“Deu no New York Times!”: Resolvendo (alguns dos) nossos problemas com drogas menos lesivas do que outras que já legalizamos.
http://www.nytimes.com/interactive/2014/07/27/opinion/sunday/high-time-marijuana-legalization.html
Uma esclarecida e corajosa posição essa assumida pelo New York Times numa questão que é ainda discutida entre nós em meio a preconceitos, desinformação e oportunismo. Aliás, como seria louvável se, também em matéria de política, a nossa imprensa adotasse essa prática do jornalismo norte-americano de assumir abertamente a sua posição, livrando-nos de conviver com essa hipocrisia de uma neutralidade que nunca é respeitada.
É civilizador reconhecer a nossa contradição moral em permitir a produção, a venda e a massiva propaganda das drogas prediletas dos honrados papais, mamães, titios e vovôs, consumidas livremente nos lares, restaurantes, aniversários de crianças e festas de igreja, e ao mesmo tempo proibir a produção e venda da droga do agrado dos seus criminosos filhos, sobrinhos e netos, muito menos nociva, segundo a maioria das pesquisas, sob qualquer critério que se considere (médico, psíquico ou social).
Um dia, quem sabe, em outra galáxia ou no ansiado paraíso, uma outra sociedade, talvez constituída por outra espécie de seres, provavelmente mais elevados intelectualmente, se convencerá de que a droga é de fato um mal. Mas até que chegue esse dia, um contingente expressivo de indivíduos que integram as sociedades históricas que conhecemos continuará a fazer uso de drogas (álcool, tabaco, maconha, comprimidos etc.) para dar conta da sua vida, suportar as suas tristezas e dores, celebrar as suas alegrias, tornarem-se socialmente mais agradáveis.
Reconhecer esse fato inexorável não significa considerar o consumo de drogas algo socialmente valioso, algo que deva ser incentivado como uma conduta a ser cultivada pelos indivíduos ou ensinada às crianças. Menos ainda que a descriminalização significará a resolução de todos os problemas associados às drogas.
Ao contrário, significa apenas reconhecer humildemente que descriminalizar a produção, a venda e o consumo de algumas drogas menos nocivas que o álcool e o tabaco permitiria pelo menos atenuar alguns dos mais graves problemas decorrentes do fenômeno das drogas: o efeito deletério do poder econômico do tráfico sobre a sociedade (recrutando continuamente novos traficantes, aviõeszinhos etc.) e o aparato estatal (corrompendo em larga escala as estruturas policiais, o Ministério Público e os juízes); e o estigma de criminoso atribuído aos usuários, impedindo o seu acolhimento e tratamento como um indivíduo que necessita fundamentalmente de apoio médico, psicológico e social.
Enfim, legalizar a produção e o consumo dessas drogas menos lesivas que outras que já legalizamos não nos conduzirá a uma condição moral superior, mas certamente nos fará viver num mundo muito menos inseguro e doente do que esse em que vivemos, imerso, perplexo, numa interminável, insana e estéril guerra contra as drogas.
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