Israel: um equívoco bíblico e geopolítico.
por Marcio Valley
Por respeito aos leitores, aviso, antes que iniciem a leitura, que o texto é longo, mais até do que costumam ser meus textos. Confesso ser incapaz de escrever poucas linhas sobre temas que considero complexos. Ao iniciar um texto, tenho um tema como alvo, mas não planejo a sua extensão. Porém, com raras exceções, acabam se alongando mais do que parece ser admissível nos tempos tuiterianos. E, para piorar, a cada leitura de revisão o texto mais se alonga do que reduz. Então, para os que preferem os textos ou vídeos curtos de BlueSky, X, Instagram ou Youtube, não recomendo a leitura. Provavelmente será considerada cansativa e talvez aborrecida. Para os que não se importam com isso ou os que preferem textos longos (sim, eles existem), espero que apreciam a leitura, que, como já sugere o spoiler do título, será sobre Israel.
Dito isso, passo ao tema.
O Estado soberano moderno é constituído por três elementos fundamentais, povo (ou nação), território e governo. Em síntese bastante apertada, e via de regra pois existem exceções, o conceito de nação exige a presença de identidade histórica, linguística, social e cultural, bem como, mas não necessariamente, religiosa e de ancestralidade, já que, em geral, a luta por autonomia política depende de um sentimento coletivo de pertencimento em um grau elevado, que, ao menos em princípio, somente é capaz de ser atingido pelas forças agregadoras de um passado comum.
Território é o elemento puramente geográfico, ou seja, é o local no qual o povo se estabelecerá após a conquista da autonomia e sobre a qual exercerá sua soberania. Pode estar vinculado à ancestralidade do povo, ou seja, tratar-se do local de origem da pessoa e de seus ascendentes, mas isso não é condição sine qua non. A vontade de alcançar a autodeterminação coletiva em território independente, seja onde for, pode ser mais importante do que manter a visão das colinas da infância. Inclusive, a desnecessidade de que o Estado soberano seja criado sobre um território vinculado ao passado do povo é um elemento importante que será considerado na presente reflexão.
Por fim, governo é a instituição administrativa do Estado que exerce o poder político e possui a finalidade de planejar e executar a distribuição dos recursos escassos.
Existindo esses três elementos (povo, território e governo), a autonomia coletiva ou a soberania surge a partir de dois métodos históricos principais, que podem ser utilizadas isolada ou conjuntamente: força bruta e negociação política interna e/ou externa.
A presente reflexão é sobre o processo de formação de um Estado soberano relativamente recente, Israel, que conta apenas setenta e oito anos. Refletir sobre Israel se justifica pelo relevante fato de que, desde sua criação, tornou-se um grave fator de desestabilização política mundial. Os problemas daí decorrentes não preocupam somente a Palestina ou Israel, mas o mundo. Não se trata de apontar culpas, mas de entender que, desde sua gênese, a criação de Israel num território milenarmente ocupado por vários povos distintos, sem ponderações sobre as vontades coletivas de cada um deles, passou a provocar turbulências políticas e econômicas severas que são suportadas, em maior ou menor grau, por todas as pessoas do mundo, saibam elas disso ou não.
A instabilidade política da Palestina reflete na paz social e na economia mundial por diversos motivos, como as políticas armamentistas adotadas para suportar guerras locais em diversas partes do mundo, guerras essas cujas ondas de reflexão acabam elevando preços mundo afora, não somente em função dos gastos militares dos países envolvidos, como também pela redução da produção ou dificuldades logísticas que guerras costumam provocar. Paralelamente, os simpatizantes de um lado e de outro estressam suas respectivas sociedades com manifestações e ações, algumas de natureza terrorista, de apoio às causas em conflito, aqui sem entrar propriamente no mérito valorativo dessas ações e manifestações.
Nesse momento, é difícil que alguém não se dê conta disso, dadas as consequências geopolíticas, humanas e econômicas provocadas pelos ataques de Israel e EUA ao Irã e pelas respostas desse último a tais ataques, como o fechamento do Estreito de Ormuz. Uma das causas dessa guerra, possivelmente a mais importante, é a presença de Israel na Palestina.
Ainda que diversos autores de artigos de opinião muito mais competentes já tenham escrito sobre essa questão, considero que alguns pontos que inicialmente podem parecer desimportantes, mas de modo nenhum o são, não estão sendo abordadas adequadamente.
Como exemplo, tem-se a questão da invocação de suposto direito ancestral de Israel ao território palestino, fundamento que não é criticado com o vigor que deveria ser. Suponho que a falta de abordagem dessas questões ocorra por lucidez e prudência desses autores, já que envolveria a exposição de ideias e pensamentos mais próximos do pensamento ilusório ou da utopia do que de uma análise concreta sobre as possibilidades reais permitidas pela geopolítica. Apesar disso, por entender que o pensamento utópico é uma necessidade civilizatória, pois é através dele que a sociedade humana pode chegar mais longe do que seria capaz se não perseguisse o inatingível, deixo de lado a prudência intelectual para ousar expor meus, em princípio, delírios utópicos. Muita coisa já foi considerada inatingível por longo tempo até ser finalmente alcançada.
Então, passemos ao tema.
Israel é criado a partir da ideologia do sionismo, movimento judaico iniciado em meados do século XIX, que contou e conta com apoio principalmente do Reino Unido e dos EUA. O sionismo surge como contraposição ao antissemitismo europeu, que é entendido como preconceito dirigido somente contra os judeus e não a todos os povos semitas, muito embora se saiba que árabes e muçulmanos, também semitas, eram e são igualmente discriminados pelos europeus. O antissemitismo fez surgir no povo judeu a ideia bastante razoável de que sua sobrevivência dependeria da criação de um país judeu. O problema não se encontra na ideia em si, que surgiria naturalmente em qualquer grupo sujeito a discriminação e perseguição, mas no modo de realização. O tema será alongado adiante.
Inicialmente, ainda no alvorecer do século XX, o sionismo se ativou intensamente na compra de terras palestinas através do Fundo Nacional Judaico, criado com esse propósito. As terras adquiridas eram doadas aos judeus que para lá migrassem. Uma enorme quantidade de terras foi assim adquirida, a tal ponto que, rapidamente, os judeus se tornaram os maiores proprietários de terras da Palestina.
O fundamento básico da necessidade de criação de Israel na Palestina, e não em outro local qualquer, é, pelo lado do sionismo, o direito ancestral determinado pelas Escrituras Sagradas e, pelo lado da ONU, a premência da alocação do povo judeu em território próprio autônomo como resposta ao antissemitismo, fio condutor do Holocausto, tendo escolhido a Palestina porque era da vontade dos judeus e também por ser um local de fácil apropriação, pois a região era controlada, então, pelo Reino Unido, país simpático à causa sionista. Portanto, no fundo, o fundamento é bíblico.
Porém, cabe perquirir se a Bíblia de fato apoia a tese sionista de que os judeus possuem direito ancestral à Palestina. A investigação dessa indagação depende, primeiramente, da suposição que a justificativa bíblica utilizada pelos sionistas é sincera. Essa suposição servirá apenas para efeito de interpretação de caso, esclarecendo desde já não acreditar nessa sinceridade no caso de Israel, mas não somente nesse caso. Tenho por base elementar de raciocínio o princípio geral, que pode ser desconstruído por elementos casuísticos contrários, mas dificilmente o são, de que as ações de alguns setores da sociedade humana, como multimilionários e sacerdotes, apenas para ficar nesses exemplos, são contrárias aos interesses coletivos, pois utilizam os respectivos poderes (no exemplo dado, poder econômico e temor reverencial, respectivamente) para atender seus próprios interesses individuais ou corporativos, os quais dificilmente são idênticos aos do povo em geral.
Esse princípio, que reconheço ser um pré-conceito, tem por base a experiência histórica, que o comprova amplamente. Supor previamente que um leão na selva vai atacá-lo somente por ser um leão é um pré-conceito, mas de modo nenhum está errado. Como diz o conto, depois da carona o escorpião picará o sapo e se desculpará, alegando ser essa a sua natureza. Respeito as opiniões contrárias, mas, ainda assim, mantenho o conselho de acautelamento quanto às ações de leões e escorpiões, assim na selva como nas cidades.
No que toca especificamente às ações sionistas, a desconfiança principiológica de fundo é pertinente a toda e qualquer ação humana praticada contra pessoas e povos em nome dos desígnios de um deus ou religião, qualquer que seja. Seguindo essa máxima, meu primeiro impulso de entendimento é sempre pela condenação desse tipo de ação. Até hoje, nunca aconteceu de voltar atrás, mas, quem sabe…
Em paralelo, a análise do texto bíblico deve focar em sua literalidade e não em intenções divinas ou interpretações sacerdotais, relevantes somente para os crentes que não aprenderam com Lutero e dispensam formar pensamento próprio sobre a palavra dita sagrada. Não é razoável que as narrativas contidas em textos sagrados de qualquer mito ou religião sejam consideradas verdades estabelecidas, nem mesmo pelos crentes. Ante uma pletora de textos sagrados de centenas ou milhares de religiões e seitas distintas, com mitos de origem diferentes e declarações distintas sobre os mesmos fatos e comportamentos humanos, seria impossível obter qualquer verdade não comprometida pela fé, que por natureza é completamente irracional.
Aliás, tenha forte convicção, em relação aos crentes, de que a maioria deles não acredita sinceramente em verdades sagradas ou dogmas religiosos, servindo-se somente do conforto emocional que emana do elemento agregador, do sentimento de pertencimento, que resulta da participação em coletivos humanos, com destaque para os religiosos. Há mesmo quem defenda que grande parte dos mais elevados sacerdotes, como bispos, cardeais, papas, aiatolás e outros, depois de muitos anos de estudos teológicos deixaram a fé para trás, mantendo-se na religião exclusivamente pela importância social e política que, com razão, nela vislumbram ou em função do fascínio pelo poder e status de que gozam nas respectivas posições.
Deve ser considerado, ainda, que a antiguidade de textos não lhes confere, por si só, presunção de legitimidade ou de veracidade sobre as narrativas que contêm. Fosse assim, teríamos que considerar historicamente verídica a Odisseia de Homero, o que sabidamente não é, tratando-se de pura ficção que utiliza elementos da mitologia da época. Aliás, na época nem era mitologia, era religião praticada. Afinal, mitologia é a religião que já morreu e religião é a mitologia que ainda vive.
Deve ser levado em conta, também, ser bastante comum escritores utilizarem o cenário político e social de seu próprio tempo, inclusive no que toca aos fatos considerados verídicos ou históricos em suas épocas (ainda que não sejam), como pano de fundo de suas ficções, como já apontei no caso de Homero. Um exemplo de fato que era considerado verídico em épocas antigas, mas que efetivamente não era, é a lenda de Atlântida, que, de clara alegoria formulada por Platão, passou a ser considerada verdade histórica por escritores desavisados do passado. Há os que estão em busca de Atlântida nos dias de hoje, nas proximidades de Gibraltar, como apontado por Platão, ou até em outros mares. Basta a descoberta de uma nova construção megalítica submersa e, pronto, é Atlântida, que já deve ter sido “descoberta” uma centena de vezes.
Na literatura atual, Ken Follett é exímio ao situar suas ficções em fatos históricos absolutamente estabelecidos, conferindo-lhes uma camada de veracidade de tal ordem que pode fazer parecer ao leitor desavisado que tudo ali é histórico. Os romances “Os Pilares da Terra” e sua sequência, “Mundo Sem Fim”, contam exatamente, tintim por tintim, a história inglesa ocorrida a partir do século XII, quando a legitimidade para o trono real foi contestada por dois sucessores e conduziu a nação a uma guerra civil que durou quase vinte anos. Seus personagens encontram-se inseridos nesse contexto e lutam nessa guerra pelo trono, mas são, claro, ficcionais.
Com idêntico brilho intelectual, pode-se apontar Umberto Eco, nos livros “O Nome da Rosa”, “Cemitério de Praga”, “Número Zero” e outros. O “Cemitério de Praga”, por exemplo, é um livro admirável no qual praticamente tudo que é narrado em suas quase quinhentas folhas é histórico. Uma exceção óbvia é o personagem principal, cujo papel é interligar, através dos atos por ele praticados, os fatos históricos que são descritos e que, no plano da realidade, são, em princípio, independentes entre si (ou talvez não, sabe-se lá que conhecimentos históricos Umberto Eco possuía que nos são sonegados).
