3 de junho de 2026

Debate: A ESQUERDA BRASILEIRA ESTÁ UNIDA COM A ELITE

A ESQUERDA BRASILEIRA ESTÁ UNIDA COM A ELITE ?

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Algumas considerações sobre a unidade da esquerda 

 

segunda-feira, 09 de abril de 2012

 

 

Rui Costa Pimenta

 

Somos informados pelo sítio da Liga Comunista na internet que foi realizada palestra em Porto Alegre com o dirigente do Partido Obrero da Argentina, Jorge Altamira, e que ali ele pregou como questão fundamental a “unidade da esquerda” brasileira.

 

Essa é uma questão que tem estado em pauta há algum tempo no interior da esquerda brasileira de forma concreta e é oportuno esclarecê-la uma vez mais, dado que o partido que a formula aparentaria ser ela uma novidade na política nacional. 

 

Colocar as divergências de lado 

 

O dirigente político argentino teria, segundo o mesmo relato, proposto colocar de lado todas as divergências entre a esquerda nacional, dando inclusive como exemplo, a questão do aborto, que seria, segundo ele, uma questão de “quarta ou quinta importância”, como meio para atingir a unidade.

 

Não fica claro na matéria qual seria o objetivo da “frente de esquerda” e qual seria a esquerda que deveria compô-la, embora seja evidente pelas circunstâncias e, também, pelos acontecimentos políticos recentes relativos à esquerda argentina, que se trata de uma proposta geral, de longo alcance, e não de uma frente única para lutar por determinadas reivindicações ou propósitos.

 

Pela referência à questão do aborto, fica evidente que a frente proposta envolveria os parlamentares burgueses saídos, nos últimos tempos, do PT e que hoje estão no Partido Verde e sua periferia, como Marina Silva e Heloísa Helena. Fica evidente também que a proposta se refere, acima de tudo, aos partidos que compuseram, nas penúltimas e últimas eleições presidenciais brasileiras, a chamada Frente de Esquerda, integrada por Psol, PCB e PSTU que, como todos sabem, formam uma espécie de bloco político.

 

Apesar do caráter de esboço da proposta, tal como aparece na matéria, é um assunto que merece aqui uma consideração, porque se encontra no centro dos acontecimentos, embora não da maneira que o dirigente de esquerda argentino quer apresentar. 

 

A esquerda já está unida, mas com a burguesia 

 

O apelo à unidade de esquerda é uma das maiores trivialidades do senso comum político. Ela tem um apelo sempre presente para os militantes menos críticos – que não conseguem ver a relevância das divergências para a unidade, menos ainda que as diferenças são impeditivas de qualquer unidade real e, acima de tudo, que não conhecem quais condições são necessárias e obrigatórias para que a unidade seja efetiva e não uma simples demagogia política. Esse senso comum esquerdista e pequeno-burguês consegue, em determinadas oportunidades, exercer uma grande pressão para que a ala esquerda do movimento operário se adapte politicamente à ala direita, oportunista, ligada à burguesia.

 

Outra coisa é a união da esquerda em torno de uma luta real, de massas etc. Nesse caso, esse mesmo senso comum termina sempre justificando a política inevitável de ruptura da própria ala direita, mesmo contra a vontade dos operários ou de quem quer que componha o movimento de luta. Em resumo, tomar em abstrato a política de “unidade da esquerda” é uma trivialidade do senso comum que expressa, de um ponto de vista de classe, a necessidade dos elementos pequeno-burgueses superarem os problemas reais de organização por meios não apenas artificiais mas também ilusórios.

 

O proveito desse tipo de política é sempre tirado em favor dos politiqueiros pequeno-burgueses em seus cálculos e comércio eleitoral e constitui não uma alavanca para avançar, mas um obstáculo no sentido do desenvolvimento das lutas independentes dos trabalhadores, da sua organização independente e da formação de um movimento revolucionário geral. O maior exemplo disso é a própria Frente de Esquerda, que não consegue ocultar o interesse por garantir cadeiras parlamentares para meia dúzia dos seus dirigentes, não se detendo diante de nenhum tipo de aliança oportunista, como veremos adiante.

 

Resumidamente, a “frente única” da esquerda pequeno-burguesa é mais uma corrente colocada no pé da classe operária e, em particular, dos militantes que procuram o caminho da ruptura com a política oportunista, de colaboração com a burguesia.

