Autora: Mariana Desidério Barbosa
Do Edifícios Abandonados | São João, 601
São João, 601
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Jailson trabalha num lugar insalubre, fechado, escuro e frio. Ao longo dos anos ele e seu colega foram ajeitando o espaço. Um fio elétrico vindo sabe-se lá da onde permite uma lâmpada e uma televisão. A antena fica em cima de uma banco alto, no meio do salão, onde capta melhor o sinal. Os dois passam o dia ali, sem muito o que fazer. Costuram suas próprias roupas, veem tevê, lavam com a mangueira o chão de cimento.
O trabalho deles mesmo é garantir que ninguém entre no prédio de 21 andares inacabados no número 601 da avenida São João – o nunca inaugurado Aquarius Hotel. Bato na porta meio insegura e Jailson se anima com a possibilidade de conversar. Manda entrar, oferece um café. O outro segurança, mais arredio, continua em seu canto desconfiado. Não quer papo, não diz nem o nome. Permanece sentado numa das três cadeiras remendadas, costurando uma roupa sob a lâmpada amarela.


Jailson trabalha como segurança ali há oito anos. Neste tempo o prédio continuou o mesmo. Lá em cima, segundo ele, os apartamentos estão 70% prontos. A parte de baixo está menos adiantada, com o cimento à mostra. “Podemos subir?” “Não… a porta está fechada. Mas você ia ficar com medo de subir lá. Tudo escuro.”
Durante a construção do hotel, morreu Messias Pedreiro, pai dos sete irmãos proprietários do lugar e a família desgostou do negócio, conta Jailson. Nem terminou o prédio, nem entrou num consenso para vender o imóvel. Três irmãos queriam vender e os outros quatro não queriam – e a maioria vence. No impasse, o hotel ficou assim, inacabado e fantasmagórico.
Agora, parece que os irmãos finalmente se acertaram para vender o prédio para a Cohab, e o lugar deve virar moradia para pobres, como aconteceu com o edifício ao lado, no número 613, já desapropriado. Dizendo temer invasão de sem-teto no prédio, a prefeitura não confirma nem desconfirma o negócio, mas parece que é isso mesmo.
Já os proprietários não quiseram falar. Depois de muita insistência, (e paciência com uma família de pessoas arrogantes), Ricardo Pedreiro, o presidente da Aquarius Hotel, empresa que administra o empreendimento fantasma, atendeu o telefone para dizer que não foi autorizado pelos sócios a dar entrevista. Disse apenas: “Ali não tem história, não. A gente construiu pra fazer um hotel e não deu certo. Agora estamos tentando vender o edifício”. Deixou escapar algo sobre um processo de desapropriação, mas sem detalhes.
O cartório registra que a Aquarius Hotel comprou o terreno de Messias Pedreiro e Catharina Netto Pedreiro, da família de Ricardo e seus irmãos, em 1972. Antes disso, em 1960, o lugar foi alugado para a Loja 601, da Dinucci & Cia. Ltda, provavelmente anterior ao início da construção do hotel.
Com seus 21 andares, maior do que todos os prédios do quarteirão, o edifício é um grandioso elefante branco no meio da São João. Diferente de outros imóveis abandonados, a fachada do Aquarius Hotel não tem nenhuma pichação, o que aumenta a sensação de lugar fantasma. O prédio também nunca foi ocupado, sinal que Jailson e seu companheiro são eficientes no trabalho. Embaixo, funciona um estacionamento, que deve ajudar a pagar o IPTU.
Em volta, os trabalhadores da São João se indignam com o abandono, fruto, no fim, de uma briga de família. Conversei com eles procurando mais detalhes sobre a história do lugar e para saber o que acham do abandono. Ninguém nunca viu atividade ali, mesmo quem trabalha na vizinhança há dez anos, como é o caso de José Betânio, gerente de um sebo. “Nunca vi nada, só o prédio apodrecendo, o pessoal mijando aí na calçada e pronto”, diz, limpando vinis da loja. Exceção, ele mora na Bela Vista e vai a pé para o serviço. A maioria dos trabalhadores dali, no entanto, demora ao menos uma hora para chegar.

Morador de Embu das Artes, Edvanio Emídio da Silva, leva mais de duas horas entre sua casa e o trabalho, ao lado do prédio vazio. Está na São João há sete anos e nunca viu atividade no edifício. Ultimamente tem ouvido boatos de que a prefeitura vai fazer alguma coisa ali. Para ele, mais do que na hora. “Essa partezinha aqui está bem abandonada. Isso acaba com o centro. Tem que ter pessoas morando, pelo menos o pessoal que não tem moradia tem que estar morando nesses lugares aí.” Com pressa para não deixar o almoço esfriar, pede licença e se despede.
A faxineira Marinalva Sousa pensa do mesmo jeito e adoraria comprar ela mesma um canto para morar mais perto do trabalho. Hoje vive no Jabaquara. “Eu me interessaria em comprar um apartamento aqui, principalmente porque tenho problema nas pernas, nos ossos. Mas não compro porque não tem, né? Esse prédios estão todos abandonados. Na minha cabeça não era derrubar, era reformar o mesmo modelo antigo – porque o que é antigo tem valor – e vender pras pessoas. Porque você sabe que tem muita gente empregada que não tem moradia. Eu não tenho moradia, eu moro de aluguel.”

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