David Miranda ao The Guardian: Amazônia em chamas é culpa de Bolsonaro

Em vez de decretos unilaterais que cheiram ao colonialismo arrogante, os países industrializados ricos que precisam da Amazônia devem financiar programas sociais para brasileiros pobres, em troca da preservação

Foto: Agência Brasil

Por David Miranda

No The Guardian

Incêndios estão devorando a Amazônia. E Jair Bolsonaro é o culpado

Enquanto o mundo assistia com horror e terror à queima da Amazônia, os cientistas deixaram claro que a causa, principalmente – se não inteiramente – é a atividade humana.

Aqui no Brasil, essa atividade humana tem nomes e rostos humanos: os de Jair Bolsonaro, o presidente brasileiro, e seu extremista ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Eles não apenas permitiram esses incêndios devastadores, mas os encorajaram e os alimentaram.

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Eles fizeram isso com uma mistura tóxica de ideologia radical, corrupção política e ganância banal. Simplificando, a destruição contínua da Amazônia está ocorrendo por causa das escolhas políticas feitas por aqueles que agora governam o Brasil.

A magnitude desses incêndios e a gravidade dos perigos que representam para o mundo têm sido amplamente demonstrados na última semana. Como o New York Times informou na quarta-feira, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais documentou que “39.194 incêndios foram detectados este ano na maior floresta tropical do mundo, um aumento de 77% em relação ao mesmo período de 2018.”

Os incêndios se tornaram tão potentes que a fumaça que eles geraram mergulhou a maior cidade do hemisfério ocidental, São Paulo, na escuridão total no meio do dia na terça-feira. O que foi particularmente chocante em relação ao súbito evento foi que os incêndios na Amazônia estão a centenas de quilômetros de distância daquela cidade, mas se tornaram tão densos e devastadores que apagaram a luz naquela grande metrópole distante.

A vitória eleitoral de Bolsonaro em outubro passado foi um choque para o sistema político brasileiro porque, como congressista por quase 30 anos, suas visões retrógradas e desequilibradas o haviam relegado à periferia da vida política. Sua presença no congresso era vista pela maioria como um embaraço nacional; que um dia ele ocuparia o palácio presidencial era impensável.

Mas, como aconteceu em vários outros países do mundo democrático, incluindo os EUA, uma série de crises e fracassos atribuídos validamente à classe do establishment levaram grandes setores da população do país aos braços de qualquer estranho, não importa quão demagógico e radical.

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Entre as muitas visões extremistas de Bolsonaro está a negação do clima como teimosa e extrema como qualquer figura proeminente do mundo, se não mais. Ele há muito descartou o consenso científico sobre os cenários climáticos como uma farsa. E ele fez campanha com uma promessa explícita de explorar – isto é, destruir – a Amazônia, que atualmente fornece 20% do oxigênio do mundo e que os cientistas consideram o ativo mais valioso que a humanidade possui em nossa batalha cada vez mais difícil para evitar catástrofes climáticas.

Desde sua eleição, Bolsonaro não apenas cumpriu suas promessas de subverter fundamentalmente o compromisso de longo prazo de nosso país de proteger a Amazônia, mas o fez com uma velocidade e uma agressão que surpreenderam até mesmo seus críticos mais virulentos. Para ter certeza, os antecessores de Bolsonaro – incluindo os do Partido dos Trabalhadores de centro-esquerda – ganharam sua parcela de críticas válidas de ambientalistas por prejudicarem a Amazônia para obter ganhos industriais. Mas – depois de apenas oito meses no cargo – o dano de Bolsonaro à maior floresta tropical do mundo está em um universo de magnitude totalmente diferente.

O desmatamento é um objetivo afirmativo de Bolsonaro. Isso pode ser conseguido cortando árvores ou, de forma mais eficiente, simplesmente queimando grandes áreas que a indústria agrícola do Brasil quer explorar. Isso também significa desalojar as tribos indígenas que viveram nessas florestas por séculos: pessoas pelas quais Bolsonaro expressou repetidas vezes desprezo. Seu deslocamento dessas terras tem sido frequentemente realizado com violência contra ativistas ambientais e líderes indígenas.

A escolha de Bolsonaro por seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, do chamado Novo Partido, exemplifica o anti-ambientalismo radical e violento que alimenta esses incêndios. No ano passado, Salles, enquanto funcionário do governo estadual em São Paulo, foi considerado culpado por impropriedades administrativas por ter alterado um mapa para beneficiar empresas de mineração.

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Ele foi multado e privado de seus direitos políticos – incluindo seu direito de procurar um cargo eleito – por oito anos. Bolsonaro, evidentemente, via essas transgressões como uma virtude desde que anunciou sua escolha de Salles para servir em seu gabinete apenas três semanas depois de sua condenação.

Em 2018, Salles – agora o guardião da Amazônia brasileira – concorreu ao Congresso federal com um anúncio político que mostrava balas de um fuzil como solução para ativistas ambientais, tribos indígenas impedindo a destruição de suas terras e “esquerdistas”. Salles perdeu sua candidatura ao Congresso, mas foi recompensado com uma posição muito mais poderosa: o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro.

Bolsonaro e Salles vêem o desmatamento como uma prioridade tão premente que desprezam abertamente qualquer um que tente impedi-lo. No início deste mês, Bolsonaro demitiu um cientista de destaque depois que avisou ao país que o desmatamento estava ocorrendo a uma taxa sem precedentes e perigosa. No mês passado, quando um repórter perguntou a Bolsonaro sobre os danos causados ​​ao meio ambiente por suas políticas industriais, o presidente disse desdenhosamente ao repórter que ele deveria defecar menos: “Um dia sim, um dia não”. A pressão sobre os incêndios na Amazônia, ele infame e infundado, culpou grupos ambientais nesta semana por tê-los iniciado.

As agências encarregadas de salvaguardar os quase um milhão de indígenas no Brasil sofreram cortes orçamentários tão severos sob o Bolsonaro que agora estão pouco funcionando. Durante a campanha, ele prometeu: “Nenhum centímetro será demarcado para reservas indígenas ou quilombolas”. No final de julho, garimpeiros invadiram uma aldeia indígena e um de seus líderes foi esfaqueado até a morte.

Todas essas mudanças dramáticas ocorreram não apenas da ideologia, mas também do cativeiro político. Juntamente com os evangélicos de direita e apoiadores da ditadura militar do Brasil no passado, o poderoso setor de agronegócio do Brasil é um componente crítico da coalizão que tomou Bolsonaro no cargo.

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A aposta deles em Bolsonaro rendeu dividendos: uma enorme variedade de pesticidas anteriormente proibidos foi aprovada para uso este ano, praticamente sem debate ou estudo. Um resultado: a morte de 500 milhões de abelhas somente nos últimos três meses.

O pior de tudo, o desmatamento está consumindo a Amazônia em um ritmo horrivelmente rápido. Como o New York Times colocou esta semana: “A destruição da floresta amazônica no Brasil aumentou rapidamente desde que o novo presidente de extrema direita do país assumiu e seu governo reduziu os esforços para combater a extração ilegal de madeira, pecuária e mineração”.

A agência governamental responsável pelo monitoramento do desmatamento documentou a perda de “1.330 milhas quadradas de cobertura florestal no primeiro semestre de 2019, um aumento de 39% em relação ao mesmo período do ano passado”.

O que o mundo está testemunhando é tão deliberado quanto perigoso. É insuficiente, e talvez ofensivo, para potências ocidentais já desenvolvidas e ricas que causaram tantos danos ao planeta para simplesmente ditar ao Brasil que não deve explorar seus recursos da maneira como o Ocidente fez com tão grande dano ambiental.

Mas o mundo também não pode ficar parado e deixar que o governo Bolsonaro destrua a Amazônia. Em vez de decretos unilaterais que cheiram ao colonialismo arrogante, os países industrializados ricos que precisam da Amazônia para sobreviver devem financiar programas sociais para brasileiros pobres que compõem uma grande maioria de nosso país supremamente desigual, em troca da preservação desse ativo ambiental vital.

Identificar o culpado – Bolsonaro e Salles – é necessário, mas não suficiente, para evitar o desastre ambiental. A Amazônia pertence ao Brasil, mas a necessidade de salvar o planeta pertence a toda a humanidade, e todos nós devemos suportar esse fardo coletivamente.

  • David Miranda é um deputado federal no Brasil representando o estado do Rio de Janeiro com o Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL)

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2 comentários

  1. O que está acontecendo nesta região é o mesmo que alguém ter pedido ao diabo um novo milagre econômico para o Brasil deles…

    o primeiro foi pela industrialização, e o que eles desejam atualmente virá da morte dos locais e da destruição ambiental

    Recomendo que estudem a distribuição das queimadas ponto a ponto, mapeadas, porque dependendo da localização do que restar de verde entre elas, não haverá recuperação nem do que restar.
    (um tipo de “desertificação” provocada em regiões de terras férteis para o plantio e pasto)

  2. Votei e voto no PT, mas o PT deveria saber que o único jeito do país cair nas mãos dessa turma criminosa, impune e extremista de direita era ele, PT, concorrer na eleição passada à presidência. Não importa se sofreu injustiças e calúnias de todos os tipos e “tinha de enfrentar pelo orgulho” (não se trata de briga de bar!), tinha que ser pragmático: tinha que ter a noção que todas as ofensas grudaram e o antipetismo se tornou tão forte que qualquer um (qualquer um!) que fosse seu adversário venceria. Como em psicologia reversa, o PT teve a possibilidade de “escolher” o presidente: seria aquele contra o qual concorresse! Concorre contra Hitler e Hitler seria o presidente, concorre contra o huno Atila e Atila seria o presidente, concorre contra Pinochet e Pinochet seria o presidente! Não vale perder bonito em tais disputas, a derrota fica proibida! Você não joga uma partida que não pode perder. Ser segundo lugar depois de tanta pancada seria motivo para alguma alegria pela demonstração que o partido ainda é competitivo? Sim, teria sentido – se o adversário vitorioso tivesse civilizadade e dignidade! Segundo lugar contra bolsonaro é trágico: com esse vencedor o segundo lugar é último. Perder era proibido, tão proibido que tinha que deixar que outro concorresse contra bolsonaro. Não era só jogo eleitoral, era muito maior que isso, uma guerra. Como em guerra, não há “vice campeonato” que possa satisfazer. Perder seria uma tragédia, e foi o que ocorreu. Não se pode entrar em disputas onde a derrota é inadmissível, onde a ideia de perder dá frio no estômago como em guerras onde o derrotado acaba morto. Era uma aposta gigante, como apostar tudo o que tem: deve-se pensar não só no “e se eu ganhar?”, é preciso pensar no “e se eu perder?” Mais que saudades de vencer eleição, fiquei com saudades de perder para FHC, quando perder era só um problema político mal humorado e não esse afundamento nas trevas, uma sensação de viver um pesadelo de uma quebra da ponderabilidade da rotina de vida e da sustentabilidade da democracia, uma revolução insana. Que fará o PT se ainda tiver esse poder de eleger qualquer um contra o qual concorrer? Se dará conta que da importância disso? Saberá que às vezes se retirar é preciso? Saberá que na contagem de votos não importará se a midia o perseguiu ou não, mas sim a imagem que colou? Continuará socando ponta de faca? Eu queria o PT eleito, mas antes de tudo que o partido e seus dirigentes soubessem ler o quadro geral e tivessem noção não só do que é melhor, mas do que é o melhor possível, isto é, noção do que é menos ruim. Que tentasse com Lula e, na impossibilidade, se retirasse. Pior do que está hoje não estaria, para o país e para o PT, mesmo porque está mudo com grandes bancadas no congresso, preso à pauta única de Lula Livre, sem saber caminhar sozinho enquanto isso. Antes da buscar presidência que corrigisse essa insignificância parlamentar e dependência infantil da mão do Lula a guiar, ainda pensa a direção que estamos nos anos 80?

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