23 de junho de 2026

Ações erráticas de Donald Trump: uma possível explicação, por Marcio Valley

Os próximos capítulos dessa aventura maligna que o governo Trump vem impondo ao mundo serão decisivos para o futuro da humanidade.

Marx previa o comunismo como resultado inevitável das contradições do capitalismo avançado, não só pela consciência de classe.
Nos EUA, sinais de esgotamento capitalista incluem opressão a imigrantes, monopólios, alta concentração de riqueza e dívida pública insustentável.
Trump adota postura agressiva globalmente para manter hegemonia e combater avanço da esquerda, gerando instabilidade política e econômica.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Ações erráticas de Donald Trump: uma possível explicação.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Marcio Valley

Ao contrário do que alguns supõem, Marx não sustentou que a ascensão do comunismo dependeria exclusivamente da elevação do nível de consciência de classe capaz de conduzir à organização coletiva de uma revolução proletária. Segundo Marx, a revolução do proletariado seria capaz de acelerar esse processo. Todavia, o advento do comunismo disso não dependeria, tratando-se de uma inevitabilidade; o resultado inexorável das próprias contradições intrínsecas ao capitalismo mais avançado.

Além do surgimento dessas contradições como fato gerador impositivo do novo sistema econômico, seria desejável que a ascensão do comunismo ocorresse quando o desenvolvimento tecnológico dos meios de produção alcançasse a estrutura material apta a produzir em abundância os bens de que o povo necessita, assim superando a escassez inerente ao capitalismo em função da necessidade de lucro.

Como a História demonstra, as revoluções comunistas foram realizadas em países que não se encontravam nesse patamar mais avançado, o que possivelmente favoreceu o fracasso dessas experiências, ao menos no que toca à efetividade e manutenção do sistema econômico comunista. Em alguns, a precocidade revolucionária basicamente obrigou a instauração de um totalitarismo violento como forma de conter a dissidência composta pelo povo insatisfeito e pelos ainda não convencidos. Aqui vale destacar que a ditadura do proletariado, prevista por Marx, não necessariamente deveria se materializar em repressões violentas e assassinas, tratando-se meramente de substituta da ditadura da burguesia que estava no comando até então e continua prevalecendo.

O fato é que a União Soviética não somente naufragou em sua proposta comunista como deixou de existir. A China, por sua vez, para sobreviver, adotou um sistema misto, o socialismo de mercado, que parece capaz de chegar ao necessário nível de avanço tecnológico do capitalismo, ainda que sob controle estatal, ou seja, com eliminação ou redução dos efeitos daninhos do capitalismo tardio, como a financeirização extrema. Nesse momento, é muito difícil qualificar a China como um efetivo país comunista. Os meios de produção não são propriedades do Estado, salvo aqueles considerados estratégicos, atributo não exclusivo do comunismo, encontrando eco em países capitalistas que atuam para controlar setores eleitos, como os de energia ou saneamento, por exemplo.

Abram-se parênteses para dizer que o mundo atual não comporta mais revoluções comunistas. A intensa complexidade econômica atual, acrescida do poder militar hegemônico dos EUA, impede que isso ocorra, ao menos se mantida a atual configuração geopolítica.

Mas quais seriam os sinais materiais de que o capitalismo chegou ao ponto de virada, no qual o comunismo surgiria como consequência inexorável? Segundo Marx, eles se revelariam, principalmente, na progressiva necessidade de opressão dos trabalhadores, acirramento da concorrência entre as empresas, crises econômicas e redução progressiva da lucratividade.

Esses sinais estão presentes nos dados atuais da economia mundial?

A resposta é positiva. Vários países enfrentam o dilema do esgotamento do modelo capitalista, que cada vez mais se mostra incapaz de lidar com a necessidade essencial do ser humano de ter trabalho estável e renda digna. Desde o início dos anos 2000 o mundo se vê às voltas com a chamada “longa depressão”, apresentando baixa lucratividade e estagnação do crescimento econômico.

Porém, há um caso extremo que merece ser analisado em função da insegurança existencial que traz para o restando do mundo: os Estados Unidos da América.

Especificamente no caso dos EUA, a opressão dos trabalhadores se configura na perseguição implacável aos imigrantes, todos, essencialmente, trabalhadores nos EUA. Se antes, como no governo Obama, havia algum pudor governamental em expor o que é feito e a motivação, hoje não há mais algum. Tudo está sendo feito com ampla divulgação dos meios de comunicação, evidenciando o propósito de disseminar a propaganda anti-imigração mundo afora a fim de inibir a chegada de novos estrangeiros pobres àquele país.

A dura concorrência entre as empresas estadunidenses e a redução progressiva da lucratividade são elementos que se unem para levar a economia dos EUA, paradoxalmente, para a ausência de concorrência. Efetivamente, a fim de incrementar a lucratividade, as empresas dos EUA decidiram gerar concentração de mercado através da criação de monopólios, oligopólios ou cartéis nos principais setores da economia estadunidense, como comércio eletrônico, aviação civil, alimentício, entretenimento, telecomunicações e outros. Nesses setores, meia dúzia de empresas ou menos dominam a quase totalidade do respectivo setor. Sem concorrência não há livre mercado, um dos pilares do capitalismo saudável.

A redução da lucratividade se evidencia, ainda, pela intensa financeirização da economia americana, o que sinaliza o abandono do investimento em produção em prol de outros com maior retorno. Ao mesmo tempo, aponta para a desindustrialização progressiva da economia estadunidense, com consequente redução de emprego e renda.

Há ainda outro indício revelador da deterioração econômica dos EUA: a altíssima concentração de riqueza. Segundo o próprio Federal Reserve, FED, o banco central dos EUA, a metade mais rica das famílias dos EUA controlava 97,5% da riqueza nacional em 2024, com a metade mais pobre possuindo apenas 2,5%.

Tal nível de concentração de riqueza, ao lado de comprovar o fracasso capitalista em engendrar o bem comum para a imensa maioria da população, ainda demonstra outro aspecto no qual se dá a opressão dos trabalhadores, que se veem abandonados à própria sorte no que concerne à obtenção de emprego e renda em níveis dignos, já que a concentração de riqueza decorre, também, do achatamento da massa salarial.

Por fim, no que toca às crises econômicas, os EUA possuem uma dívida pública de mais de 39 trilhões de dólares, o que corresponde a cerca de 125% do PIB do país, dívida considerada insustentável e praticamente impagável por parte dos mais relevantes economistas do mundo. Com uma dívida dessa magnitude, os EUA não se encontram em crise econômica, eles são uma crise econômica em andamento contínuo e permanente, no sentido de que praticamente não há o que fazer a não ser aguardar a tragédia econômica inevitável, prevista para cerca do ano 2100, quando a dívida chegaria a 250% do PIB estadunidense, o que conduziria o país à impossibilidade de custear as mais comezinhas necessidades administrativas. Porém, muito antes disso a situação social do país já estaria em sérias dificuldades. Aliás, já está, como se observa do aumento substancial da quantidade de sem-teto e dos que buscam a fuga da realidade pelas drogas. A própria necessidade de expulsar imigrantes, como forma dupla de abrir empregos para nacionais e reduzir o orçamento em saúde, segurança, educação e outros gastos públicos, aponta para a existência atual dessas dificuldades.

Portanto, evidenciados os sinais das contradições presentes no capitalismo estadunidense, podemos parafrasear Marx e Engels e dizer que um fantasma ronda os Estados Unidos da América, o fantasma do comunismo?

É difícil afirmar isso, pois, como se sabe, os EUA são possivelmente o país mais anticomunista do mundo, não somente em relação ao governo, mas ao perfil geral dos indivíduos. Assim, o comunismo é uma possibilidade bastante remota naquele país, seja por revolução seja por esgotamento do modelo atual.

Porém, a possibilidade concreta da existência de fantasmas e o medo paranoico dessa existência são coisas distintas.

Dito isso, qual seria a opção do povo e do governo para o enfrentamento das contradições inerentes ao capitalismo tardio capazes de conduzir em tese ao comunismo?

Uma opção é exatamente a que Donald Trump está colocando em ação: colocar o restante do mundo na condição de inimigo a ser combatido, seja por meio de pressão econômica, como tarifas e bloqueios de ativos; seja através da guerra pontual, como vem fazendo há décadas país por país; seja assumindo uma guerra generalizada contra diversos países em simultâneo, como a Alemanha fez quando Hitler era o comandante.

O governo Trump não está somente tentando manter à força a hegemonia ameaçada por China e Rússia ou reverter a desindustrialização para produzir emprego e renda em favor dos nacionais. Isso existe, de fato, mas é o lado mais propagandístico da ferocidade que os EUA vem demonstrando em relação aos mais variados países, de aliados a adversários.

Essa ferocidade e o caráter errático das ações de Trump, que à primeira vista não parecem atender a um planejamento geral previamente traçado, faz presumir a existência de algo emocionalmente mais profundo movendo as ações trumpistas; um temor que assusta mais o establishment estadunidense do que a própria perda da hegemonia ou dos empregos internos.

Esse algo parece ser o medo da ascensão de um tipo de ideologia que, até o momento, jamais esteve perto de contaminar a política estadunidense: o socialismo.

A política dos EUA foi, sempre, dominada por dois partidos de direita, Democratas e Republicanos, ambos neoliberais e militarmente agressivos, com a única diferença de que os democratas vestem ternos com as cores do arco-íris antes de apertar o botão do Armagedom.

Porém, já nos últimos anos passamos a ouvir falar pelo menos de um político efetivamente de esquerda que ganhou voz e respeitabilidade nesse ninho de águias: o senador Bernie Sanders. A partir daí, outras vozes de esquerda, embora ainda menos visíveis, ganharam algum relevo nos EUA, como a do filósofo e escritor Cornel West que, não por outro motivo, apoiou as candidaturas presidenciais de Sanders antes de ser, ele mesmo, candidato em 2024, basicamente de forma simbólica, sem estrutura e sem dinheiro. Recebeu pouco mais de oitenta mil votos, cerca de meio por cento do total.

Embora ainda pequena, a ascensão da esquerda autêntica nos EUA certamente acendeu um sinal de alerta para a elite e até mesmo para parte da população. Sem dúvida alguma, isso contribuiu para a primeira eleição e posterior reeleição de Trump, bem como para as ações de seu governo que, à primeira vista, não fazem sentido, como ameaçar um país umbilicalmente ligado aos EUA como o Canadá e inacreditavelmente até o Reino Unido, na questão das Malvinas.

O intuito do governo Trump parece ser o de restabelecer as bases capitalistas de sua economia interna a qualquer custo, mesmo o de sustentar uma guerra contra o resto do mundo. Não somente por apego ao sistema econômico em si, mas para afastar o espantalho do comunismo que se insinua através do, ainda, pequeníssimo avanço da real esquerda no país. Por medo do comunismo, é bem possível que os estadunidenses aceitassem o retorno do feudalismo.

Embora pareça ridículo, o medo do comunismo é o que justifica a eleição de figuras como o próprio Trump na primeira eleição e na segunda, Bolsonaro no Brasil, Milei na Argentina, Giorgia Meloni na Itália, Viktor Orbán na Hungria e outros.

Mas por que seria ridículo se afirmei, antes, que o comunismo é inevitável a partir do capitalismo mais avançado? Primeiro, porque o capitalismo tardio, gerador das contradições autodestrutivas, não chega ao mesmo tempo em todos os lugares. Fora os EUA, ainda não aconteceu nos outros países mencionados no parágrafo anterior. Segundo, porque, num plano absolutamente racional, se a consequência natural do esgotamento do modelo capitalista é a inevitabilidade do comunismo, brigar não faz sentido. É como brigar com as nuvens carregadas pelos pingos de chuva que caem na terra; e não adianta abrir um guarda-chuva, pois isso será incapaz de deter a enxurrada.

Os próximos capítulos dessa aventura maligna que o governo Trump vem impondo ao mundo serão decisivos para o futuro da humanidade. Suas ações demostram que ele está acima da racionalidade. Não bastasse isso, aparentemente não goza de ampla sanidade mental e as instituições estadunidenses já se demonstraram incapazes de deter um louco que chega ao poder.

A hegemonia militar dos EUA é real e efetiva, ainda que o Irã esteja conseguindo contê-la, o que ocorre por questões muito particulares de geografia.

O mundo somente pode contar com a sorte de um imperativo econômico impor o recuo dos EUA, como pode estar ocorrendo na questão do Irã (mas o lançamento de artefatos nucleares em Teerã não pode ser completamente descartado).

Outra possibilidade fortuita é a fragilidade da saúde de Trump, que vem sendo questionada pelos meios de comunicação. Caso se visse na contingência de renunciar por conta da saúde, dificilmente seu sucessor seria tão nocivo quanto ele. Isso não significa que no futuro outro não possa aparecer.

Falta ao mundo liderança, vontade e coragem política para adotar a única ação coerente contra os desvarios do governo Trump, que seria a formação de uma coalizão de países dispostos a declarar conjuntamente o rompimento diplomático absoluto com os EUA. Um somente não basta e se tornaria alvo preferencial.

Isso mexeria com os brios do povo estadunidense e talvez fosse capaz de movimentar as instituições dos EUA para conter a loucura.

Como não ocorrerá, resta torcer para que os republicanos percam a maioria no Congresso americano nas próximas eleições de meio período. Caso isso não ocorra, pode-se rezar para que nada muito grave aconteça até o final do mandato de Trump.

Por ora, o mundo está completamente à mercê dos caprichos do destino.

Maktub!

Marcio Valley é formado em Direito pela UFF, com pós-graduação em Direito do Trabalho e Direito Processual do Trabalho

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados