4 de junho de 2026

CUBA LIBRE

Eu sei quem você é. Sei muito bem.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Paramos no tempo. E eu sei muito bem por quê: foi a tal da Medusa, ela te congelou, então sua estátua vou sondando. Você finge não me ouvir, sei eu lá por quê. Só sei que a pedra que te envolve logo logo vai ceder.

Meia dúzia de azares me apartaram de você, Medusa nos pausou, mas eu insisto no play. Insisto porque sei, eu sei quem é você.
Você é aquela a que todos admiram, mas pouco sabem agradar.
Você é um quebra-cabeça: 10.000 peças te compõem, e ninguém pra te montar. E se tentam te entender, logo se irritam, preferem te provocar.

Você é aquela que fazem de rainha; você quer ser coroada, porém não com esse título. Te veem por fora e já te dão por decifrada, como se beleza fosse a casca. Compreensível: os homens são atraídos, e as moças, incomodadas – elas te invejam. Já eu, não. Apenas te observo. Ah, mas eu te quero, não nego. Só que o querer pelo querer é coisa de animal, era o que eu vinha feito, admito: não sou perfeito, sou teimoso e rabugento. E mesmo assim você dizia, eu pedia e você repetia: “eu gosto de você”. E esses eram os melhores 10 segundos das nossas 10 horas de conversa.

Sua persona é um poema, já seu gosto é um dilema: abdicar da realeza? Pra quê? Pra ser banhada em singeleza e perder o perfume da nobreza? Não é do seu feitio. Ter o glamour durante o dia – quem não quer? – e o abraço de um só durante a noite – isso sim é mais sua cara. Fatos são chatos, e verdades machucam: o fato é que você é uma delícia, por isso te taxam de puta; mais fácil xingar, do que alcançar a quem se inveja. E você não é de luxo, senão por que outro motivo resistiria a entrar num Porsche? E é essa a verdade que as mais machuca: no fundo você é tal como elas que te odeiam, só quer um cara que te cuide e te ampare. Mas se você vai ter só um, por que o desespero? Por que tanto rodeio e drama dessas moças? Elas pensam só na Universidade, deveriam pensar mais fora da caixa, mais na universalidade.

Eu sei quem é você. Te vi não no Mackenzie, te vi no Higienópolis. Te vi 1x e já sei quem é você. Sei dos seus segredos, até os que você não me confiou. E eu gosto de me gabar, olhar pras pessoas e afirmar: “conheço seu tipo, já te estudei e já sei do que você é feito”. Mas com você é diferente: não me gabo de te conhecer, fico mais é feliz em te entender.
Todos te admiram; eu também te admiro, só que em outro nível. Olhos estatelados em sua direção, todos querem sua atenção. Poucos a tem. “Um monumento com vida e que anda por aí”, um amigo nosso te descreve. Imponente, alta e bela. Única por si só. E que no fundo, é como qualquer um: ama as coisas simples. Etiqueta, tamanho e preço: não é esse seu critério. Será que sou o único a ver isso?

Já falei e não canso de falar: eu já sei quem é você. Mas e se eu invertesse a mesa, você diria o mesmo?
Eu sei quem eu sou, mas te pergunto se tu sabes. Pensei nisso esses dias, e cheguei a uma conclusão:
Você é popular, eu sou seu oposto. Muitos escutam da Débora, já poucos sabem meu nome. A maioria que te segue, curte suas ideias; enquanto eu sou do contra, me rechaçam se eu opino. E mesmo assim você veio, se sentou, deu “Oi”, foi jogando o jogo. A partida acabou, e você sentada ainda, quieta e complexa; entendo sua permanência. O laço é lógico, claro e cristalino: sou seu antônimo e te encontro nos extremos. É por caminharmos na beirada de onde todos passam longe, que achamos nosso elo. Eu sou a escuridão, o Yin, o trovão; você é a claridade, o Yang, suavidade – eu preciso de você, e você precisa de mim.
Você aí, eu aqui: por que que tem que ser assim?
Já me advertiram, e aqui copio e colo: que nessa vida não se pede licença nem permissão, apenas se pede perdão. Só que nem desculpas eu tenho pedido – saiba que isso aqui é uma exceção. Sei que errei, foram alguns talvez vários exageros. É que é meu instinto ser intenso – impossível sorrateiro. Você me sujeitou àquilo ao que eu nunca mais me sujeitaria – pelo menos não nesse decênio. De todo modo, parabéns.

Parabéns por ter me enchido o ego e de carinho, e por ter se ausentado – agora sei de corpo e alma o que é estar ao seu lado. Quando se tem, se tem; agora quando não se tem é como se nunca se tivéssemos tido, e a falta daquilo que não nos demos conta é o pior ensino, é ensino que não se aprende, lição sem gabarito, problema sem solução; o ser humano é burro em matéria de amor, nasce engatinhando e morre engatinhando, e é assim que funciona quando se nasce humano. Eu nasci assim: humano. Então, sim, eu erro, mas não sou malévolo.

Você queria um motivo pra vir falar comigo. Não aguentei e te dei vários – odeio incertezas. Então tirei (y)In e aqui te garanto: não vou me esquecer tão fácil, ao menos não por enquanto.
Alguns merecem um nada, um grande nada. Porém esse não sou eu. Posso não estar no pódio, mas jamais fico com brinde de consolação.
Outros são bons, são bons porque são bons. Os ruins são ruins, e os bons são os bons.

Se eu sou bom ou sou ruim, não cabe a você me dizer, mas te digo que serei melhor se um dia eu puder te rever.
Apenas venha me melhorar que eu farei valer a pena. Chega de demora, e não se esqueça: prefiro você morena.

Ou se esqueça e saia logo da porra da mesa. Me prove que estou errado, me prove que não te conheço, me prove que eu nunca te provei direito, me faça de bobo. Difame meu nome, fale mal de mim, propale o que é sabido, reforce o já reforçado: que eu não presto, que eu surto, que sou calvo, pareço um adulto e ajo que como um infante. Porque eu preciso ser alvejado, preciso ser o alvo, preciso de um motivo, preciso ser preciso e agir com precisão, e é de lá que tiro tanta força: da desaprovação, da sua e de todos, meu saco de pancadas predileto, onde eu treino e fico sem ar, até que eu desmaio e acordo feliz – alcancei meu limite.
Está anotando tudo? Diga também sobre O Não, essa coisa que eu não sei engolir nem levar, e que eu tenho síndrome de grandeza. Que estou doente e nada me cura, nem medicina tailandesa. Que estou com fome e nada me sacia, nem comida chinesa. Que eu rimo em prosa mas na verdade eu queria mesmo é fazer Rap. Que eu saí com a Joana mas queria mesmo era a Mayara, que a Ingrid cansou de mim ligando e me bloqueou da vida dela. Que a Tânia tentou só que não conseguiu, tudo porque esperar eu não aturo. Que não decidi entre e a Reche e a Tayná, fiquei sem as duas porque … sou burro, não saí de cima do muro. Que a Luísa correu atrás, só cansou de correr porque tinha acabado meu estoque (de isca), esqueci de sair pra comprar mais. Que eu nunca sei se arrisco com essas raparigas ariscas – não sou maricas; só que tenho mais o que fazer. Que eu sangro por letras pra não sangrar na vida real, que odeio Natal – não ganho mais presentes, não me comporto coisa e tal. Fale também da Paula, que meu poema a trouxe pra mim; não adiantou: meu TOC a fez se tocar que perdi o toque com a realidade. Que a Analis começou tudo e depois não quis acabar, a primeira letra todos escrevem, por o ponto final ninguém quer. Bem me quer, mal me quer. QUEM AÍ ME QUER? Lanço a enquete à multidão. “A pior te quer, a melhor te odeia”, responde O Razzão.

Todas essas mal me querem. Espero que um dia eu me recupere, saia da maca todo compulsivo e alegre, pegue um táxi e grite pro anão esverdeado: acelere! E ele vai se recusar, da minha força dentro de mim devo abusar. Um soco na boca do coroa devo lançar; o antes Padawan e agora Jedi se rebelar vai. Desfenestro o mestre do volante, ligo o taxímetro porque esse é meu trabalho. Tudo que resta é ir adiante.

Avante.

Dou a volta no quarteirão, encontro quem? O anão. Ele tá bravo, tenho que sair dali, pego a contramão. Perco o controle entro com tudo no bar que eu frequentava. Ponho a parede abaixo, atropelo a garçonete, menos fama pros taxistas, os Ubers vão adorar. Saio do carro, poeira ainda se assentando, numa mesa vou me sentando. Tem alguém na minha frente, acho que ele quer jogar. Surpreso fico, não é ele, é ela. É você. Toda amortalhada, moscas te sobrevoam, você já morreu, você está toda zumbi e quase esqueleto. E ainda quer jogar?

Saia logo da mesa, pra que ficar aí presa? Tem outras querendo jogar, tipo a garçonete paraplégica se arrastando pra vir pra cá, uma partida ela quer me embaralhar. Quase a matei e mesmo assim ela quer o dado jogar. Ser humano é ser doente, ser um humano é não ter cura. Serum algum resolve se rum é tudo que bebo. Falando nisso, cadê a garçonete com minha cuba libre?

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados