4 de junho de 2026

Edifício Abandonado: São João, 613 – São Paulo

Autora: Mariana Desidério Barbosa

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Do Edifícios Abandonados | São João, 613

São João, 613

São João, 613

Todos os dias, Valcyr pega seu Corsa simples e sai do Jardim Elisa Maria, na periferia da zona norte, para trabalhar num estacionamento na avenida São João. Resolveu comprar o carro para conseguir descansar um pouco mais. Antes precisava de dois ônibus para chegar em casa. Com as esperas no terminal, as paradas em cada ponto, o trânsito imprevisível, levava 1 hora e 20 minutos no trajeto. Com o carro, são 50 minutos.

Há pouco tempo trabalhando na São João, ele não sabia que ali do lado, ao menos três prédios estão abandonados há anos. Pergunto o que acha disso. Ele pensa um pouco e diz o que lhe parece o mais sensato: “Devia ter uma explicação, porque se tem gente que mora longe e trabalha aqui pelo centro, tinha que ter utilidade de alguma forma. É uma perda muito grande pro proprietário, por exemplo.” Pensa mais um tantinho e imagina se o prédio fosse seu: “Certamente ele não está precisando de dinheiro. Se fosse comigo eu dava algum jeito”.

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O pedaço da avenida São João entre a Ipiranga e o Largo do Paissandú tem uns três ou quatro prédios abandonados, alguns há mais de dez anos. Os trabalhadores que convivem com estes vácuos de concreto saem todos os dias de Jardim Elisa Maria (zona norte), Jabaquara (zona sul), São Mateus (zona leste), Embu das Artes e podem levar horas para chegar ao trabalho. Muitos gostariam de poder morar mais perto do serviço, gastar menos horas no ônibus, descansar mais, viver melhor. Mas não dá.

Com cara de neoclássico – fachada toda trabalhada, sacadas charmosamente arredondadas, cantos desenhados e, no topo, coroas que terminam de adornar a obra – o Palacete Cinelândia, no número 613, é um dos prédios vazios na São João. Até o início deste ano, o imóvel era propriedade da família Zogbi, através da Campineira Patrimonial. O grupo é dono do extinto banco Zogbi, vendido para o Bradesco em 2003.

Após a venda do banco e da fabricante de papel Ripasa, a família se dividiu. A ala que ficou com o antigo hotel criou a Campineira Patrimonial e trabalha com “negócios em geral”, dentre eles tecidos e roupas e incorporação imobiliária. Quem cuida dos negócios é Nelson Zogbi, mas ele não quis falar sobre o prédio. |Um outro Nelson – Nelson Bedin –, também do grupo Zogbi, muito solícito, contou rapidamente por telefone um pouco da história do hotel.

Os Zogbi compraram o imóvel do conde Crespi, italiano dono de uma grande indústria de algodão no Brasil do início do século XX, dono do jornal Il Piccolo, de linha fascista, e responsável pela criação do Clube Atlético Juventus de futebol. O título nobre, Crespi ganhou do governo italiano. Bedin não soube dizer o que o prédio abrigava na época.

Desde que foi comprado pela família Zogbi, em 1957, ali sempre foi hotel. “Chegou a ser um bom hotel e com o tempo apareceram melhores. depois passou a ser alugado, até que o próprio inquilino deixou de pagar”, resume.

Chegou o momento do despejo, em 2003, mesmo ano da venda do banco Zogbi. Muitos hóspedes ainda estavam nos quartos na hora da retomada do edifício. Gente que vivia ali há 20 anos e não tinha nada a ver com o não pagamento do aluguel pelo administrador.

Com o prédio de volta a família se viu diante de um impasse. Tinham um edifício em péssimo estado, com a fachada tombada e tinham medo de perder dinheiro. No vácuo dessa dúvida, o lugar ficou abandonado e assim permanece até hoje. Foram oito anos de indecisão, de pouca vontade de investir numa região cheia de prédios abandonados, desvalorizada. Medo de perder dinheiro. Deste período, o imóvel não acumula dívidas, mas gerou muitas despesas à família.

“A única entidade que pode fazer alguma coisa é a prefeitura, porque pode gastar dinheiro sem ter que ter um retorno imediato. Valeria mais lá se o centro estivesse renovado. Aí a própria iniciativa privada investiria, não precisava nem falar. O empresário não é bobo”, diz Zogbi.

E a Prefeitura de São Paulo comprou mesmo o imóvel no início de 2011, por R$ 4,2 milhões, dentro de um programa que pretende desapropriar 53 prédios abandonados no centro. Para os Zogbi foi um ótimo negócio.Os quartos de hotel, com um cômodo e banheiro, serão adaptados para ganhar sala e cozinha e virarão apartamentinhos para moradia de artistas aposentados pobres – com renda de 1 a 3 salários.


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