Um degrau abaixo na descrição histórica, porém de forma bastante competente, estilosa e atraente para o leitor, Dan Brown faz quase o mesmo ao narrar as aventuras de Robert Langdon na sequência “Anjos e Demônios” (cujo título mais famoso é “Código Da Vinci”), ao inserir em sua narrativa ficcional a história real da arquitetura e dos objetos iconográficos que integram seus romances. No Brasil, embora infelizmente ainda não o tenha lido (porém pretendo fazê-lo), Jô Soares aparentemente trilhou essa mesma senda em “O Xangô de Baker Street”.
Caso a sociedade atual sucumbisse e tais escritos fossem redescobertos por uma sociedade do futuro, daqui a uns mil anos, é muito possível que fossem interpretados integralmente como narrativas da realidade. Ainda que assim não fosse, muitos fatos neles descritos efetivamente são históricos e o pesquisador do futuro deles poderia lançar mão para construir uma imagem bastante aproximada sobre a realidade de nossos tempos.
Por tudo isso, não deveria provocar perplexidade alguma o fato de que Antigo e Novo Testamente contenham elementos fáticos que, adotadas as devidas cautelas, são considerados verídicos por arqueólogos e historiadores, embora esses mesmos livros, assim como as ficções de Ken Follett ou de Umberto Eco, não possam de modo nenhum ser considerados documentos puramente históricos. Sim, existiu um rei Herodes na Palestina em determinado momento, que, diga-se, não era judeu de nascimento e era um capitão do mato nomeado por Roma, mas disso não decorre necessariamente a prova de que houve o massacre dos primogênitos ou que a existência de Jesus é histórica.
Especificamente ao que aqui nos interessa, que são as menções da Bíblia à Palestina, importante salientar que as denominações utilizadas, Canaã, Judeia, Palestina e Israel, referem-se em essência a locais específicos comuns à mesma região territorial do Oriente Próximo, situada entre o mar Mediterrâneo e o vale do rio Jordão e limitada ao norte pelo Líbano e ao sul pela península do Sinai, que novamente pertence ao Egito (após sua indevida apropriação por Israel). Tudo isso é Palestina.
Sobre ela, nos conta a Bíblia que, muitos séculos antes da chegada dos judeus e, portanto, do nascimento de Cristo, aquela terra já era habitada por pessoas pertencentes ao povo semita, mas não hebreus. A história bíblica narrada no “livro sagrado” de Deuteronômio corrobora o entendimento de que os hebreus chegaram naquelas terras quando outros povos semitas já a ocupavam há longo tempo. Esses antigos semitas compunham a população de diversos povos aparentados, dentre eles os próprios hebreus, mas também, árabes, assírios, fenícios, acadianos, caldeus e diversos outros, todos vinculados genealogicamente a povos protossemitas com origem na península arábica. Em outras palavras, palestinos e semitas significam, essencialmente, a mesma coisa, sendo os hebreus, ou judeus, apenas um dos diversos povos palestinos históricos. Todos habitavam a Palestina e, com base meramente nas respectivas histórias de ocupação, possuem o mesmo direito territorial originário que os judeus invocam somente para si ou talvez até melhor direito, pois consolidado ao menos quatrocentos anos antes da chegada dos judeus e mil e seiscentos anos depois da partida deles, como se verá logo adiante. Fosse uma ação de reconhecimento de usucapião, nenhum juiz teria dúvida quanto à real titularidade da terra.
Segundo o relato bíblico, o Deus do pleno amor e da absoluta compaixão determinou expressa e literalmente que os hebreus, depois de mais de quatrocentos anos afastados ante a escravidão no Egito (repito: mais de quatrocentos anos fora da Palestina), tomassem a Terra Prometida dos povos lá existentes (repito: dos povos lá existentes) e dela se apropriassem do modo mais sanguinário possível, com destruição total de tudo e de todos, sem alianças e sem piedade, não deixando com vida nada que respirasse, ou seja, matando os habitantes dos povos semitas originários que já ocupavam aquele território (heteus, girgaseus, amorreus, cananeus, ferezeus, heveus e jebuseus), inclusive mulheres, crianças e até seus animais.
Ao contrário das cinco cidades do vale de Sidim (Sodoma, Gomorra, Zebolim, Admá e Zoar), cuja completa destruição e morte de todas as respectivas populações foi determinada por Deus, o que obviamente inclui suas crianças (pois nunca existiu uma única cidade sem crianças no mundo, muito menos cinco ao mesmo tempo), no caso da Terra Prometida a Bíblia não indica que esses povos massacrados eram pecadores por razões comportamentais de moralidade, mas somente infiéis. Portanto, trata-se de um genocídio injustificável mesmo sob a ótica religiosa, com puro propósito material de roubo de território sob beneplácito divino, servindo o motivo de crença (ou ausência dela) apenas como desculpa para a expropriação de terras de seus proprietários consolidados a fim de transferi-las aos invasores recém-chegados (os hebreus).
Apenas a título ilustrativo, acrescento que os dois genocídios apontados (das cinco cidades e para a conquista da Palestina), ainda que muito graves e injustificáveis, são pura ninharia perto daquele proporcionado pelo Dilúvio, que alcançou o mundo inteiro e não poupou nada e ninguém, salvo a família de Noé e um casal de cada animal. Não exterminou somente todos os homens, mulheres e crianças, mas não poupou sequer animais e plantas. Na visão de Deus, todos foram considerados graves pecadores e condenados ao extermínio. Plantas pecadoras, animais pecadores e crianças pecadoras, que mundo horrível era a Terra naqueles tempos. Bem, Ele escreve certo por linhas tortas, mas, nesse caso, bota tortas nisso…
Abro outro parênteses aqui para deixar claro que não acredito em nada disso, apenas faço um relato, necessário ao tema, do que consta literalmente da Bíblia. E não há espaço para afirmações do tipo “são metáforas” ou “são alegorias”. Ao longo dos séculos e até pouco tempo atrás, milhares e milhares de pessoas foram presas, torturadas ou mortas por heresia, ou seja, por ousarem discordar da literalidade do texto bíblico, tido como a inarredável palavra escrita diretamente por Deus, ainda que através de profetas. Quando as “verdades” bíblicas que perduraram por milhares de anos começam a ser superadas pelo conhecimento humano, surge convenientemente a tábua de salvação religiosa representada pela “alegoria”. Isso abre espaço para um retorno a tempos pré-Lutero, nos quais somente valia a palavra do sacerdote, suficiente inclusive para a condenação física ou espiritual. Obviamente, seria dele, e não de qualquer um do rebanho, a incumbência de separar alegorias e metáforas, conferindo-lhes as devidas interpretações, das determinações literais de Deus em relação a cada um dos incontáveis relatos e recomendações bíblicas. Em paralelo, os que advogam a tese das “alegorias” estão afirmando que passamos, num piscar de olhos, de um Deus de pura clareza, que disse verdades literais que deveriam ser respeitadas por todos sob pena de condenação eterna no inferno, para um Deus de charadas e mistérios que dita verdades alegóricas e metafóricas que devem ser entendidas segundo o tempo e a visão de mundo de cada intérprete. A prevalecer isso, tem-se que encarar o problema dos milhares de condenados por heresia que, infelizmente, nasceram no tempo errado, quando a natureza da verdade divina era outra, menos sujeita a interpretações subjetivas. Há de ser perquirido se continuarão a penar no inferno ou se a nova interpretação retroagirá para salvá-los da condenação eterna.
Voltando ao tema, a narrativa bíblica da Terra Prometida enseja a percepção de que a motivação religiosa subjacente e talvez até subconsciente para a atual mortandade impiedosa de palestinos promovida por Israel, que horroriza o mundo, é a aprovação direta do colérico Deus de judeus e cristãos. Ora, está na Bíblia que a Terra Prometida é deles e de mais ninguém e que para garantir sua posse eles podem exterminar tudo o que respira, anda, rasteja ou voa, inclusive doentes em hospitais e crianças em creches.
É inacreditável (na acepção literal), mas, depois de cada explosão provocada pelos israelenses que mata inocentes, há sempre um terrorista escondido nos locais explodidos, seja debaixo das macas, dos leitos de hospitais, das carteiras estudantis ou dentro das ambulâncias. Então, não tem jeito, os inocentes israelenses se sentem na obrigação divina de matar crianças, mulheres (inclusive grávidas), doentes, pessoas com deficiência, idosos e jornalistas, na quantidade que for necessária para garantir a existência de Israel. Se houver um único terrorista no local, desarmado, ferido e assustado que esteja, Israel encontra justificação para bombardear, ferir e matar quantas pessoas inocentes estiverem no local, seja uma, dez, cem ou milhares.
No paroxismo da interpretação israelense do que seja ameaça existencial capaz de autorizar o massacre de populações consideradas hostis, todas as pessoas do mundo fora de Israel poderiam ser por eles exterminadas caso um fórum geopolítico multilateral como a ONU decidisse que a criação de Israel foi um equívoco e, portanto, deve ser revista. Isso porque a “ameaça existencial”, na ótica sionista, não se refere à integridade física e/ou à vida dos cidadãos israelenses, mas simplesmente ao perigo de Israel deixar de existir como país autônomo.
O tema não é fácil, sei disso. Nenhum brasileiro verdadeiramente patriota (e não os que assim se afirmam, vestem a camisa da seleção, mas entregam o país a um notório predador militarmente poderoso, como os EUA) gostaria de ver o Brasil deixando de ser um país soberano. Porém não é razoável entender que a manutenção de uma existência nacional seja tão relevante a ponto de justificar massacres desproporcionais às consequências efetivas de eventuais ataques sofridos, muito menos que isso autorize tragédias humanas ao ponto de caracterizar genocídio ou com dimensões de ordem mundial. Minha condição humana, muito mais do que a brasileira, impede-me de compactuar com um ataque de míssil a uma escola infantil em comunidades pobres, com centenas de alunos, cuja finalidade seja matar perigosos “terroristas” do tráfico que a tivessem tomado para utilizar as crianças como escudo humano. Que as negociações demorem meses, mas que nenhum tiro seja disparado que ameace a vida de uma só das crianças.
Resolva essa questão você mesmo, leitor, com seus próprios valores principiológicos, mas tenha a honestidade intelectual de demonstrar suas intenções puras colocando o seu filho, neto ou qualquer outro ser amado na condição da pessoa que está servindo como escudo humano. Se o leitor for mentalmente são e movido pela alteridade, tenho poucas dúvidas de que, no final de seu raciocínio, não concordará com o disparo do míssil e concluirá que o culpado por eventuais inocentes mortos por um míssil militar será, sempre, quem autorizou o disparo do armamento tendo prévia ciência de que mataria inocentes .
É de uma estupidez colossal, reveladora de uma personalidade impiedosa, sem empatia e sem remorso, portanto, narcisista, psicopática e longe de ser sã, a ideia de colocar a culpa pelas mortes de inocentes no “terrorista” (entre aspas porque em grande parte desses eventos isso é pura mentira, não havia terrorista algum) e não em quem dolosamente direcionou o míssil para tais locais. Aliás, o terrorista que coloca inocentes na condição de escudo, apesar de todo o horror e covardia sem dúvida alguma presentes nessa sua atitude, demonstra uma personalidade mais empática do que a de quem dispara o míssil, pois isso demonstra sua confiança em que o inimigo terá senso de humanidade e não assassinará friamente inocentes.
Recentemente assisti a uma série na qual o personagem principal se deparava com o seguinte dilema: para cessar a maldição que pairava sobre todos os habitantes de sua cidade, ele deveria matar o último descendente de uma linhagem que se estendia por trezentos anos, que vinha a ser uma velhinha muito simpática e de quem ele gostava bastante. Movido por cálculos de pura racionalidade e utilitarismo, decidiu, com muito pesar, matar a velhinha. Contudo, ao chegar à casa da velhinha, que nada sabia sobre sua própria linhagem genealógica, manteve com ela uma conversa amistosa pré-assassinato, da qual resultou saber que ela, secretamente, teve uma filha que deu para adoção a outro casal e que, adulta, veio a ser a esposa do personagem principal, já falecida, com quem tivera um filho. Assim, seu filho e não a velhinha era o último descendente vivo daquela linhagem. Ao saber disso, imediatamente toda a racionalização utilitarista da necessidade de execução veio abaixo. Ele não mataria o próprio filho.
Esse é o tipo de racionalização imbecil produzida por quem defende a mortandade de inocentes em nome de uma vingança, que é do que realmente se trata quando se fala em “resposta” de Israel a ataques palestinos. Se não é comigo ou com quem amo, então pouco importam as consequências. Não há quem honestamente possa acreditar que um míssil israelense atingiria um hospital se nele estivesse internado o filho ou o neto de Netanyahu, de seu aliado Trump ou mesmo de um inimigo poderoso como Putin, ainda que fosse absolutamente certa a presença de terroristas nesse mesmo hospital. Essas pessoas certamente não seriam vistas pelos israelenses como empecilhos descartáveis, que é como enxergam os palestinos.
Enfim, horrores à parte, o fato é que, como visto, o direito ancestral invocado pelos judeus para a ocupação da Palestina não encontra amparo na Bíblia. Descartada a circunstância mítica de que Deus lhes prometeu a Terra Prometida, que é relevante apenas para quem crê nisso, no que toca ao aspecto fático da ocupação da Palestina que nela é narrada, a notícia bíblica é de que outros povos semitas não-judeus já habitavam a região anteriormente a eles.
E, na verdade, trata-se de fato histórico comprovado. Aqueles povos semitas originários, inclusive árabes, já habitavam a região antes dos hebreus e nela permaneceram no tempo posterior a Cristo e até os dias atuais, enquanto a maior parte dos hebreus de lá saiu e se espalhou pelo mundo, por vontade própria ou para fugir de perseguições dos conquistadores (diáspora), principalmente a partir do ano 70 EC (era comum ou depois de Cristo) com a ocupação romana e segunda destruição do Tempo de Salomão.
É verdade que judeus sempre permaneceram no local, mas em proporção bastante reduzida em relação ao povo árabe em geral. Do século V em diante, a população judaica passa a ser consistentemente minoritária na região. Estamos falando de mais de mil e seiscentos anos de população árabe majoritária na Palestina. A partir dessa época e até o início do século XX, houve convivência pacífica entre árabes e judeus na Palestina e não houve perseguição árabe à população judaica, embora extremamente minoritária. Essa situação perdurou até o final do século XIX e início do século XX, quando apenas quatro por cento da população da região era composta por judeus. Tal panorama somente começa a mudar em 1917, com a queda do Império Otomano e o advento do sionismo.
As ações sionistas provocaram, como por elas planejado, o aumento progressivo da população judaica na Palestina. Isso tampouco é problema, pois a mera migração humana não deveria provocar nenhum tipo de reação em ninguém. O problema passa a existir quando o migrante passa a se enxergar, não somente como dono privilegiado da terra que o recebeu, com direito superior ao povo que sempre a habitou, mas como tendo o direito de expulsá-lo de lá.
O crescimento da população judaica na região foi tamanha que, atualmente, com mais de sete milhões de pessoas, é superior à palestina, que conta com menos de seis milhões de pessoas.
É bastante sintomático que, no mesmo período, a população árabe tenha crescido em proporção muito inferior à dos israelenses, a ponto de uma pequeníssima minoria da população total (4%) no início do século, ter superado em população um povo que tinha mais de 90% da população. O fenômeno encontra explicação parcial na migração sionista e na taxa de fertilidade das israelenses, maior que a de muitos países (média de três filhos por mulher). Porém, não explica tudo, existindo quem advogue se tratar do resultado de um extermínio metódico, planejado, dos palestinos, praticado ao longo do tempo pelos israelenses sob a desculpa de “ameaça existencial”.
Imagino que o leitor, ciente das batalhas entre israelenses e palestinos desde a década de 1940, e da disparidade acentuada na quantidade de mortos e feridos de cada lado, e também das condições degradantes de vida a que se submetem os palestinos por conta das restrições impostas por Israel, inclusive quanto ao fornecimento de água e acesso a alimentos, assistência médica e medicamentos, possa chegar a uma conclusão própria.
No início, o sionismo não se preocupava muito com a localização geográfica destinada ao povo judeu. Importante era ter um país para chamar de seu. Então, qualquer local seria bom para criar a nação judaica. Assim, poderia ser no Texas ou no Saara. Falarei mais sobre isso à frente.
Com o tempo, contudo, por convicção fundada na Bíblia, consolidou-se a ideia, aí sim muito equivocada, de que os judeus tinham direito às terras da Palestina, nelas incluídas as de Jerusalém.
Enquanto existiu, o Império Otomano controlava a região e impediu o sionismo de avançar. Todavia, os britânicos assumiram o controle em 1922, após a queda dos otomanos na Primeira Guerra. Tratando-se de aliados dos judeus, inclusive tendo emitido a Declaração Balfour ainda durante a Primeira Guerra, documento oficial de apoio do Reino Unido ao projeto sionista, finalmente o sionismo viu-se com condições materiais e políticas para a concretização de seus ideais máximos.
Em 1947, pressionada pelos horrores do Holocausto, a ONU propõe uma recomendação para a divisão do território palestino entre árabes e judeus, sendo 55% para a minoria judaica (naquela época) e 45% para a grande maioria árabe. A proposta foi aprovada por 33 países que compunham a Assembleia Geral das Nações Unidas, com 13 votos contrários e 10 abstenções, tornando-se sua Resolução nº 181. Com base nela, Israel declara sua independência em maio de 1948, inicialmente seguindo a divisão territorial proposta pela ONU, que previa a maior fatia do território para si.
Os conflitos palestino-israelenses se iniciaram imediatamente em seguida a essa declaração de independência. A Primeira Guerra Árabe-Israelense ocorreu entre 1948 e 1949. As escaramuças nunca mais cessaram e jamais houve paz entre palestinos e israelenses.
Logo no início da criação do país, e por conta dessas guerras, Israel logrou aumentar a sua fatia territorial inicial de 55 para 75% da Palestina, violando a divisão promovida pela ONU.
Por outro lado, o estado palestino, igualmente previsto pela ONU, jamais se materializou; seu território passou a ser aquilo o que Israel permite ser, o que, substantivamente, significa que as terras palestinas são somente aquelas ainda não invadidas pelos colonos israelenses. Todas as invasões de terras dos palestinos por israelenses são asseguradas permanentemente pelo governo de Israel. Nas poucas ocasiões em que voltaram atrás, não foi por ato de vontade, mas por pressão internacional.
O fato é que, desde o início, os judeus são vistos pelos árabes como invasores hostis das terras por eles ocupadas e é bastante difícil se posicionar, de forma intelectualmente honesta, contra esse sentimento. Supondo-se uma situação idêntica, na qual a ONU ou alguma potência mundial desse apoio à devolução dos territórios indígenas ocupados por espanhóis ou britânicos nas Américas, invocando o direito originário, não se encontraria quem apoiasse. E são “apenas” quinhentos anos de ocupação das Américas pelos europeus contra mais de dois mil anos de ocupação da Palestina pelos árabes.
Imagine a seguinte situação: você está em seu sítio ou fazenda colhendo os frutos de árvores que plantou nos últimos vinte anos, quando chega uma pessoa em sua porteira afirmando ter direito a tomar posse de suas terras. Como fundamento de propriedade, alega que, quinhentos anos atrás, a divindade suprema Olodumaré, do Candomblé, as garantiu a um ascendente dele, que passou a ser o proprietário até ser expurgado injustamente delas por perseguição religiosa. Ele apresenta um documento autêntico antigo, em português arcaico e assinado por um pai de santo da época, confirmando a intenção divina declarada por um médium que incorporou a entidade. Como você reagiria? Reconheceria essa dívida religiosa histórica e entregaria pacificamente suas terras, com as frutíferas que você plantou décadas atrás? Deixo à honestidade intelectual do leitor a resposta a essa questão que, para a imensa maioria das pessoas, inclusive e principalmente as religiosas, não tenho dúvida alguma de qual será.
Faço questão de salientar, apenas, que a legitimidade de dúvidas sobre a religião do outro possui mão dupla: se você duvida da dele, por isonomia ele tem o direito de duvidar da sua. Se um judeu ou cristão faz pouco de Oludamaré, um fiel do candomblé pode fazer pouco de Deus ou Jesus. Se um judeu ou cristão tem o direito de duvidar do deus da religião Rastafari, os rastafarianos igualmente tem o direito de duvidar da existência de Deus ou Jesus. Para tornar isso uma questão humana ainda mais difícil, lembro que existe a religião satanista, que adora Satanás, e que deveria merecer o mesmo respeito religioso que todas as outras religiões invocam para si próprias.
Como facilmente se percebe, a fé religiosa é um entrave ao relacionamento pacífico entre as pessoas, mesmo quando as religiões são muito parecidas, com mesma origem, como é o caso de judeus, cristãos e muçulmanos. No caso de satanistas, então, a conversa nem se inicia com nenhum crente das outras três apontadas. Conflitos e guerras com conteúdo religioso são inúmeras mundo afora, tanto no passado, como no presente e, certamente, continuarão a ser no futuro.
Essa dificuldade demasiadamente humana se resolve facilmente com o ateísmo, movido que é apenas pelo uso da inteligência, da razão, da lógica e por princípios filosóficos humanísticos, mas isso é assunto para outra pauta.
Desconsiderada a paixão religiosa que a questão judaico-palestina provoca nas pessoas e com base apenas na racionalidade, ninguém apoiaria uma decisão geopolítica de tal magnitude, com completa desconsideração do princípio da autodeterminação dos povos residentes e do histórico de ocupação ao longo do tempo. Tal condescendência (ou pusilanimidade) é dirigida exclusivamente aos judeus.
Em paralelo, é comum que povos com origem étnicas e/ou culturais distintas convivam no mesmo espaço territorial, o que ocorre inclusive nos EUA e no Brasil e seus respectivos povos originários. Na Palestina era assim também. Árabes e judeus conviveram pacificamente na região por séculos, até que o Ocidente decidisse fatiar a Palestina a seu bel-prazer, sem levar em conta a opinião e vontade dos habitantes históricos da região, inclusive os judeus. Pior: dando aos judeus a maior porção e melhores terras, em detrimento daqueles que majoritariamente as ocupavam por mais de dois mil anos.
Não é exatamente uma novidade. O poder hegemônico ocidental costuma agir assim. Foi o que fizeram com a África, na qual criaram países saídos de suas cabeças delirantes, delimitados diretamente no mapa em linhas retas, na base da régua, desconsiderando por completo a história dos povos originários e os limites geográficos naturais. Nunca mais houve paz entre os africanos, que até hoje se matam por questões territoriais.
E como resolver o problema que judeus sionistas, Reino Unido, ONU e Estados Unidos, principalmente, criaram para o mundo? Qual seria a alternativa a Israel na Palestina?
Embora bastante popular entre os analistas geopolíticos, a solução de dois estados, um palestino-muçulmano e um judeu, não parece boa. Isso porque todas as populações semitas possuem laços históricos milenares com aquelas terras, que são unas tanto na historicidade da ocupação geográfica como na da religião, e também em seu materialismo histórico, no sentido de luta coletiva pelo desenvolvimento social e econômico. Não é possível, sem graves consequências, por exemplo, impedir o acesso de muçulmanos, judeus ou cristãos a Jerusalém ou a quaisquer outros locais com santidade estabelecida nas três grandes religiões. Durante milênios os diversos povos semitas, inclusive judeus, andaram livremente por toda a Palestina, cultuaram seus deuses em diversos pontos daquelas terras e as tornaram sagradas, negociaram com os vários povos da região, utilizaram os pontos geográficos na construção de seus mitos de criação e seus mitos fundadores, conversaram entre si utilizando os mesmos dialetos gerais.
Nesse cenário, construir fronteiras numa terra relativamente pequena, porém gigantesca em cultura e passado comum, não é de modo nenhum um modo de pacificação, mas uma ferramenta ótima para manter indefinidamente a insatisfação coletiva e, consequentemente, os conflitos armados. A existência de dois estados não removeria os entraves históricos para a coexistência pacífica. As pendências resistiriam em função da própria divisão territorial, que violaria os liames históricos que unem o povo e as diversas regiões da Palestina.
Uma hipótese que confesso ser provocativa para produzir reflexão, mas que depende basicamente de vontade política, seriam os EUA doarem parte de seu território para a realocação de Israel. Afinal, são os maiores aliados e defensores intransigentes da existência e segurança de Israel. Os dois países e respectivas populações possuem muitas afinidades. A maior população judaica do mundo, fora de Israel, está nos EUA, que abriga mais de seis milhões de judeus, quase tantos quantos os que habitam o próprio Israel, pouco mais de sete milhões. Sendo assim, atingir os objetivos do sionismo seria extremamente fácil nos EUA, onde as duas maiores populações de judeus do mundo se reuniriam. Além disso, os EUA possuem um território gigantesco, o terceiro maior do mundo, que se encontra em grande parte vazio, despovoado e sem condições materiais de abrigar população sem que, antes, houvesse o dispêndio de grandes investimentos que, no momento, não seriam úteis para os próprios estadunidenses, que estão satisfeitos em seus subúrbios e desinteressados em ocupar locais ermos e desabitados.
Israel é pequeno, pouco mais de vinte mil quilômetros quadrados, cerca de metade da área do Estado do Rio de Janeiro, e foi criada originalmente em um deserto, lugar árido. O Estado do Texas, nos EUA, possui quase setecentos mil quilômetros quadrados, extensão territorial maior do que a do maior país europeu, que é a França se não considerada a Rússia como europeu. Seu clima árido é muito similar ao da Palestina, porém melhor por conta da precipitação superior. Bastariam quatro por cento do território texano para que Israel fosse recriado com vinte e oito mil quilômetros quadrados, um território ainda maior do que o atual, na Palestina. Quatro por cento de um deserto despovoado e os EUA acabariam com todos os problemas geopolíticos causados pela presença de Israel na Palestina. E o custo seria basicamente zero, já que o Texas foi roubado do México e nenhum estadunidense perderia teto ou trabalho por conta da cessão. Fossem mais generosos com tão intenso e merecedor parceiro, cederiam terras com litoral. Cinco por cento da Califórnia, também surrupiada do México, ou oito por cento do Oregon bastariam. O litoral leste é mais complicado, os estados são menores e mais densamente povoados. Ainda assim, quatorze por cento da Geórgia ou vinte por cento do Maine (que me perdoe Stephen King) seriam suficientes. No que toca ao total do território estadunidense, a doação poderia ser inclusive qualificada como mesquinha, avarenta. De fato, consistiria em míseros zero vírgula dois por cento do território, ou seja, a quinta parte de um por cento. E pensar que, com tão pouco, se resolveria tanto.
Mas os Estados Unidos não cometeriam essa gentileza ao mundo. De modo nenhum. Bom é fazer cortesia vigorosa com chapéu alheio; ser estupidamente generoso com o dinheiro do vizinho; dar ou garantir violentamente a posse da coisa que não é sua. E talvez não seja mesmo recomendável que o façam. Caso o fizessem, possivelmente as ações palestinas contra a existência de Israel passariam ser consideradas leves em comparação com as que partiriam dos estadunidenses e seu famoso temperamento guerreiro, principalmente as dos habitantes das terras doadas. Uma hipotética Israel americana talvez não durasse três anos; seria total e completamente destruída pelos yankees. Pimenta nos olhos alheios é refresco.
Deixemos de especular sobre atitudes nobres que jamais seriam tomadas por quem jamais as demonstrou. Porém, essa hipótese provocativa sugere que Israel poderia ter sido criada em qualquer território de grandes proporções, vazia de população e com poucos atrativos que o tornassem alvo de disputas aguerridas. Um exemplo é o Saara. Com alto investimento, rapidamente qualquer deserto se transforma em florestas ou campos de cultivo. Israel mesmo já transformou, com sucesso, desertos em áreas de cultivo. Podem ser apontados, ainda, os exemplos de Las Vegas ou de Dubai, cidades erguidas no que era puro deserto. Experiências de reflorestamento em desertos como no próprio Saara e em Gobi, na China, estão tendo sucesso. Investimentos pesados certamente não faltariam para Israel, como não faltaram para a criação do Fundo Nacional Judaico.
Afastadas as hipóteses de dois estados e de Israel na América ou no Saara, uma solução mais palpável, ainda que não muito menos difícil, seria a criação de uma República Democrática Palestina, que incluiria as populações árabe, judaica e cristã em um só território, constitucionalmente reunidas em um estado laico dirigido por governantes escolhidos em eleições diretas e voto universal, o que resultaria na extinção do Estado de Israel, mas sem deslocamento necessário dos israelenses, que passariam à condição geral de palestinos.
Por que laico? Primeiro, porque a laicidade é uma imposição do mundo moderno, não sendo mais admissíveis interferências religiosas em questões de Estado, cujo interesse deve ser comum, sobrepondo-se a crenças individuais. Segundo, no caso palestino, para evitar conflitos políticos de fundo religioso entre muçulmanos, judeus e cristãos.
Por que eleições diretas e voto universal? Pelo segundo motivo anterior e também porque assim deve ser em países verdadeiramente democráticos. Eleições indiretas, como nos EUA, favorecem a elite, dando ensejo à plutocracia e, portanto, enfraquecem a democracia.
Um grande óbice para a solução da questão palestina, seja qual for, é o atual modelo político adotado na ONU, que torna impossível que qualquer medida nesse sentido passe por ela. Tal modelo permite que os cinco países do Conselho de Segurança, com seu direito a veto, transformem a Assembleia Geral, composta por mais de cento e noventa países, em uma pantomima anódina. Permite, ainda, que países recalcitrantes, como EUA e o próprio Israel, simplesmente não obedeçam às determinações da ONU, sem que disso decorram consequências práticas. Sendo assim, e consideradas as experiências históricas, uma solução palestina estaria fadada a surgir do acaso provocado pelo cenário apocalíptico de um pós-guerra de grandes proporções, no qual Israel e seus aliados saíssem muito enfraquecidos ou extintos, como ocorreu com o Império Turco-Otomano, Reino da Prússia e Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra.
