandidos não tem união, tem comparsas e interesses pontuais que na próxima esquina se esvai e o traseiro feio, fica depois à mostra pra todos verem.

  3. Jus Ad Rem

    21 de maio de 2018 3:56 am

    #

    Essas “delações premiadas” negociadas e orientadas por procuradores, juízes e delegados tucanos estão mais enlameadas que caranguejo no mangue.

    Enquanto isso a grande mídia ignora o fato e dá destaque ao casamento real na Inglaterra.

    País de bananas.

  4. G. Lima

    21 de maio de 2018 6:47 am

    Vamos com tudo Senadora ,
    Vamos com tudo Senadora , vice de Lula

  5. Sergio Vianna

    21 de maio de 2018 7:58 am

    Essa Lava Jato – e seus

    Essa Lava Jato – e seus métodos de delação premiada com soltura dos delatores, ainda que sem apresentação de provas – é uma máquina de moer gente.

    Desde sempre.

    Fico indignado quando alguém ainda diz que a Lava Jato é importante para o país. Como pode ser importante algo lastreado em tantas falcatruas e inconsistências, produzindo achacamento de pessoas sem nenhuma prova razoável, contando para isso com a valorosa ajuda das mídias de mega corporações para destruir pessoas adversárias políticas com tantas intrigas e vazamentos? 

    Que país é esse que ingênuos, incautos e estúpidos querem construir com base na mentira, na embromação, no uso continuado da máquina do Estado para destruir e humilhar reputações?

    No dia em que todos os delatados forem tratados como culpados até provarem suas inocências teremos uma Nação destruída de qualquer valor republicano. Aliás, esse tempo já chegou, porque é exatamente assim que pessoas são tratadas, declaradas culpadas por delação sem provas, são presas sem julgamento e levadas à essa máquina de moer gente sem nenhum pudor.

  6. José Ribeiro Jr

    21 de maio de 2018 1:04 pm

    O inferno astral de

    O inferno astral de Figueiredo Basto, começado no fim do ano passado, quando foi submetido a uma cirurgia de emergência no Albert Einsten e da qual vem se recuperando, parece ter apenas começado. Perdeu o Palocci – e uma provável montanha de dinheiro em honorários – para o advogado Bredas, que lhe passou a perna e assumiu a representação. Agora é alvo de delação dos doleiros presos pela Lava-Jato (do Rio de Janeiro, frise-se). Os tempos parecem difícieis para o criminalista defensor de Youssef gozar as delícias proporcionadas pelos 100 milhões de dólares (um Barusco) que o meio jurídico paranaense calcula que ele tenha amealhado com as delações da Lava-Jato paranaense.

    1. Renato Lazzari

      21 de maio de 2018 1:58 pm

      Pois é, ironias… O processo

      Pois é, ironias… O processo a que Lula reponde por terem oferecido a ele um terreno que ele não aceitou foi tirado de Curitiba porque o “crime” ocorreu sua outra jurisdição. Mas a corrupção da Lava Jato acontece em Curitiba. Será que Moro se declararia suspeito para julgar uma eventual Lava Jato da Lava Jato?

  7. Renato Lazzari

    21 de maio de 2018 1:52 pm

    Ironias:
    advogado que

    Ironias:

    advogado que trabalha com delaçõs diz que delação não vale nada

    criada para combater corrupção, Lava Jato é antro de corrupção

    Parafraseando Leandro Karnal, adepto de Antístenes, a pessoa que acredita que a Lava Jato vai acabar com a corrupção é uma pessoa feliz

    (***)

    E se fosse apenas no Brasil que as pessoas comuns assistem à destruição das instituições estatais pela força do dólar privado e seguem felizes, estaria de bom tamanho. Mas na “Wall Street” e na “City” de Londres os “occupies” apenas as ocupam. Naomi Klein e Michael Moore seguem fazendo suas denúncias, o pessoa sai do cinema e volta para casa “que amanhã tenho que trabalhar”. Israel segue com seu genocídio. Os EUA bombadeiam a Síria com um “Big One” ou com chuva de mísseis e… tudo bem, segue bombardeando.

  8. Mariza borges

    21 de maio de 2018 5:23 pm

    Essa indústria da lava jato
    Essa indústria da lava jato tá enriquecendo o Moro,DD e sua turma enquanto blinda o PSDB totalmente.

  9. João de Deus

    22 de maio de 2018 2:26 pm

    Máfia do Judiciário

    A triste constatação é que o sistema Judiciário brasileiro transformou-se numa organização criminosa. Por estar acima da Lei, já que a abominável Cármen Lucia transformou o CNJ num sindicato de magistrados, eles fazem o que querem com o apoio dos demais membros da quadrilha instalados na grande imprensa e no empresariado.

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