 

No Brasil, essa situação é sobremaneira clara, porque a “unidade da esquerda” não precisa ser realizada: ela já foi realizada há muito tempo em torno da frente popular dirigida pelo PT, ou seja, na forma de unidade da esquerda… com a burguesia. Em todos os lugares, os principais partidos de esquerda, PT, PCdoB, PSTU e Psol, aparecem sempre unidos… contra o movimento operário independente, e essa unidade foi, durante muitos anos, um fator fundamental no estrangulamento de todas as tendências combativas e independentes no interior do movimento operário, popular e da juventude.

 

PSTU e Psol querem – e em certa medida conseguem – fazer com que uma parcela dos ativistas que rompem com o PT acredite que é uma verdadeira oposição classista à política oportunista e contrarrevolucionária desse partido. Essa crença, no entanto, não tem caráter objetivo, uma vez que nunca, em momento algum, se manifesta em uma divergência real e, menos ainda, em luta real no interior das lutas operárias e estudantis. Em todos os lugares, a política a ser levada por eles é a mesma política de contenção do movimento, de perseguição aos elementos combativos e de liquidação das organizações de luta, sob a orientação de uma burocracia.

 

As divergências dizem respeito exclusivamente a eleições e às disputas por cargos dentro das entidades estudantis e operárias. Que ativistas sem experiência não consigam enxergar esse fato e confundam o discurso eleitoral com uma luta de classes, é natural; o mesmo, no entanto, não pode ser dito de dirigentes experientes que não enxergam claramente o caráter oportunista desse tipo de “oposição” e a função política dela, que é a de guarnecer a ala esquerda da política da burocracia contra as massas. O exemplos estão aí, em grande quantidade: bancários, onde a “oposição” propõe abertamente dividir a categoria na campanha salarial; professores de São Paulo, onde PSTU, Psol, PT e PCdoB dirigem juntos o sindicato; Metalúrgicos de São José dos Campos, onde o PSTU sabota abertamente a luta contra as demissões; metroviários de São Paulo, onde o PSTU alia-se com a segurança do metrô e onde não há verdadeira campanha salarial; correios, onde o PSTU atua abertamente na defesa da burocracia e da política de privatização; e, mais abertamente, a política frontalmente contrária ao movimento de luta dos estudantes da USP, que estão sendo atacados pela direita reacionária.

 

Pedir a união das esquerdas nessas condições, sem nenhuma base no movimento de luta, sem nenhum objetivo definido de luta, ou é ingenuidade, para os que podem ser efetivamente considerados ingênuos, ou é uma política ferozmente oportunista. 

 

Uma frente sem conteúdo revolucionário 

 

Segundo a matéria que estamos comentando, o dirigente argentino teria dito que é preciso deixar de lado as divergências e buscar a união, uma fórmula claramente oportunista. O princípio da frente única, para um partido revolucionário, não é deixar de lado as divergências, que normalmente correspondem a interesses de classe contrapostos. O princípio é buscar a união sempre e quando os oportunistas e os centristas – colocados sob a pressão do movimento real das massas –  sentirem-se pressionados a agir em função das reivindicações desse mesmo movimento. Nesse caso, utilizar as divergências no sentido do rompimento seria uma política criminosa, mas abrir mão delas em nome da unidade seria mais criminoso ainda. A unidade da esquerda não será produto das opiniões, mas das condições objetivas. Eis a sua viabilidade.

 

O mais significativo, no entanto, é o exemplo de qual divergência teria que ser deixada de lado para se obter essa suposta unidade: a luta pelo aborto, a qual o palestrante considerou como “de quarta ou quinta importância[1]” (Liga Comunista). O exemplo em si esclarece muita coisa.

 

Em primeiro lugar, a questão do aborto, mesmo tomada isoladamente, está longe de ser uma questão menor, uma vez que há um amplo movimento de mulheres a favor dela e que diz respeito aos interesses de metade da população e, também, de cerca de metade da classe operária. Essa importante divergência poderia ser deixada de lado caso se tratasse de um acordo pontual, de uma luta por uma questão específica ou, mesmo, por um conjunto delas. Por exemplo, em uma frente para a derrubada do reitor-interventor, Rodas, na USP (o que, diga-se de passagem, seria impossível nessa frente, porque a “esquerda” não quer lutar por essa reivindicação e negocia com Rodas pelas costas dos estudantes) ou para ocupar a reitoria (coisa a que esquerda se opôs abertamente, fazendo uma frente com o próprio Rodas, a PM e a direita), não há sentido em levantar-se a questão do aborto, fazendo dessa questão um pretexto para não realizar-se essa frente de luta. Diga-se de passagem que a esquerda tentou utilizar o problema da mulher para atacar um dos principais dirigentes da luta da USP, o companheiro Rafael Alves, com calúnias.

 

O problema está, no entanto, que não se trata de uma frente única de luta (marchar separados, golpear juntos), mas uma frente de esquerda indefinida (marchar juntos e, nesse caso, provavelmente nunca golpear ninguém). No caso hipotético de uma frente como essa, cujo único sentido geral é formar um bloco eleitoral, a questão do aborto seria fundamental, porque o bloco permanente, que é quase um partido comum, tem que ter um programa claro sobre todas as questões fundamentais. A própria objeção deixa claro que uma frente de esquerda, concebida sobre essas bases, seria uma manobra oportunista típica, fundamentada num programa comum que, nesse caso, não passará de um arrolamento de pontos que constituem um mínimo denominador comum político e ideológico, ou seja, uma verdadeira indigência política sem utilidade alguma para as massas e, na prática, demagogia eleitoral esquerdista. 

 

A questão do aborto: a “esquerda” em aliança com a direita fascitóide

 

A utilização do exemplo do aborto é uma revelação da política que está sendo proposta, em mais de um sentido. É de conhecimento público que a questão do aborto está longe de ser um problema meramente ideológico, mas um problema político com consequências diretas sobre as lutas operárias. O que a esquerda, por meio de sua porta-voz, Heloísa Helena, propôs, não era apenas uma oposição ideológica ao aborto – o que já seria inadmissível em uma campanha eleitoral presidencial de uma “frente de esquerda” –, mas uma coisa muito diferente: que as mulheres que fazem aborto sejam reprimidas pelo aparelho de Estado, controlado pelos exploradores. Isso significa que se colocam não apenas fora da classe operária, mas contra ela, e ao lado da burguesia. Pois, de um ponto de vista prático, nem seria necessário dizer que a burguesia jamais seria reprimida por uma medida dessa natureza, uma vez que não há lei contra fazer aborto em uma clínica de luxo nos Estados Unidos. Pelo menos, por enquanto. Em suma, a questão do aborto coloca em evidência o fato de que a esquerda se posiciona no terreno do Estado capitalista contra os explorados.

 

Esse fato, trazido à tona pelo próprio exemplo dado na palestra, demonstra que não se trata apenas de deixar divergências “secundárias” de lado. trata-se sim de realizar uma frente completamente sem princípios revolucionários, cujo único resultado seria o de enganar os ativistas, os movimentos e os trabalhadores – por meio de um confusão política oportunista da pior espécie entre os que defenderiam a classe operária e os explorados e os que se colocam no terreno dos exploradores.

 

Por mais importante que tudo isso seja, e efetivamente é decisivo para uma política revolucionária, ainda não esgota o problema.

 

A questão do aborto no Brasil e a posição da esquerda a respeito disso estão longe de ser uma questão isolada, doutrinária, como dá a entender o exemplo utilizado na palestra. Existe no Brasil um poderoso lobby contra o aborto, que é um dos grandes núcleos de organização da direita fascistóide, organizado pela Opus Dei, pelo vaticano e pela direita imperialista. Heloísa Helena, pública e notoriamente, é integrante formal e consciente desse lobby, onde faz o papel de fachada de esquerda para a atividade de propaganda dos mais reacionários elementos fascistóides vinculados ao antigo regime militar e à direita religiosa. A questão do aborto colocou em evidência uma aliança oportunista e contrarrevolucionária entre a Frente de Esquerda e essa direita. Nas eleições de 2006, quando a tal frente foi formada, ninguém se manifestou contra esse fato. Tampouco se manifestou contra o fato de que a campanha presidencial da “unidade de esquerda” tenha sido utilizada para fortalecer a campanha antiaborto da direita.

 

Também não é segredo para ninguém que esse lobby tem um programa contrarrevolucionário completo para a atual conjuntura política, o qual abrange maior repressão policial, censura, liquidação de todos os direitos democráticos das massas etc. O exemplo deixa ocultos todos esses fatos e essa situação política, bem como a política criminosa dessa esquerda, tudo em nome de que se deve fazer uma frente de esquerda.

 

Há ainda, um problema: a questão do aborto foi usada para depreciar a importância das divergências existentes no interior da esquerda e que deveriam ser deixadas de lado em prol da unidade. Ocorre que o exemplo escamoteia ainda que essa não é a única divergência que se expressou no interior da esquerda. A Frente de Esquerda levou às eleições um programa antioperário e antipopular completo, defendendo que o Estado financiasse as empresas imperialistas, maior repressão policial (contra a classe operária), aberta aliança com os empresários, inclusive monopolistas (Gerdau), repressão aos sem-terra. Para fazer uma frente de esquerda, somos obrigados a concluir, teríamos que  nos aliar com o famigerado “Capitão Nascimento”, o capitão do Bope (!) que elabora o programa de segurança(!) do Psol!

 

Na realidade, reivindicar que seja deixada de lado a questão do aborto equivale a pedir uma capitulação em toda a linha diante da ofensiva direitista. 

 

A mola mestra da frente popular brasileira 

 

Todo o segredo do sucesso presente do PT, no Brasil, e de Lula está no fato de que a frente popular formada em 1989 foi capaz – apoiando-se nas derrotas que eles mesmos provocaram nas lutas operárias e populares em um período político mundialmente desfavorável para as lutas operárias, caracterizado pela superabundância de oferta de mão-de-obra mundial – de controlar as organizações operárias e populares e conter a sua luta.

 

Nesse mecanismo essencial, aquilo que chamamos de Bando dos Quatro – formado pelos partidos de esquerda, PT, PCdoB, PSTU e Psol – foi a unidade para quebrar as lutas, dividir os trabalhadores e, sobretudo, impedir – inclusive por meio da perseguição política aberta – o surgimento ou o desenvolvimento de uma militância e de uma organização combativa no interior desses movimentos.

 

Sem a CUT, todo o atual predomínio do PT seria completamente inviável.

 

A frente de esquerda constituiu-se, durante todo esse período, em uma oposição oficial: algo que foi admitido e até mesmo apoiado pelo PT. A tática dela nunca foi além de uma manobra parlamentar para apresentar-se como oposição, copiando a tática do PT em relação ao PSDB nos mesmos anos. A formação de organizações divisionistas como Conlutas e Intersindical, em vez de levar a uma verdadeira ruptura política com a burocracia oficial dos sindicatos e demais movimentos, apenas permitiu uma maior margem de manobra nesse jogo parlamentar.

 

A esquerda aparece dividida nas eleições, o que é parte desse jogo de cena, uma vez que a ala esquerda do Bando dos Quatro, ou seja, da frente popular, não tem condições de manter a sua demagogia oposicionista e aceitar responsabilidades governamentais que a levariam a uma crise terminal. No entanto, atua como bloco para frear quaisquer tendência de luta no movimento sindical.

 

O agrupamento do palestrante em questão, na medida em que já existe no Brasil, foi sempre parte desse bloco de esquerda, em particular na Andes e no movimento sindical-estudantil da USP, onde permanece aliado com os que têm sido o maior obstáculo ao desenvolvimento da luta estudantil. Nesse sentido, não há nenhuma novidade na proposta, exceto um reconhecimento mais aberto dessa orientação política. 

 

A unidade deles e a nossa 

 

A classe operária, a juventude e os movimentos populares estão despertando para a luta depois de um longo período de refluxo como o demonstram a greve de 30 dias nos Correios e a luta dos estudantes da USP, entre outros.

 

Uma frente como a que está sendo proposta somente tem sentido eleitoral, ou seja, acabaria servindo aos setores mais oportunistas e aos setores burgueses da esquerda (Heloísa Helena e Plínio de Arruda Sampaio, os candidatos presidenciais da esquerda mais em evidência, são ambos políticos burgueses) capitalizar a imaturidade desse movimento de luta para  um objetivo e uma direção que só podem significar uma política de estrangulamento desses movimentos. A chave da situação está justamente no polo oposto da proposta: é a independência de todas as variantes da frente popular e da sua politica, de todas as variantes de política burguesa e pequeno-burguesa. A frente popular é não apenas uma das variantes, mas uma das mais importantes, pelo menos diante dos setores mais esclarecidos politicamente.

 

A pedra de toque de toda a possibilidade de unidade – e este é o método revolucionário – é a luta das massas em desenvolvimento. É preciso oferecer um programa revolucionário – por um governo operário – e uma organização para essas lutas e para o seu desenvolvimento. Essa é a única unidade que pode interessar aos que buscam uma perspectiva revolucionária neste momento.

 

Redação

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