No entanto, caso modificada a configuração da ONU, com o fim do Conselho de Segurança no modelo atual e obrigação de obediência às decisões soberanas da Assembleia Geral, na qual cada país teria um voto com peso proporcional à sua população, pode ser que seja possível. Hipoteticamente, considerada uma população mundial de oito bilhões de pessoas, a China teria voto com peso 17,5, pois possui população equivalente a 17,5% da população mundial; os EUA, 4,4; o Brasil, 2,7; e assim em diante. Trata-se de aplicação prática do princípio democrático segundo o qual cada pessoa deve ser levada em conta na tomada das decisões coletivas.
Ainda assim, para que isso desse certo, essas medidas deveriam ser precedidas de desarmamento massivo dos países integrantes, quase ao ponto da desmilitarização nacional total, principalmente quanto a artefatos nucleares, cuja posse deveria ser vedada a todos os países-membros. Além disso, a ONU deveria ser munida de força militar e armamento próprios, com poder dissuasivo suficiente para substituir EUA e OTAN no papel de segurança do mundo.
A soberania nacional não será para sempre um entrave a que isso ocorra. A relativização da soberania é um fato incontestável que já vem ocorrendo ao longo dos anos, com tendência a prosseguir perdendo relevância. Começa com convenções e tratados internacionais e se acentua com a existência de organismo multilaterais como a própria ONU, além de União Europeia, Mercosul, Brics e outros para cujo ingresso são estipulados protocolos de uniformidade legal e jurisdicional. Tudo isso implica renúncia a certos limites da soberania.
O avanço civilizatório, a partir do desenvolvimento da inteligência e racionalidade humanas, caso não interrompido por uma hecatombe de origem natural ou humana, conduzirá naturalmente ao fim das iniquidades de que padecem as pessoas, principalmente as que decorrem da ausência ou insuficiência de renda digna, e, portanto, à superação do medo do desconhecido, provocado pela chegada de estranhos ou pelas incertezas do próprio destino, e, consequentemente, à paz. Com isso, a construção desses muros fictícios que são as fronteiras, feitos para evitar o inferno que são os outros (segundo a ironia de Sartre), será dispensável. Nesse dia, perderão sentido as noções de nacionalidade e de soberania. Ninguém terá medo do outro, medo de se mover pelo mundo, medo do amanhã. Nunca haverá paz enquanto imperar o medo. O medo sempre precede o ataque.
Antes dessa utopia se concretizar, porém, e caso a ONU passe pelas alterações apontadas, pode-se imaginar um cenário no qual, após decisão da Assembleia Geral, suas forças ocupassem temporariamente a Palestina, incluído o território de Israel, para formação da República Democrática da Palestina, garantindo eleições democráticas limpas e segurança pública até que sobreviesse a pacificação social.
Dito isso, e embora sonhar não custe nada, é muito improvável que venha a ocorrer tal hipótese num mundo que foi, desde o início, moldado perfeitamente para atender interesses mesquinhos e egoístas, caminhando sob esse norte até desaguar, como consequência inevitável, no capitalismo em seu estágio atual de superpredador da riqueza coletiva.
E aqui chega-se ao ponto decisivo: é essa lógica de predação capitalista desmedida que move as ações de Israel em relação aos palestinos e também contra os países árabes vizinhos. O objetivo é a apropriação dos territórios que ainda não logrou ocupar. Nada há de religioso nessas ações, somente interesses econômicos. Reduzir a população árabe permite aumentar a oferta de terra para os judeus, o que sempre foi um dos interesses de Israel, desde o nascedouro do sionismo, com a criação do Fundo Nacional Judaico. A intenção de explorar o petróleo e o gás existentes na costa de Gaza não é segredo para ninguém. Reduzir a quantidade de pessoas que recebem a pouca água encontrada na Palestina é outro objetivo. Planos de um resort em território palestino chegaram a ser pública e desavergonhadamente expostos.
O fundamento religioso é apenas um mecanismo de justificação para manter a aparência de legitimidade, assim ofertando uma narrativa com a qual ignorantes e desonestos intelectuais defenderão as ações israelenses, enquanto ao mesmo tempo oculta a voracidade predatória real com que busca capturar as riquezas de toda a Palestina.
A conclusão é que criação de Israel, na forma como ocorreu, foi um enorme equívoco geopolítico, realizado sob um fundamento bíblico enganoso, disso resultando um problema com dimensão mundial e cuja solução é muito complicada, para dizer o mínimo, quase impossível sem que ocorra uma tragédia humanitário de grandes proporções.
A partir da aprovação de uma recomendação da ONU por um número inexpressivo de países, criou-se um grave fator de instabilidade mundial que dificilmente será resolvido em médio prazo e talvez nem a longo prazo, pois se trata de um país munido de arsenal nuclear. Foi fácil criá-lo pela força, mas essa mesma força dificilmente será capaz de contornar o problema, inclusive porque, atualmente, pende a favor de Israel e não contra.
A solução talvez venha de uma situação que atualmente parece improvável: a união dos mais poderosos países árabes, inclusive Egito e Arábia Saudita, com outros países com capacidade militar relevante, como Rússia e China, para fazer frente a Israel e seus aliados. Se os europeus agissem com racionalidade, entrariam nessa coalizão para defender a extinção ou realocação do Estado de Israel, pois parte considerável dos migrante muçulmanos que recebem, e de que se queixam por preconceito, por xenofobia ou pela pressão orçamentária que provocam, foram desalojados de suas terras por culpa direta ou indireta desse conflito.
Hoje o interesse econômico desses países se sobrepõe à necessidade de paz na região, mas os fatos testemunhados nos ataques ao Irã sinalizam que tudo pode mudar muito rapidamente.
Parafraseando Chico, amanhã pode ser outro dia.
Marcio Valley é formado em Direito pela UFF, com pós-graduação em Direito do Trabalho e Direito Processual do Trabalho
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