
Então o presidente do Senado, Renan Calheiros, resolveu que o Brasil deve ter um Banco Central independente!, leu Simplício em voz alta. “Por todos os macacos, o que esse cara entende de banco central e de política monetária?”, reagiu Angeline, tomando o jornal das mãos dele. “E você por acaso entende?”, provocou Simplício. “Claro que não, mas desconfio de que ele não entende patavinas só pelo jeito de suas declarações”.
Na dúvida, os dois concluíram que seria melhor consultar um bom economista heterodoxo. Foram para São Paulo e encontraram em casa o professor Luzbell, enrolado na preparação de duas conferências. “Não existe banco central independente, disse ele. Existe banco central com objetivos públicos claros e banco central dominado pelos interesses dos banqueiros privados. O senador Renan está fazendo o jogo desses últimos.”
— É por corrupção? Ele tem fama, observou Angeline, precisa em seus comentários.
— Não necessariamente, embora quem presta um serviço desse tamanho à banca sempre pode contar com uma ajudazinha de campanha.
— Mas como seria esse banco central independente?, quis saber Simplício.
— É um banco desvinculado do Tesouro que põe o objetivo de combater a inflação com juros altos acima do objetivo do crescimento da economia e da geração de emprego.
— Mas até onde eu sei, é justamente isso que faz nosso Banco Central: ele não está aumentando de novo a taxa de juros mesmo com relativa estabilidade de preços?, comentou Angeline.
— É verdade. Mas os banqueiros querem ter certeza de que o Banco Central, sob pressão da Presidenta, não tenha uma recaída e baixe os juros de novo, como no início do ano.
— Como seria um banco central desenvolvimentista?, perguntou Simplício.
— Um banco central parecido com o Fed, o banco central norte-americano. Ele tem três objetivos: estabilidade dos preços, crescimento da economia e emprego máximo.
— Por que a gente que anda copiando tanta coisa ruim dos americanos, em matéria de política econômica, não copia essa, que certamente nos favoreceria?, disse Angeline.
— Ah, meus amigos, disse Luzbell, os americanos, que com os ortodoxos europeus dominam a mão de ferro agências como FMI, Banco Mundial e OCDE, praticam a doutrina do faço o que mando mas não faça o que faço.
— Mas a Europa está fazendo tudo o que os ortodoxos mandam, isto é, uma política econômica sanguinária, interveio Angeline.
— Sim, disse o professor, mas contra os países pequenos da região. A Alemanha está dançando na maionese. Aliás, se o senador Renan fosse capaz de se informar de alguma coisa, veria o desastre que tem sido para mais de metade da Europa ter um banco central, o BCE, independente dos tesouros regionais.
— Mais essa…, balbuciou Angeline.
— É que um banco central orientado politicamente, embora não partidariamente, pode ser um importante aliado do Tesouro na gestão da dívida pública a baixo custo. O nosso faz isso em parte. Se o senador Renan conseguir emplacar sua chantagem, estaríamos todos fritos. Melhor será desengavetar o projeto do Senador Lindberg que propõe o objetivo tríplice do BC, conforme o exemplo americano, ou seja, promover a estabilidade, o crescimento e o emprego.
Simplício ditou para Angeline colocar na agenda vermelha: “A máxima interferência política num banco central é tentar fazer dele um banco central independente da política e dependente da banca.”
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